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16 de setembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

11/26  -  O FRUTO SUAVÍSSIMO DA PENITÊNCIA 

Melhor preparação para nossa reconciliação com Deus não se poderá encontrar do que a que nos ensinou aquele que foi mandado por Deus como precursor de Cristo para preparar seus caminhos. Pois veio João "pregando um batismo de penitência" (Mc 1, 4).
1. - Penitência interior e exterior
Eu falo de penitência interior e exterior como é ordenada aos cristãos. A interior é realmente virtude, e assim se define: uma sincera conversão do nosso coração a Deus com a qual detestamos os pecados cometidos, e os odiamos, deliberando firmemente emendar a má vida e corrigir os costumes depravados, com
a esperança de conseguir o perdão da divina misericórdia. A exterior, elevada por Cristo à dignidade de sacramento, no que se refere a nós, é uma confissão exterior das próprias culpas, acompanhada de um íntimo e verdadeiro arrependimento e da vontade de, ao menos, satisfazer por elas; confissão feita ao sacerdote para a absolvição que ela nos pode dar em virtude das chaves, ou seja pela autoridade divina a ela comunicada. É sacramento enquanto foi instituída por Deus para um significado sensível, e para operar eficazmente a reconciliação com Deus na alma daqueles que depois do batismo se mancharam
com o pecado. Este é o fruto tão doce da penitência que eu quero fazê-los saborear a fim de que resolvais que não se deve aborrecer como uma planta amarga, que se tem raízes um pouco amarga, sabe produzir, porém, frutos tão amáveis e suaves.
2. - A reconciliação com Deus
A reconciliação com Deus é um complexo de todos os maiores e desejáveis bens. Primeiramente a remissão do pecado, ou melhor, de todos os pecados. Não existe delito tão grande pela malícia, tão multiplicado pelo número, que a penitência não possa apagar, e não somente uma vez, mas de novo e ainda, infinitas vezes.
Temos a palavra do próprio Deus. Toda vez que - diz Ele - o ímpio, arrependido dos seus desvios, se volte para o caminho reto dos meus mandamentos e da virtude, ele viverá a vida espiritual da minha graça, sem andar confuso em o número infeliz dos mortos para sempre. "Se, no entanto, o mau renuncia a todos os seus erros para praticar as minhas leis e seguir a justiça e a equidade, então ele viverá certamente, e não há de perecer". E de todas suas iniqüidade, não importa o número, eu as esquecerei, como se jamais tivessem sido cometidas: "Não lhe será tomada em conta qualquer das faltas cometidas". Estas são as promessas infalíveis do Senhor em Ezequiel (Ez 18, 21- 22). E de novo no mesmo Profeta: Se eu ameaçar o pecador com a morte eterna, e ele vier a fazer penitência do seu pecado fazendo boas obras, imediatamente terá a vida no lugar da morte. "Se eu afirmar ao pecador que ele haveria de morrer, se renunciando ao mal ele pratica a justiça e a honestidade, ele viverá e será preservado da morte". Todos os pecados cometidos já não lhe serão imputados. Agiu bem, portanto viverá. "Nenhum delito que tenha cometido lhe será imputado. Ele viverá porque terá observado a justiça e a honestidade" (Ez 33, 14-16). Ele nos assegura pela boca de Miquéias de se aplacar em vista da nossa penitência, prometendo esquecer todas as nossas iniqüidades, e atirar todos os nossos pecados no fundo do mar, onde permanecerão sepultados no esquecimento.
