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30 de junho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

De fato, qual foi a ação do Espírito Santo na alma dos Apóstolos no dia do Pentecostes?
Para bem a compreender, convém recordar primeiramente a doutrina da Igreja sobre os caracteres das obras divinas. Sabeis que, no domínio da vida sobrenatural, da graça, bem como das obras da criação natural, tudo o que é produzido fora de Deus, no tempo, é feito pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo, sem distinção de pessoas. As três pessoas operam então na unidade da natureza divina. A distinção das pessoas só existe nas comunicações incompreensíveis que constituem a vida íntima de Deus em Si mesmo.
Mas, para melhor nos lembrar estas revelações sobre as pessoas divinas, a Igreja, na sua linguagem, atribui especialmente esta ou aquela ação a uma das três pessoas divinas, em razão da afinidade existente entre essa ação e as propriedades exclusivas pelas quais esta pessoa se distingue das outras.
Assim, o Pai é o primeiro princípio, que não procede de nenhum outro, mas do qual procedem o Filho
e o Espírito Santo. Por este motivo, a Ele em particular é atribuída a obra que marca a origem primeira de todas as coisas. Foi o Pai sozinho que criou? Evidentemente que não; o Filho e o Espírito Santo criaram ao mesmo tempo que o Pai e em união com Ele. Mas, entre a propriedade peculiar do Pai, de ser o princípio primeiro nas comunicações divinas, e a obra da criação, há uma afinidade, em virtude da qual a Igreja pode, sem errar na doutrina, atribuir a criação especialmente ao Pai.
O Filho, o Verbo, é a expressão infinita do pensamento do Pai, é principalmente considerado como sabedoria. São-Lhe particularmente atribuídas as obras em que sobretudo se manifesta esta perfeição, como na disposição do mundo. Com efeito, «Ele é aquela Sabedoria que, saída da boca do Altíssimo, atinge e fixa todas as coisas em perfeito equilíbrio, com tanta força como suavidade ». O sapientia quae ex ore Altissimi prodiisti, atingens a fine usque ad finem, fortíter suaviterques disponens omnia.
A Igreja aplica a mesma lei ao Espírito Santo. O que é Ele na adorável Trindade? É o termo, o remate
supremo, a consumação da vida em Deus; fecha o círculo íntimo das admiráveis operações da vida divina. E assim, para nos lembrarmos desta propriedade que Lhe é pessoal, a Igreja atribui-Lhe especialmente tudo o que, na obra da graça, da santificação, diz respeito ao fim, complemento, consumação: é o artista divino que, com os últimos retoques, dá à obra a sua divina perfeição: Dextrae Dei tu digitus. A obra atribuída ao Espírito Santo, na Igreja como nas almas, é levar ao fim, ao termo, à última perfeição, o trabalho incessante da santidade.
Contemplemos agora, por uns instantes, as operações divinas deste Espírito na alma dos Apóstolos.
Enche-os de verdade. Perguntar-me-eis logo: Mas então Jesus Cristo não o tinha já feito? Sim, é certo. Dizia de Si mesmo: «Eu sou a verdade". Viera a este mundo para dar testemunho da verdade,e sabemos que cumpriu inteiramente a Sua missão: Opus consummavi.
Sim, mas agora que deixou os Apóstolos, o Espírito Santo é que se vai tornar o mestre interior. «Não
falará de Si mesmo » , dizia Jesus, querendo com isso significar que o Espírito Santo (que procede do Pai e do Filho e d' Eles recebe a vida divina ) nos dará a verdade infinita que recebe pela Sua inefável processão. «Ele vos dirá tudo o que ouviu, isto é, toda a verdade»; «lembrar-vos-á tudo o que vos ensinei»; « dar-me-á a conhecer a vós: mostrar-vos-á quanto sou digno de toda a glória»: llle me clarificabit.
Que mais? «Os Apóstolos não devem preocupar-se com o que hão de responder, quando os judeus os chamarem aos tribunais; o Espírito Santo lhes inspirará as respostas». Deste modo «poderão dar testemunho de Jesus »: Accipietis virtutem supervenientis Spititus Sancti in vos, et eritis mihi testes . . . usque ad ultimum terrae.
E como é pela língua, órgão da palavra, que se dá testemunho e a pregação do nome de Jesus se deve espalhar pelo mundo, este Espírito, no dia do Pentecostes, desce visivelmente sobre os Apóstolos em forma de línguas.
E foram de fogo. Porquê? Porque o Espírito Santo vem encher de amor os corações dos discípulos. Ele é o amor pessoal, subsistente, da vida em Deus. É também como que o sopro, a aspiração do amor infinito no qual haurimos a vida. Conta-se no Gênesis que «Deus insuflou a vida na matéria formada do barro»: lnspiravit spiraculum vitae. Aquele sopro vital era o símbolo do Espírito ao qual devemos a vida sobreratural. No dia do Pentecostes, o Espírito divino trazia tal abundância de vida a toda a Igreja que, para a significar, «um ruído vindo do céu, semelhante a um vento impetuoso, encheu toda a casa onde estavam reunidos os Apóstolos».
