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18 de setembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

12/26   -   A COMUNHÃO FREQUENTE 

1. - As turbas famintas
Quando considero no S. Evangelho o maravilhoso fervor daquelas turbas famintas que seguiam Jesus descuidando de todo outro cuidado; e a próvida liberalidade com que o divino Mestre correspondeu-lhes alimentando-as prodigiosamente com a multiplicação dos pães (Jo 6, 1-15); vêm-me à mente agradável confronto a devoção dos verdadeiros fiéis para com o augusto e divino sacramento, e a louvável freqüência com que estes costumam aproximar-se do Sagrado Altar, procurando aí aquele amoroso Mestre e Senhor, que por nosso amor quis permanecer entre nós escondido debaixo das espécies sacramentais, até a
consumação do mundo. Se naquelas turbas portanto, se devia admirar o fervor, nestes fiéis é mais para ser estimada a fé que os faz procurar com toda firmeza aquilo que seus sentidos não vêem. Aqui é maior sem dúvida a graciosa correspondência que Cristo dá aos seus afetos, enquanto não multiplica o pão terreno, mas apresenta como alimento a si mesmo para saciar seus espíritos com superabundância. Que se o fato das turbas evangélicas foi escrito para o incitamento da nossa fé, o exemplo dos verdadeiros fiéis se manifesta cada dia mais para edificação dos muitos cristãos que agora, tépidos e quase frios, muito raramente e quase que à força uma vez por ano, se achegam a Cristo. Não se deve crer que estes cristãos não tenham prontas suas aparentes razões e sutis desculpas para se dispensarem de freqüentar a sagrada Mesa. São estas justamente que eu julgo dever-se principalmente ter em mira e tirar-lhe das mãos; caso contrario persistindo estas, será vão todo motivo eficaz para persuadi-los.
2. - A primeira desculpa daqueles cristãos que não praticam Comunhão
freqüente: "não temos tempo"
a - A Eucaristia é o pão necessário à alma
Uma das mais costumeiras desculpas é que as ocupações do seu estado, o governo da família de que são onerados, não lhes dão tempo nem comodidade como se conviria para se aproximar mais vezes dos sacramentos. Mas eu perguntarei de boa vontade a esses, se estas obrigações e estes cuidados os impedem de sentar todo dia na mesa terrena; e se pela multiplicidade dos negócios que eles engrandecem, deixam o corpo em jejum mais que um só dia, nem falarei de semanas ou meses. Que se me apresentem a precisão e a indispensável necessidade, eu aceito; e não terá igual precisão e necessidade vossa alma de freqüente alimento para restaurar as forças perdidas e sustentar-se em vida? Não é talvez a Eucaristia o pão cotidiano da alma? "A minha carne, diz o Senhor, é verdadeiramente comida e meu sangue bebida. Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna; se vós não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós" (Jo 6, 54-56). Portanto eles sentem tão bem as necessidades do seu corpo que para satisfazê -las julgam dever muitas vezes ao dia interromper seus cuidados mais interessantes; e são pais insensíveis pela necessidade da alma já lânguida e desfalecida por um jejum tão longo, que não saibam, nem mesmo depois de muitas semanas, encontrar uma breve hora nos dias festivos para alimentá-la com o próprio pão!
b - A Eucaristia é também vantajosa para o bom desempenho dos negócios
terrenos
Unindo-se à verdadeira Sabedoria, que é Cristo, sua mente ficaria bem iluminada para dirigir-se prudentemente nos seus interesses. Indo buscar força na própria Fortaleza, estariam preparados para sustentar o peso daqueles cuidados que os agravam, sem ficar oprimidos; antes seriam aliviados e mitigados dizendo o próprio Cristo: "Vinde a mim vós todos que estais sobrecarregados e eu vos aliviarei"
(Mt 11, 28). E talvez não seriam mais ajudados nas suas necessidades? Eram também simples os próprios discípulos, quando temiam que morressem de fome a numerosa turba que havia abandonado todo seu interesse para seguir Cristo. E vós sabeis como Cristo, pôde multiplicar-lhes o pão de modo que sobraram
muitos cestos. S. Pedro deixando tudo servia Cristo. Ora quando foi abrigado a pagar o imposto, não o providenciou Cristo com dinheiro até boca de um peixe? E uma vez tendo labutado toda a noite no mar sem pegar um só peixe, aparecendo o divino Mestre, trouxe depressa a rede repleta de peixe que sua barca e a de seus companheiros quase afundavam com o peso. Tanto é verdade que este amoroso Senhor não só se compraz em agraciar as almas, mas toma ainda um cuidado especial pelos interesses daqueles que amorosamente se achegam a Ele.
