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17 de março de 2015

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem - Parte 31

Artigo II

Práticas especiais e interiores para os que querem tornar-se perfeitos

257. Além das práticas exteriores da devoção que vimos referindo, as quais não se deve omitir por negligência ou desprezo, na medida que o estado e as condições de cada um o permitem, acrescentamos algumas práticas interiores assaz santificantes para aqueles chamados pelo Espírito Santo a mais alta perfeição.
Consiste, em quatro palavras, em fazer todas as suas ações por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de fazê-las mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus.
§ I. Fazer todas as ações por Maria.

258. 1º É preciso fazer todas as ações por Maria, quer dizer, em todas as coisas obedecer à Santíssima Virgem, e em tudo conduzir-se por seu espírito, que é o santo espírito de Deus. São filhos de Deus os que se conduzem pelo espírito de Deus: “Qui spiritu Dei aguntur, ii sunt filii Dei” (Rm 8, 14). E os que pautam sua conduta pelo espírito de Maria são filhos de Deus, como já demonstramos; entre tantos devotos da Santíssima Virgem, só os que se conduzem por seu espírito é que são devotos verdadeiros e fiéis. Disse que o espírito de Maria é o espírito de Deus, porque ela jamais se conduziu por seu próprio espírito, e sempre pelo espírito de Deus, e este de tal modo a dominou que acabou tornando-se seu próprio espírito. Por isto, diz Santo Ambrósio: “Sit in singulis... etc. – Esteja a alma de Maria em cada um para glorificar o Senhor; esteja em cada um o espírito de Maria para que se regozija em Deus”.100 Quão feliz é uma alma quando, a exemplo do bom irmão jesuíta Rodriguez101, falecido em odor de santidade, é toda possuída e governada pelo espírito de Maria, que é um espírito suave e forte, zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo!
100) Palavras já citadas e comentadas no n. 217.
101) Canonizado por Leão XIII, em 15 de janeiro de 1888.

259. Para que a alma se deixe conduzir por este espírito de Maria, é mister: 1º Renunciar ao próprio espírito, às próprias luzes e vontades, antes de qualquer coisa: por exemplo, antes da oração, antes de dizer ou ouvir a santa missa, antes de comungar, etc...; pois as trevas de nossa vontade própria, se bem que nos pareçam boas, poriam obstáculo ao santo espírito de Maria. 2º É preciso entregar-se ao espírito de Maria para ser por ele movido e conduzido como ela quiser. Cumpre colocar-se e permanecer entre suas mãos virginais como um instrumento nas mãos dum operário, como uma cítara nas mãos dum artista. Cumpre abandonar-se e perder-se nela, como uma pedra que se atira ao mar. E isto se faz simplesmente e num instante, por um só olhar do espírito, um pequeno movimento da vontade, ou verbalmente. Dizendo, por exemplo: “Renuncio a mim mesmo, dou-me a vós, minha querida Mãe”. E ainda que não sintamos nenhuma doçura sensível neste ato de união, ela não deixa de ser verdadeiro, do mesmo modo que, se disséssemos, com desagrado de Deus: “Dou-me ao demônio”, com a mesma sinceridade, embora o disséssemos sem mudança alguma sensível, não pertenceríamos menos verdadeiramente ao demônio. 3º É preciso, de tempos em tempos, durante uma ação ou depois, renovar o ato de oferecimento e de união, e, quanto mais o fizermos, mais cedo nos santificaremos, e mais cedo chegaremos à união com Jesus Cristo, que segue sempre necessariamente a união com Maria, pois o espírito de Maria é o espírito de Jesus.
§ II. Fazer todas as ações com Maria.

260. 2º É mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas as ações olhar Maria como um modelo acabado de todas as virtudes e perfeições, que o Espírito Santo formou numa pura criatura, e imitá-lo na medida de nossa capacidade. Cumpre, portanto, que, em cada ação, consideremos como Maria a fez ou faria se estivesse em nosso lugar. Devemos, por isso, examinar e meditar as grandes virtudes que ela praticou durante a vida, especialmente 1º sua fé viva, pela qual creu fielmente e constantemente até ao pé da cruz, sobre o Calvário; 2º sua humildade profunda que a levou a esconder-se, a calar-se, a submeter-se a
tudo e a colocar-se em último lugar; 3º sua pureza virginal, que jamais teve nem terá semelhante sob o céu, e por fim todas as suas outras virtudes.
Lembrai-vos, repito-o uma segunda vez, de que Maria é o grande e único molde de Deus102 próprio para fazer imagens vivas de Deus, com pouca despesa e em pouco tempo; e que uma alma que encontrou este molde, e que nele se perde, fica em breve mudada em Jesus Cristo, aí representado ao natural.
102) Ver antes, n. 218 seg.
§ III. Fazer todas as ações em Maria.

