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9 de junho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

Tal é o mistério da Ascensão de Jesus: sublime glorificação de Jesus Cristo acima de toda a criatura, à
direita do Pai.
Jesus «saiu do Pai» - Exivi a Patre - e «voltou ao Pai», depois de ter cumprido a Sua missão neste mundo: Et vado ad Patrem. «Como um gigante lançou-se a percorrer o Seu caminho»: Exsultavit ut gigas ad currendam viam. « Desceu do mais alto dos céus», do santuário da Divindade - A summo caelo egressio ejus - e « sobe acima de todas as coisas para ai gozar da glória, da beatitude e do poder divinos: Et occursus ejus usque ad summum ejus? 
No que tem propriamente de divino, este triunfo é privilégio exclusivo de Cristo Homem-Deus, Verbo Incarnado. Só Jesus, na qualidade de Filho de Deu, de Redentor do mundo, tem direito a esta glória infinita. Por isso diz S. Paulo: «A quem dos anjos disse jamais Deus: Senta-te à minha direita»? 
O próprio Nosso Senhor exprimia idêntico pensamento no seu colóquio com Nicodemos: « Ninguém subiu ao céu senão aquele que de lá desceu, o Filho do Homem que está no céu ». Nemo ascendit in caelum, nisi qui descendit de caelo, Filius hominis qui est in caelo. Jesus é o Filho do Homem pela Incarnação; mas, ao incarnar, permaneceu Filho de Deus, que está sempre no céu. Tendo descido do céu, do seio do Pai, para revestir a nossa natureza, Jesus Cristo para lá sobe como para Sua morada natural; só Ele, verdadeiro Filho de Deus, tem pleno direito de voltar para junto do Pai, participar das honras sublimes da Divindade, só a Ele reservadas: Nemo ascendit . . . nisí qui descendit.
E nós não entraremos também nos céus? Seremos excluídos dessa morada de glória e bem aventurança.?
Não teremos parte na Ascensão de Jesus? Está claro que sim; mas, bem o sabeis, é por Cristo e em Cristo que entramos no céu.
Como? Pelo Batismo que nos torna filhos de Deus. Nosso Senhor revelava, no mencionado colóquio
com Nicodemos: Nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto, non potest introire in regnum Dei:
«Aquele que não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus». É como se dissesse: Não se pode entrar no céu, se não se renascer de Deus; há um nascimento eterno no seio do Pai; é o meu; com pleno direito, subo ao céu, pois sou o próprio Filho de Deus, gerado nos esplendores santos; mas há outra categoria de filhos de Deus: a dos « que nascem d'Ele» pelo
Batismo - Ex Deo nati sunt .
Estes são filhqs de Deus e, por conseguinte, diz S. Paulo, « Seus herdeiros»: Si filii et heredes; «herdeiros de Deus, co-herdeiros de Jesus Cristo»: Coheredes Christi, os quais, por conseguinte, terão parte na Sua herança eterna.
Tornando-nos filhos de Deus, o Batismo torna-nos também membros vivos do corpo místico, de que Jesus Cristo é cabeça. S. Paulo é bem explícito a este respeito: Vos estis corpus Christi, et membra de membro: « Sois o corpo de Cristo e membros uns dos outro»; e mais vivamente ainda: "Ninguém despreza a própria carne; pelo contrário, cuida dela e sustenta-a; vós sois da carne de Cristo e dos Seus ossos »: De carne ejus et de ossibus ejus.
Ora os membros têm parte na glória da cabeça e a alegria duma pessoa irradia por todo o corpo. Eis
por que participamos de todos os tesouros que Jesus Cristo possui; as Suas alegrias, as Suas glórias e a Sua beatitude tornam-se nossas.
