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6 de março de 2015

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Jesus Cristo, o Filho do homem: em tudo, Ele agir com caridade infinita para conosco

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Caros católicos, continuemos hoje com o nosso propósito de conhecer melhor alguns aspectos de Nosso Senhor Jesus Cristo. No último Domingo, o 1º da Quaresma, falamos daquele título mais glorioso de Nosso Senhor, o título de Filho de Deus. Filho de Deus não por adoção, mas por natureza. Nosso Senhor é verdadeiramente Deus. Ele é o Filho de Deus encarnado. Outro título que aparece com frequência nos Santos Evangelhos é o título de Filho do homem. E, enquanto Cristo esteve entre os homens, isto é, até a sua Ascensão, o título de Filho do homem foi usado somente por Ele próprio. No final do Evangelho de hoje, Nosso Senhor o utiliza: “Não digais a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos.”
A expressão “filho do homem” ocorre no Antigo Testamento em distintas ocasiões. Em todas elas, com exceção de uma, “filho do homem” significa simplesmente homem. Assim, está dito, por exemplo, que Deus não é como o homem, para mentir, ou como o filho do homem para mudar (Números 23, 19). Todavia, há uma vez em que “filho do homem” não significa homem pura e simplesmente, mas designa o homem-tipo, o homem por excelência. Diz o profeta Daniel (7, 13 e ss.): “Eu estava, pois, observando estas coisas durante a visão noturna, e eis que vi como que um Filho do homem, que vinha com as nuvens do céu e que chegou até o Ancião. (…) E o Ancião deu-lhe o poder, a honra e o reino; e todos os povos e tribos e línguas o serviram; o seu poder é um poder eterno que lhe não será tirado e o seu reino não será jamais destruído.” Portanto, está claro que o Filho do homem visto pelo profeta Daniel não é um simples homem como outro qualquer. É um filho do homem, mas que vem nas nuvens do céu. Filho do homem, para deixar clara a natureza humana. Mas que vem nas nuvens do céu para deixar clara a natureza divina e o poder divino. No Antigo Testamento com frequência Deus é apresentado sobre as nuvens do céu (Ex. 14, 24; Salmo 17, 10). De fato, os judeus da época de Jesus entendiam bem o título “Filho do homem” como designando o messias, que não seria um simples homem. Assim, Caifás pergunta a Cristo se Ele é o Messias, o Filho de Deus. Nosso Senhor confirma e diz que Caifás verá depois o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus e vir sobre as nuvens do céu. Caifás compreende a alusão à profecia de Daniel e rasga as vestes por compreender também que Cristo se atribuía a natureza divina não só ao confirmar que era o filho de Deus, mas também ao dizer que era o Filho do homem que voltaria sobre as nuvens do céu. O Filho do homem representava, para os judeus, o Deus que se fez homem.
Jesus se chama Filho do homem nos Evangelhos 82 vezes. Por que Nosso Senhor insiste tanto nesse título? O Filho do homem?  Em primeiro lugar, Nosso Senhor quer afirmar a sua natureza humana. Ele é homem. Mais do que isso, Ele é o Filho do homem, ele é o homem por excelência, o homem cuja perfeição está acima de todos os homens. Ele é um homem, com uma alma e um corpo. Nosso Senhor é verdadeiramente homem. Aquele que era Deus, o Verbo, sem deixar de ser Deus, sem sofrer nenhuma mudança, tornou-se carne, tornou-se homem. O Verbo assumiu a natureza humana. Em Cristo, temos uma só pessoa, a pessoa divina, do verbo de Deus, mas temos duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana. Nosso Senhor é verdadeiramente e perfeitamente Deus. Ele é verdadeiramente e perfeitamente homem. Em tudo, assim, Nosso Senhor é homem como nós, exceto no pecado e no que pode levar ao pecado. Em Nosso Senhor não houve nenhum tipo de defeito moral.