261. 3º É preciso fazer todas as ações em Maria.
Para compreender cabalmente esta prática, é necessário saber que a Santíssima Virgem é o verdadeiro paraíso terrestre do novo Adão, de que o antigo paraíso terrestre é apenas figura. Há, portanto, neste paraíso terrestre, riquezas, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis, que o novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou. Neste paraíso ele pôs suas complacências durante nove meses, aí operou suas maravilhas e aí acumulou riquezas com a magnificência de um Deus. Este lugar santíssimo é formado de uma terra virgem e imaculada, da qual se formou e nutriu o novo Adão, sem a menor mancha ou nódoa, por operação do Espírito Santo que aí habita. É neste paraíso terrestre que está em verdade a árvore da vida que produziu Jesus Cristo, o fruto da vida; a árvore da ciência do bem e do mal, que deu a luz ao mundo. Há, neste lugar divino, árvores plantadas pela mão de Deus e orvalhadas por sua unção divina, árvores que produziram e produzem, todos os dias, frutos maravilhosos dum sabor divino; há canteiros esmaltados de belas e variegadas flores de virtudes, cujo perfume delicia os próprios anjos. Ostentam-se neste lugar prados verdes de esperança, torres fortes e inexpugnáveis e fortes, habitações cheias de encanto e segurança, etc. Ninguém, exceto o Espírito Santo, pode dar a conhecer a verdade oculta sob estas figuras de coisas materiais. Reina neste lugar um ar puro, sem infecção, um ar de pureza; um belo dia sem noite, da humanidade santa; um belo sol sem sombras, da Divindade; uma fornalha ardente e contínua de caridade, na qual todo o ferro que aí se lança fica abrasado e se transforma em ouro; há um rio de humildade que surge da terra, e que, dividindo-se em quatro braços, rega todo este lugar encantado: são as quatro virtudes cardeais.

262. O Espírito Santo, pela boca dos Santos Padres, chama também a Santíssima Virgem: 1º a porta oriental, por onde o sumo sacerdote Jesus Cristo entra e vem ao mundo (cf. Ez 44, 2-3); por ela entrou da primeira vez, e por ela virá da segunda; 2º o santuário da Divindade, o reclinatório da Santíssima Trindade, o trono de Deus, a cidade de Deus, o altar de Deus, o templo de Deus, o mundo de Deus. Todos estes diferentes epítetos e louvores são verdadeiros em relação às diversas maravilhas e graças que o Altíssimo realizou em Maria. Oh! que riqueza! que glória! que prazer! que felicidade poder entrar e habitar em Maria, em quem o Altíssimo colocou o trono de sua glória suprema!

263. Mas quão difícil é a pecadores, como somos, alcançar a permissão e a capacidade e a luz para entrar em lugar tão alto e tão santo, guardado não por um querubim, como o antigo paraíso terrestre, mas pelo próprio Espírito Santo, que nele se tornou o Senhor absoluto e do qual diz: “Hortus conclusus soror mea sponsa, hortus conclusus, fons signatus” (Ct 4, 12). Maria é fechada; Maria é selada; os miseráveis filhos de Adão e Eva, expulsos do paraíso terrestre, só tem acesso a este outro paraíso por uma graça especial do Espírito Santo, a qual devem merecer.

264. Depois que, pela fidelidade, obtivermos esta graça insigne, é com complacência que devemos morar no belo interior de Maria, aí repousar em paz, aí apoiar-nos com toda a confiança, aí seguramente esconder-nos e perder-nos sem reserva, a fim de que neste seio virginal: 1º a alma se alimente do leite de sua graça e de sua misericórdia maternal; 2º aí fique livre de suas perturbações, de seus temores e escrúpulos: 3º aí esteja em segurança, ao abrigo de todos os seus inimigos, o demônio, o mundo e o pecado, que aí não tem jamais entrada; e por isso ela diz que os que operam nela, não pecarão: “Qui operantur in me, non peccabunt” (Ecli 24, 30), isto é, os que em espírito, habitam a Santíssima Virgem, não cometerão pecado grave; 4º para que a alma fique formada em Jesus e Cristo e Jesus Cristo
nela; porque o seu seio, como dizem os Santos Padres103, é a sala dos sacramentos divinos, onde Jesus Cristo e todos os eleitos se formaram: “Homo et homo natus est in ea” (Sl 86, 5).104
103) Ver acima n. 248: “Aula sacramentorum”.
104) Sobre este texto, veja-se o comentário de nosso Santo, n. 32.
§ IV. Fazer todas as ações para Maria.