Tal é a maravilha da misericórdia divina. «Deus é rico em misericórdia, exclama o Apóstolo; devido ao amor imenso que nos tinha, apesar de estarmos mortos pelo pecado, vivificou-nos com Cristo (pois foi pela Sua graça que fostes salvos ): ressuscitou-nos com Ele; fez-nos sentar todos com Ele nos céus, para assim manifestar aos séculos futuros a riqueza infinita da Sua graça, pela bondade que nos testemunha em Jesus Cristo».
E como tudo o que faz o Pai o faz igualmente o Filho, Jesus Cristo arrasta consigo a nossa humanidade para a fazer sentar na glória e na beatitude. O grande feito de Jesus, a magnífica proeza desse gigante divino, foi abrir de novo, pelos Seus sofrimentos, as portas do céu à humanidade decaída, transportando-a consigo aos esplendores do céu: Unitam sibi fragilitatis nostrae substantiam,
in gloriae tuae dextera collocavit. Est elevatus in caelum, ut nos divinitatis suae tribueret esse participes.
Quando Jesus Cristo subiu ao céu, diz S. Paulo, entrou com Ele um cortejo de almas santas, conquista
gloriosa: Captivam duxit captivitatem. Mas, estes justos que acompanhavam a Jesus no Seu triunfo eram apenas as primícias de inúmeras colheitas. A ascensão das almas ao céu faz-se sem cessar, até ao dia em que o reino de Jesus tenha atingido a medida da sua plenitude.
"A ascensão de Cristo é também nossa; e na glória da cabeça é que se firma a esperança do corpo. Neste santo dia, não recebemos somente a garantia de entrar na posse da glória eterna, mas penetramos realmente nas alturas dos céus com Jesus Cristo». «As astúcias do antigo inimigo 
tinham-nos afastado da primeira morada de felicidade; incorporando-nos a Si, o Filho de Deus colocou-nos à direita do Pai", Quos inimicus primi habitaculi felicitate dejecit collocavit.
Agora compreendemos o coro de ação de graças que os eleitos entoam em louvor do Cordeiro imolado pelos homens! Agora compreendemos aquelas exclamações e adorações que incessantemente oferecem a Aquele que lhes mereceu, por indizíveis tormentos, a bem -aventurança sem fim!
Ainda não chegou para nós a hora desta glorificação. Mas, enquanto esperamos para nos unir ao coro dos bem aventurados, devemos, pelo pensamento e santos desejos, habitar nesse céu onde Cristo, nosso chefe, vive e reina para sempre.
Nesta terra, somos apenas hóspedes e peregrinos, em busca da Pátria: como membros da cidade dos santos e da casa de Deus, «pela fé e pela esperança, diz S. Paulo, devemos desde já viver no céu».
É esta igualmente a graça que a Igreja nos faz pedir a Deus nesta solenidade: «Concedei-nos, Deus todo poderoso, a nós que acreditamos que o Vosso Filho único, nosso Redentor, subiu hoje ao céu, a graça de também nós ai habitarmos pelo pensamento": Ipsi quoque mente in caelestibus habitemus. Na Postcommunio da mesma missa, pedimos a graça de sentir os efeitos invisíveis dos Mistérios de que participamos de modo visível: Ut quae visibilibus mysteriis sumenda percepimus, invísibili consequamur effectu. Pela Comunhão, unimo-nos a Jesus; ao vir a nós, Nosso Senhor dá-nos a graça de partilhar, em esperança, da glória de que Ele goza na realidade: « disso nos dá até o penhor": Et futurae gloriae nobis pignus datur.
Oh! dir-lhe-emos, arrastai-nos convosco, triunfador magnífico e todo poderoso: Trahe nos post te; dai-nos a graça de subir aos céus, de aí morar pela fé, pela esperança e pelo amor! Fazei com que nos desapeguemos das coisas da terra, que são fugazes, para só procurar-mos os verdadeiros bens que sempre duram! Oxalá «venhamos a estar, pelo coração, lá para onde sabemos que a Vossa santa Humanidade foi corporalmente elevada»! Ut illuc sequamur corde, ubi eum corpore ascendisse
credimus.

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