"Que não se ire para sempre porque prefere misericórdia. Uma vez mais tende piedade de nós. Esquecei nossas faltas e jogai os pecados nas profundezas do mar". (Mq 7, 18-19). E nós duvidaremos ainda das promessas divinas? A verdade não pode faltar consigo mesma. S. João diz: Se nós confessamos nossos pecados, Deus é fiel e justo para imediatamente nos perdoar tudo. "Se reconhecemos nossos pecados, Deus aí está, fiel e justo para nos perdoar os pecados" (1Jo 1, 9). Que dizer deste fruto da penitência? Não é ele precioso? Não nos deve ser caríssimo, plenamente desejável? Apagar num instante todas nossas faltas, quantas houvermos cometido em tantos anos de vida desregrada, lasciva, escandalosa! Obter um inteiro e seguro perdão, mesmo depois de havermos abusado muitas e muitas vezes da divina misericórdia! Purificar-nos tão perfeitamente a alma, que não mais aparece sombra de manchas negras, íntimas e profundas! E também isto é fruto tão próprio da penitência, que a remissão do pecado de ninguém se pode conseguir, e nem mesmo esperar, sem ela. Por isso está escrito no Evangelho: "Se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo" (Lc 13, 3, 5).
3. - O pecado é a morte da alma
Para conhecer melhor a raridade, a suavidade deste bem, atente um pouco, ó homem, a que o reduziram seus pecados, e a que mais ainda o poderiam reduzir. Já despojaram sua alma da verdadeira vida sobrenatural, e fica um cadáver inerte, deformado, malcheiroso. De fato, assim como a alma é a vida do corpo, assim Deus mediante a graça é a vida da alma. "Este é a tua vida" (30, 20), encontramos no
Deuteronômio. E assim como o corpo morre se a alma o abandona, assim morre a alma toda vez que, pelo pecado mortal, expulso da alma, Deus se afasta. Ó miserável, ó infeliz pecador que aqui me escuta, você diz estar vivo, mas na verdade está morto; "és considerado vivo, mas estás morto" (Ap 3, 1). Quer ver sua morte manifestada? A vida mais se manifesta no movimento e na ação. Agora, diga-me: o que você faz de meritório na ordem sobrenatural? Ou como você se dirige para a feliz beatitude? Se lhe foi tirado até mesmo o poder de agir e o direito de merecer? Tudo o que você faz, ou pudesse ou desejasse fazer, tudo é e seria um movimento inútil, uma ação vã, porque feito sem Deus. Porque conforme S. Agostinho "assim como a alma, enquanto está no corpo, lhe dá vigor, beleza, movimento, e as outras ações aos membros, assim enquanto Deus está na alma, lhe dá sabedoria, piedade, justiça, caridade" (2), que é a raiz do merecimento.
Assim dizia também o Apóstolo: "Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria" (1 Cor 13, 2-3). E não se deve dizer que isto é uma verdadeira e deplorável morte? Está morto! Todavia, reflita bem, ó irmão, ó irmã, que o pecado devagar, devagar queria levá-lo a uma segunda morte pior, que é perder a vida eterna, à qual você foi criado, sepultando-o em "um lugar onde há fogo inextinguível e ranger de dentes, e o seu verme não morre" (Mt 8, 12; Mc 9, 43). Ó infelicíssimo, quem quer que seja, que permanece no pecado, você em
verdade; pode dizer: "A região dos mortos é a minha morada" (Jó 17, 13). A sentença já foi dada contra mim, apenas cometi a culpa. Nada mais é necessário para que seja executada, senão um sinal do Juiz. Ó infelicíssimo pecador! Sua alma está morta; quem a poderá ressuscitar? Você está condenado à morte eterna: quem poderá livrá-lo? A penitência, somente a penitência.