265. 4º É preciso fazer finalmente todas as ações para Maria. Porque, desde que nos entregamos completamente a seu serviço, é justo que façamos tudo para ela, como um criado, um servo, um escravo. Não a tomamos, porém, como fim último de nossos serviços, que é somente Jesus Cristo, mas como fim próximo, intermédio misterioso, e o meio mais fácil de chegar a ele. A exemplo de um bom servo e escravo, é preciso que não fiquemos ociosos, e sim que, apoiados por sua proteção, empreendamos e realizemos grandes coisas para tão augusta Soberana. É preciso defender seus privilégios quando alguém os disputar; sustentar sua glória, quando alguém a atacar; atrair todo o mundo, se for possível, ao seu serviço e a esta verdadeira e sólida devoção; falar, clamar contra todos os que abusem de sua devoção para ultrajar seu Filho; e ao mesmo tempo estabelecer esta verdadeira devoção. E como recompensa destes pequenos serviços, não devemos pretender mais que a honra de pertencer a uma Princesa tão amável, e a felicidade de, por meio dela, ficarmos unidos a Jesus Cristo, seu Filho, com um liame indissolúvel no tempo e na eternidade.
Glória a Jesus em Maria!
Glória a Maria em Jesus!
Glória a Deus somente!

Suplemento

Modo de praticar esta devoção na santa comunhão

I

Antes da comunhão

266. 1º Humilhar-vos-eis profundamente diante de Deus. 2º Renunciareis a vosso íntimo corrompido e a vossas disposições, ainda que vosso amor-próprio vo-las faça parecer boas. 3º Renovareis vossa consagração, dizendo: “Tuus totus ego sum, et omnia mea sunt: Sou todo vosso, minha querida Senhora, com tudo que tenho105 4º Suplicareis a esta boa Mãe que vos empreste seu coração, para, com as mesmas disposições, receberdes seu Filho. Fareis ver a ela, que importa à glória de seu Filho não ser introduzido num coração tão manchado como o vosso, e tão inconstante, que havia de tirar-lhe a glória ou perdê-la; se ela, entretanto, quiser habitar em vós para receber seu Filho, pode-o facilmente, em vista do domínio que tem sobre os corações; e, por ela, seu Filho será bem recebido, sem mancha, e sem perigo de ser ultrajado: “Deus in medio eius non commovebitur” (Sl 45, 6). Dir-lhe-eis confidentemente que tudo que lhe tendes dado de vossos bens é pouco para honrá-la, mas pela santa comunhão, lhe dareis o mesmo presente que o Pai eterno lhe deu, presente que mais há de honrá-la, que se lhe désseis todos os bens do mundo; e que, enfim, Jesus deseja ainda ter nela suas complacências e seu repouso, seja, embora, em vossa alma, mais suja e pobre do que o estábulo, ao qual Jesus não opôs dificuldades em descer, pois que ela lá estava. Com as seguintes e ternas palavras lhe pedireis seu coração: “Accipio te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, o Maria!”.106
105) Ou então a fórmula indulgenciada, indicada em “Notícias sobre a Arquiconfraria de Maria, Rainha dos corações” (Vantagens e privilégios, 3º).
106) Adaptação dos dois textos da Sagrada Escritura, comentados no decorrer do Tratado”. Cf. Jo 19, 19, 27 e Prov 23, 26.

II

Durante a comunhão

267. Prestes a receber Nosso Senhor Jesus Cristo, dir-lhe-eis três vezes, depois do “Pater”: “Domine, non sum dignus...” etc., como se dissésseis, pela primeira vez, ao Pai eterno que, devido a vossos maus pensamentos e ingratidões para com ele, não sois digno de receber seu único Filho. Eis, porém, Maria, sua serva: “Ecce ancilla Domini”, que tudo faz por vós, e que vos dá uma confiança e esperança especiais, junto de sua Majestade: “Quoniam singulariter in spe constituisti me” (Sl 4, 10).