Ele tinha, então, um corpo como o nosso. São Tomé até coloca o dedos nas chagas gloriosas desse corpo depois da ressurreição. São Mateus e São Lucas dão a genealogia de Cristo. Ora, a genealogia não é para os espíritos, mas para os corpos. Nosso Senhor nasce envolto em panos, Ele é circuncidado, exerce a profissão de artesão carpinteiro, come, dorme encostado em uma barca, senta-se na beira de um poço de água, tem sede. Fala, percorre o que se chama hoje, por causa d'Ele, de Terra Santa. Sofre dores incríveis, morre e é sepultado. Mais do que tudo isso, Ele tem um corpo ao ponto de transformá-lo em alimento: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós”, diz Nosso Senhor no Evangelho de São João (6, 54). E, na véspera de sua morte, transforma o pão em seu corpo na última ceia, para alimentar as nossas almas. É o seu corpo – a sua vida – que é oferecido pela remissão dos pecados.
Nosso Senhor tinha também uma alma como a nossa, salvo na impossibilidade de pecar e de se inclinar ao pecado ou a qualquer desordem moral. Tudo na alma de Nosso Senhor estava perfeitamente ordenado a Deus. Nosso Senhor tinha, então, uma inteligência humana, a mais perfeita que já existiu, e que conheceu toda a verdade e todas as coisas ainda na terra. Nosso Senhor tinha uma vontade humana perfeitamente e livremente submetida à vontade divina, incapaz de pecar, incapaz de qualquer traço de pecado. Com sua alma e seu corpo, Nosso Senhor tinha também emoções e sentimentos. Nunca, porém, desregrados, mas sempre submetidos à sua razão e à sua vontade, razão e vontade que estavam, por sua vez, plenamente submetidas a Deus. Nosso Senhor não tinha nenhum sentimento ou emoção desregrado, irracional, pecaminoso, nada, absolutamente nada. Desse modo, Ele tinha uma imensa ternura por sua santíssima mãe (Jo 19, 27), tinha predileção por São João Evangelista, teve tristeza pela morte de Lázaro, teve compaixão da multidão que o seguia durante dias sem comer; teve a angústia mortal no Jardim das Oliveiras, a santa ira para expulsar os vendilhões no templo e assim por diante. Tudo perfeitamente ordenado.
Sim, Nosso Senhor era homem e era o homem perfeito. Ele usa, então, o título de Filho do homem para afirmar, primeiramente e claramente, a sua humanidade. Em segundo lugar, Nosso Senhor Jesus Cristo se designa com frequência como o Filho do homem para afirmar que Ele é o Messias prometido ainda a Adão e Eva. Ao afirmar ser o Filho do homem, os judeus se lembravam imediatamente da profecia de Daniel – que já citamos – profecia que fala, evidentemente, do Messias. É ele o Salvador. Em terceiro lugar, como já se pode compreender, Nosso Senhor se designa como Filho do homem porque ao se dizer Filho do homem ele se afirma homem, mas sem nunca deixar de lado a sua divindade. A profecia de Daniel, como vimos, fala de um Filho de homem que virá sobre as nuvens, ou seja, de um homem que é também Deus. Ao se designar como Filho do homem, Cristo afirma a sua humanidade, mas sempre lembrando aos ouvintes de sua divindade, ainda que de maneira sutil. Mais uma vez, caros católicos, Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Durante toda a história do cristianismo, houve erros que negaram ou a humanidade ou a divindade de Cristo. Se Cristo não é homem, não poderia nos salvar porque não seria um de nós. Se Cristo não é Deus, seria meramente um de nós, incapaz de satisfazer pelos nossos pecados. A redenção perfeita, a justiça perfeita exige que Jesus Cristo seja Deus e homem. Negar sua humanidade ou sua divindade é negar a redenção.