3. - Segunda desculpa: "o que dirá o mundo?". - "Aquele que se envergonhar
de mim, eu me envergonharei dele".
Nós percebemos a utilidade - acrescentam aqueles tíbios e ficamos facilmente convencidos de interromper nossas ocupações e participar mais vezes de tão grande bem. Mas nos perturba a observação do mundo que escarneceria da nossa freqüência e nos dariam apelidos que nos desagradam. Oh! Desculpa mais digna de ser compadecida que ser combatida! Pois os atuais cristãos se envergonham de seguir Cristo ou de serem chamados cristãos. Estes são semelhantes àqueles principais entre os Hebreus, que acreditavam em
Cristo, mas não tinham coragem de aproximar-se dele por respeito aos fariseus e por temor de serem excluídos da Sinagoga. Fazem mais conta das honras do mundo, que de serem honrados por Cristo.
Assim por uma glória vã e caduca perdem uma glória verdadeira e eterna; tendo já Cristo protestado no seu Evangelho: "Quem se envergonhar de mim eu me envergonharei dele; e quem não se envergonhar de confessar meu nome diante dos homens, nem eu me envergonharei de confessar seu nome diante de meu Pai que está nos céus" (Lc 9, 26; 12, 9; Mt 10, 33). E em outro lugar: "Felizes de vós quando rejeitarem como indigno o vosso nome, e disserem todo mal contra vós por causa do meu nome! Alegrai-vos e exultai naqueles dias, porque grande será vossa recompensa no céu" (Mt 5, 2; Lc 6, 22-23). Certamente se fôssemos convidados cortesmente por um príncipe terreno para sua mesa, e fôssemos aí tratados como amigo e familiar, pouco nos interessaria da crítica vã de um vulgo ignorante, diante da honra que recebemos do príncipe e dos seus cortesãos; nem perderíamos por fúteis cuidados uma graça tão favorável.
4. - Pode-se tornar digno com um sincero arrependimento e uma boa
confissão
Mas, nós - aceitam -, se nos reconhecêssemos dignos nos aproximaríamos do Sacramento de boa vontade; mas somos pecadores, cheios de imperfeições, e distantes daquele fervor em que se encontram tantas almas boas; tememos recebê-lo mais como condenação que como salvação. Eis a última desculpa e o argumento
que lhes parece invencível, com o qual acobertam sua tibieza. Eu quereria, portanto , - já que eles apresentam a palavra do Apóstolo: "Quem come indignamente, come a própria condenação" - refletissem ainda o conselho que imediatamente acrescenta e o seguissem: "que cada um se examine a si mesmo, e
assim coma deste pão" (1Cor 11, 28-29). Estas palavras são interpretadas com toda segurança pela prática constante de toda a Igreja, que examinando o homem fiel e sua consciência, e encontrado-a ciente de culpa grave, corra arrependido a purgá-la no Sacramento da Confissão com firme propósito de não mais pecar; "e assim coma deste pão"; e feito isto coma, todavia, isto é, sem nenhum temor, daquele pão do qual diz S. Agostinho: "Recebei-o com segurança, que é pão, não veneno" (2). E se Cristo é vida e vem para dar a vida, como justamente para aqueles que vão recebê-lo para viver, será morte? E se Ele morreu para dar a vida quando nós "éramosinimigos", como agora àqueles que "foram reconciliados" e lavados no seu sangue,
dará a morte eterna e a condenação? Deveriam lembrar da acolhida amorosa que fez o Pai evangélico ao próprio filho: o qual voltando atrás depois de ter consumido seu patrimônio nos vícios mais infames, confessando haver pecado, teve imediatamente os sinais do mais terno afeto, e revestido da primeira estola foi introduzido na casa paterna àquele alegre banquete. Advirtam, pois, bem que todos estes importunos temores são enganos falaciosos do demônio. "Entendam bem isto - diz S. Cirilo - todos os batizados,
tornados participantes da divina graça; que se recusam por longo tempo por uma fingida religião ou por um danoso medo de comungar, privam-se da vida eterna; pois este não querer recebê-lo, embora pareça que venha do temor e da humildade, escandaliza e arma laço para as almas. Conviria ao contrário, que com todo esforço e solicitude se pusessem a limpar a própria alma, e empreender um novo sistema de vida, e portanto se apressassem em participar da Vida. Mas sendo muito variada a arte que o demônio usa para enganar, antes leva o homem a viver licenciosamente; e depois que está bem cheio de vícios e de pecados, induz ao horror ao sacramento do qual poderia ser curado". Até aqui o santo .