Descendo sobre eles, o Espírito Santo comunica-lhes aquele amor que é Ele próprio. É preciso que os Apóstolos sejam cheios de amor para que, ao pregarem o nome de Jesus, façam brotar na alma dos seus ouvintes o amor do Mestre; é preciso que o seu testemunho, ditado pelo Espírito, seja tão cheio de vida, que prenda o mundo a Jesus Cristo.
Este amor, ardente como chama, forte como o sopro da tempestade, é ainda necessário aos Apóstolos
para poderem arrostar com os perigos preditos por Jesus Cristo, quando tiverem de pregar o Seu nome: o Espírito Santo enche-os de força.
Vede S. Pedro, o príncipe dos Apóstolos. Na véspera da Paixão de Jesus, promete segui-Lo até à morte. Mas, logo naquela noite, à voz duma criada, nega o divino Mestre; jura «que não conhece aquele homem». Vede-o agora no dia do Pentecostes. Anuncia Cristo a milhares de judeus; lança-lhes em rosto, em linguagem cheia de ousadia, o terem-No crucificado; prova a sua Ressurreição, exortando-os a fazerem penitência e a receberem o Batismo. Já não é o discípulo tímido que receia o perigo e "fica de longe"; é a testemunha que proclama diante de todos, com palavras firmes e corajosas, que Jesus Cristo é o Filho de Deus.
Que força nas palavras de S. Pedro! Já nem se reconhece o Apóstolo. A virtude do Espírito Santo transformou-o; o amor que consagra ao Mestre é agora forte e generoso. O próprio Nosso Senhor tinha predito esta transformação, quando disse aos Apóstolos, antes de subir aos céus: «Ficai em Jerusalém até serdes revestidos da luz do alto».
Vede ainda este mesmo Pedro e os outros Apóstolos, poucos dias depois deste acontecimento . Os judeus comovem-se com as suas palavras, com os milagres que operam, com as conversões que fazem em nome de Jesus. Os príncipes dos sacerdotes e os saduceus, que mataram a Cristo, chamam os discípulos e proíbem-lhes pregar o Salvador. Sabeis a resposta que deram: «Não podemos obedecer às vossas ordens, não podemos deixar de dar testemunho do que vimos e ouvimos".
O que é que os leva a falar com tanta coragem, a eles que na noite da Paixão abandonaram Jesus, que,
durante os dias que se seguiram à Ressurreição, "ficaram escondidos, com as portas fechadas, com medo dos judeus": Propter metum judaeorum?  É o Espírito de verdade, o Espírito de amor, o Espírito de força.
Porque o amor que têm a Cristo é forte, por isso mesmo se entregam aos suplícios. Os judeus, vendo que os Apóstolos não se importavam com a proibição, chama-nos aos tribunais. Pedro, porém, em nome de todos, declara que devem «obedecer antes a Deus do que aos homens » .
Sabeis perfeitamente o que os judeus fizeram então. Para vencer aquela constância, açoitaram os Apóstolos, antes de os soltar. Mas, notai o que acrescenta o escritor sagrado. Ao sair do tribunal, diz, «Os Apóstolos estavam cheios de alegria por terem sido julgados dignos de sofrer opróbrios pelo nome de Jesus". E donde é que lhes vinha aquela alegria nos sofrimentos e humilhações? Do Espírito Santo. Pois este não é somente o Espírito de força, é também o Espírito de consolação. "Rogarei ao Pai, dissera-lhes Jesus, e Ele vos dará outro Consolador»: Rogabo Patrem, et alium Paraclitum dabit
vobis . . . Spiritum veritatis.
Não é justo Cristo um consolador? É, sim. Não nos disse Ele: «Vinde a mim, vós todos, que estais
 aflitos, e eu vos consolarei»? Não é Ele, como nos revela S. Paulo, um Pontífice que sabe compadecer-se dos nossos sofrimentos, porque Ele próprio foi também sujeito à dor? Mas este divino Consolador devia desaparecer dos olhos carnais dos discípulos: por isso, pedia Ele ao Pai que lhes enviasse outro Consolador, igual a Ele, Deus como Ele.
Porque é o Espírito da verdade, este Consolador acalma as necessidades da nossa inteligência; porque é o Espírito de amor, satisfaz os desejos do nosso coração; porque é o Espírito de força, sustenta-nos nas lutas, nas provações, nas lágrimas; o Espírito Santo é o Consolador por excelência.

Cansolator optime.
Dulcis hospes animae.
Dulce refrigerium!

Oh ! "Vinde a nós, Pai dos pobres, distribuidor dos bens celestes, Consolador cheio de bondade, doce hóspede da alma, conforto cheio de doçura» !

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