Vejamos agora, juntos com São Tomás de Aquino, como o Filho do homem viveu entre os homens. Antes de tudo, foi convenientissimo que Cristo convivesse com os homens, em vida verdadeiramente apostólica, em vez de se entregar a uma vida puramente contemplativa e solitária. Foi conveniente, primeiro, para nos manifestar a verdade. Nosso Senhor diz a Pilatos (Jo 18, 37): “vim ao mundo para dar testemunho da verdade” Para tanto, não devia levar uma vida solitária, ocultando-se, mas manifestar-se em público, pregando abertamente. E dizia (Lc 4, 42): “É preciso que anuncie o reino de Deus também em outras cidades, porque para isso fui enviado.” Nosso Senhor quis também viver entre os homens e não solitariamente a fim de livrar os homens do pecado. Ainda que ele pudesse ter atraído todos a si morando em um mesmo lugar, preferiu andar por aquelas regiões para nos dar o exemplo de que devemos correr atrás das ovelhas perdidas. Quis também viver entre os homens e não solitariamente para que tivéssemos acesso a Deus. Ao conversar com os homens nos deu confiança e nos aproximou d'Ele. Claro está, porém, que Nosso Senhor não passava o dia todo pregando, em uma vida puramente ativa, relegando a contemplação. Não, Nosso Senhor levava uma vida mista, em que a ação decorre da oração, da contemplação. Afastava-se com frequência da multidão, sobretudo ao fim do dia, para rezar, para fugir da ostentação do mundo e de seu aplauso, para descansar também.
Nosso Senhor viveu entre os homens igualmente acomodando-se aos usos e costumes legítimos de seus contemporâneos, pois não teria sido muito conveniente que Cristo levasse uma vida demasiadamente austera. Acabamos de ver que era conveniente que Cristo vivesse entre os homens e não que vivesse de maneira solitária. Ora, aquele que vive com outros tem que se acostumar aos seus usos e costumes legítimos. Assim, no comer, no beber, etc. foi conveniente que Cristo se acomodasse aos demais. Todavia, não devemos achar que a vida de Cristo não foi austera ou dura. Ao contrário, foi uma vida cheia privações e sofrimentos. Nasceu em um estábulo, fugiu em seguida para um país estrangeiro, exercitou um rude trabalho manual durante trinta anos, viveu de esmola durante sua vida pública, não tinha onde reclinar a cabeça, passava com frequência noites em oração, jejuou durante quarenta dias, sofreu as terríveis dores da paixão, morreu despojado de tudo, até de suas vestes, foi sepultado em sepulcro emprestado. Todavia, pela razão apontada acima, esteve presente em ocasiões normais: por exemplo, nas bodas de Caná, no banquete na casa de Zaqueu, mas sempre para levar a salvação, para evitar os pecados.
Foi muito conveniente também que Nosso Senhor tenha vivido entre os homens uma vida pobre e desapegada dos bens terrenos. Isso porque convém que os pregadores da palavra de Deus possam entregar-se inteiramente à pregação e que, para tanto, estejam livres dos cuidados seculares. Também foi conveniente a pobreza de Cristo para nos enriquecer. Da mesma forma que por sua morte corporal nos deu a vida espiritual, suportou a pobreza corporal para nos encher das riquezas espirituais, como diz São Paulo (2Cor 8, 9): “sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que vós fôsseis ricos por sua pobreza.” Foi conveniente que Jesus levasse uma vida pobre também para que não se atribuísse sua pregação ao desejo pelas riquezas. Se tivesse riquezas, poderia parecer que se entregava à instrução dos homens mais pela ganância do que pela salvação dos homens. Foi conveniente que Cristo levasse uma vida pobre para que o poder de sua divindade aparecesse mais claramente. Nosso Senhor tinha, claro, quem o ajudasse e tinha o necessário para o seu sustento e o dos discípulos, sendo mencionada no Evangelho (Jo 12, 6) a bolsa de moedas que servia para esse fim, e que era guardada por Judas Iscariotes, o traidor.
Eis, então, Jesus Cristo, o Filho do homem, o Verbo de Deus que se fez homem, que veio ao mundo, viveu entre os homens para nos ensinar as verdades eternas. Em tudo, absolutamente em tudo, Nosso Senhor agiu com caridade infinita para conosco, para nos levar para o céu. Ele não nos chama para a imundície, mas para a santidade, como diz São Paulo na Epístola de hoje. Junto com o Trato da Missa desse 2º Domingo da Quaresma, louvemos ao Senhor, porque Ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia. Ditosos os que guardam a justiça, isto é, os mandamentos, e a praticam o tempo todo. Lembrai-vos, Senhor, do vosso povo na vossa bondade e visitai-nos com a vossa salvação. Arrependidos de nossos pecados, converta-mo-nos ao Senhor. Ele é bom. Aproveitemos enquanto Ele nos concede misericórdia.
Em nome do pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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