b - A Eucaristia é um excelente remédio para a alma
S. Ambrósio, S. Agostinho e S. Bernardo também nisto concordam dizendo ser a Eucaristia um excelente remédio contra o pecado. S. Cipriano assim escreve: "O cálice inebriante do Senhor, que leva a mente à
sabedoria espiritual, e quem o saboreia, do sabor humano se encaminha para a inteligência e para o gosto de Deus. E como a quem bebe este vinho terreno e comum se esclarece a mente, o ânimo se alegra e se manda para longe a tristeza; assim, experimentada a bebida salutar do Sangue do Senhor, perde-se a memória
do homem velho, esquece-se a antiga conversa secular, e o peito oprimido pelos pecados que a angustiavam, agora, para alegria do dom feito a ele por Deus, se resolve das angústias, se alivia das fadigas "
5. - QUARTA desculpa: "não sentimos fervor". - "Aproximai-vos do fogo"
Quanto aos que não querem comungar e aduzem a falta de fervor, fazem justamente como se as pessoas com frio não quisessem aproximar-se do fogo se antes não se esquentassem; enquanto segundo o Damasceno "A Eucaristia é um carvão aceso que afasta o frio e a tibieza" (6); dai como os que se afastam do fogo se tornam cada vez mais frios, assim estes alienando-se sob diversos coloridos pretextos deste fogo celeste, finalmente ficarão gelados e totalmente endurecidos. "É coisa salutar e útil ao homem - determina S. Boaventura - que se prepare para tomar muitas vezes este remédio e se esforce por tomá-lo o mais devotamente possível. E embora alguma vez aconteça que se sinta todo árido e sem fervor, embora confiante na divina misericórdia o receba confiantemente; porque, se ele se reputa indigno, pense que é muito mais necessário procurar o médico, quanto mais se sente estar enfermo".
6. - O convite do divino Amante das almas
Eu confesso que depois de haver respondido às objeções destes tíbios, e, quase os desarmado dos argumentos com que se cobriam, agora que só resta impelir seus corações, seria conveniente assim tê -lo eu bem inflamado e ardente para poder fazer isto com eficácia. Eu sei por outro lado o que devo fazer. Pedirei a eles que dêem uma só olhada para aquele sagrado Cibório, e escutem no coração o doce convite que faz-lhes este divino Amante das almas. "Vinde e comei". Eis que o banquete eu vos preparo; aquele mesmo alimento de que se nutrem no Céu os Príncipes da minha corte, este mesmo a vós eu apresento, peregrinos e exilados aqui na terra: tomai e comei: "isto é o meu Corpo; isto é meu Sangue" (Mt 26, 26 - 28), com os quais vos redimi dos vossos pecados e da servidão dos vossos inimigos. Vede quantos padecimentos, que agonias, que morte me custou preparar-vos esta mesa. Poderíeis vós render-me maior gratidão, que fazer-me a vontade de que freqüentemente a useis? Eis que eu estarei todos os dias e todas as noites convosco até o fim, e vós deixareis correr os anos inteiros antes de achegar-vos a mim? Assim tão pouco cuidais do meu Amor? A quem ireis portanto para receber a vida; se não vindes a mim que somente eu a posso dar? Quem saciará os desejos do vosso coração, senão eu que sou vosso "Princípio", assim sou também o vosso
"Fim"? Porque temeis em aproximar-vos de mim? Eu sou vosso Pai, Mestre, Amigo, Irmão; e se vós estais doentes eu sou vosso Médico, sou a vossa salvação, e serei um dia a vossa Felicidade, a vossa
Glória. Se eu aqui morasse em um trono com todo esplendor da minha Majestade,aceitaria talvez a vossa timidez e pusilanimidade; mas como estou no Sacramento escondido e familiarizado tanto com os homens, porque não vos aproximais com toda confiança sabendo que "todas as minhas delicias são estar convosco"? (Pr 8, 31). Ah! meus irmãos, quem entre vós será de sentimento tão duro que não ouça estas amorosas palavras e estes exigentíssimos convites no mais íntimo do seu coração? Felizes aqueles que ouviram a divina voz; mais felizes se aguardam para observá-la! Felizes os que ouvem e guardam" (Lc 11, 28).

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