268. Direis ao Filho: “Domine, non sum dignus...” etc., que não sois digno de recebê-lo, por causa de vossas palavras inúteis e más, e vossa infidelidade em seu serviço; vós lhe rogais, entretanto, que tenha piedade de vós, pois que ides introduzi-lo na morada de sua própria Mãe e vossa, e que não o deixareis partir, sem que ele venha aí alojar-se: “Tenui eum, nec dimitttam, donec introducam illum in domum matris meae, et in cubiculum genitricis meae” (Ct 3, 4). Implorar-lhe-eis que se levante e venha para o lugar de seu repouso e para a arca de sua santificação: “Surge, Domine, in requiem tuum, tu et arca sanctificationis tuae” (Sl 131, 8). Dir-lhe-eis que, de modo algum, depositais vossa confiança em vossos méritos, vossa força e vossas preparações, como Esaú, e sim nos de Maria, vossa querida Mãe, a exemplo do pequeno Jacob nos desvelos de Rebeca; que, pecador e Esaú que sois, ousais aproximar-se de sua santidade, ornado e apoiado pelas virtudes de sua Mãe Santíssima.

269. Direis ao Espírito Santo: “Domine, non sum dignus...” etc., que não sois digno de receber a obra-prima de sua caridade, em vista da tibieza e iniqüidade de vossas ações e de vossas resistências a suas inspirações. Mas toda a vossa confiança é Maria, sua fiel Esposa. E direis com São Bernardo: “Haec mea maxima fiducia est; haec tota ratio spei meae”.107 Podeis mesmo pedir-lhe que desça ainda a Maria, sua Esposa inseparável; pois seu seio é tão puro e seu coração tão abrasado como sempre, e que se ele não descer à vossa alma, Jesus e Maria não serão aí formados, nem dignamente alojados.
107) “De Aquaeductu”, n. 7.

III

Depois da santa comunhão

270. Inteiramente recolhido, os olhos fechados, depois da santa comunhão, introduzireis Jesus Cristo no coração de Maria. A sua Mãe o dareis, e ela o receberá amorosamente, colocá-lo-á em lugar de honra, adorá-lo-á profundamente, amá-lo-á perfeitamente, abraçá-lo-á estreitamente, e, em espírito e verdade, lhe prestará honras que nós, cercados de espessas trevas, desconhecemos.

271. Ou, então, jazei profundamente humilhado, na presença de Jesus residindo em Maria; ou permanecei como um escravo à porta do palácio real, onde o Rei se entretém com a Rainha; e, enquanto eles conversam sem necessidade de vossa presença, ide em espírito ao céu e a toda a terra rogar às criaturas que em vosso lugar agradeçam, adorem e amem a Jesus e Maria: “Venite, adoremus, venite!” (Sl 94, 6).

272. Ou, ainda, pedi a Jesus, em união com Maria, que, por meio dela venha à terra o seu reino, ou a divina sabedoria, ou o amor divino, ou o perdão de vossos pecados, ou qualquer outra graça, mas sempre por Maria e em Maria. E, considerando-vos a vós mesmo, dizei: “Ne respicias, Domine, peccata mea – Senhor, não olheis os meus pecados”108, “sed oculi tui videant aequitates Mariae”109: mas que vossos olhos só vejam em mim as virtudes e graças de Maria. E, lembrando-vos de vossos pecados, acrescentareis: “Inimicus homo hoc fecit” (Mt 13, 28): Eu, que sou o meu maior inimigo, cometi esses pecados; ou, então: “Ab homine iniquo et doloso erue me” (Sl 42, 1), ou “Te oportet crescere, me autem minui” (cf. Jo 3, 30): Meu Jesus, é preciso que cresçais em minha alma e que eu diminua. Maria, é preciso que cresçais em mim e que eu seja menos do que tenho sido. “Crescite et
multiplicamini” (Gn 1, 22): “Ó Jesus e Maria, crescei em mim e multiplicai-vos fora, nos outros.
108) Missal romano, 1ª orat. ante communionem.
109) Sl 16, 2, aplicado à Santíssima Virgem.

273. São infinidade os pensamentos que o Espírito Santo fornece, e vos fornecerá se fordes bastante interior, mortificado e fiel a esta grande e sublime devoção, que acabo de ensinar-vos. Lembrai-vos que, quanto mais deixardes Maria agir em vossa comunhão, mais será Jesus glorificado; e tanto mais deixareis agir Maria para Jesus, e Jesus em Maria, quanto mais profundamente vos humilhardes, e, então, os ouvireis em paz e silêncio, sem vos afligirdes para ver, degustar, nem sentir, pois, em toda parte, o justo vive da fé, e especialmente na santa comunhão que é um ato de fé: “Iustus meus ex fide vivit” (Hb 10, 38).

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