4. - A penitência é a ressurreição da alma
Se o pecado é a morte da alma, a penitência é a sua ressurreição. Esta realmente o reconcilia com Deus que é sua vida, e assim restitui-lhe a vida. Que coisa mais querida, mais doce que a vida? O que mais precioso, mais estimável desta vida que a penitência lhe dá? Que é uma participação da própria vida de Deus? "Cristo vive em mim" (Gl 2, 20). "A vossa vida está escondida com Cristo em Deus" (Cl 3, 3). A sentença de morte eterna já lançado contra você, por ela é mudada em direito à vida eterna. Sim: a vida eterna é o fruto suavíssimo da penitência, de uma conversão. Ouvi-o da boca o próprio Deus: "Não me comprazo com a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida" (Ez 33, 11). O próprio Cristo pela boca do seu Precursor promete o reino dos céus à
penitência: "Fazei penitência porque está próximo o reino dos céus" (Mt 3, 2). E certamente a penitência faz o homem "herdeiro, segundo a esperança da vida eterna" (Tt 3, 7); Porque de servo do pecado o faz filho adotivo de Deus. O faz filho, porque de pecador o transforma em Justo, de inimigo de Deus o traz à sua amizade, o constitui na Sua graça. Isto nos é muito bem apresentado na parábola do Filho pródigo, como muito vivamente anotou S. Ambrosio (3). De fato retornando o pecador do seu longo desvio, arrependido, aos pés do seu Deus, e dizendo: Pai, pequei contra o céu e contra vós; aquele pai amoroso o acolhe, dando-lhe no rosto o beijo da paz, e ordena que lhe seja restituída a primeira veste, que é a veste nupcial da caridade e da graça. Coloca em sua mão o anel, que o penhor da fé e o sinal do Espírito Santo; prepara um substancioso banquete celeste: as Carnes puríssimas, o precioso Sangue do seu Unigênito e nosso Salvador, Jesus Cristo, com que o alimenta, o fortifica, o alegra .
5. - Onde abundou a iniqüidade aí superabundou a graça
Não é só isso. A penitência faz também que o homem ressurgindo do pecado receba maior graça do que tinha antes dele: daí se confirma freqüentemente que "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5, 20). Antes, se pode dizer ainda mais. Pois pela penitência muitas vezes o pecador se dispõe a receber de Deus maior abundância de graças que os próprios inocentes. E assim é, segundo o Evangelista, que os últimos serão os primeiros, e os primeiros os últimos" (Mt 20, 16); que "os publicanos e as meretrizes precederão muitos justos no reino dos céus" (Mt 21, 31) e que ''haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência, do que por noventa e nove justos que não necessitam de
arrependimento" (Lc 5, 7). Ajuntai às novas aquisições a reintegração das perdas. Tantas boas obras feitas quando estávamos em estado de graça e de inocência, tantos merecimentos acumulados antes, e depois saqueados pela culpa mortal, pela penitência revivem e são restituídos. Convertam-se a mim de todo coração, diz Deus por Joel: "Convertam-se a mim de todo vosso coração: eu restituir-lhes-ei as colheitas devoradas - durante o tempo em que em vocês reinaram as suas paixões - pelo gafanhoto, pelo roedor,
pelo devastador e pela lagarta" (Jl 2, 25). Que consolação para um pecador arrependido ver-se assim enriquecido, depois de tanta miséria! Que alegria ver-se circundado de tanta glória, depois de tanta ignomínia! Como deve ser-lhe alegre a saúde depois de haver provado o mal da enfermidade! Como querida a vida depois das ânsias, das angústias, das agonias mortais! Não mais remorsos, não mais tristezas, não mais temor. Uma paz suavíssima no coração; uma serenidade imperturbável no ânimo, uma tranqüilidade inefável no espírito. Este é o fruto da penitência, tão doce só em senti-lo com o pensamento,
quanto mais saboreá-lo com a experiência! Experimentemo-lo, ó meus irmãos pecadores, e revemos ainda melhor na prova quanto seja suave reconciliar-se com Deus. "Provai e vede como o Senhor é bom" (Sl 33, 9).
6. - Resolução
Convertamos logo, pois, sinceramente nosso coração a Deus; olhando nossos erros e desvios passados, tenhamos para com eles o mais vivo desprazer, a mais forte abominação, o ódio mais resoluto. Resolvamos com toda a estabilidade e constância emendar seriamente nossa vida e mudar para melhor nossos costumes. E com uma doce esperança, antes, com segura confiança de obter o perdão, confessemos, aos pés do sagrado ministro, todas as culpas cometidas, prontos a ressarcir a Deus e aos homens a conveniente e devida satisfação. Assim lavadas e de novo alvejadas nossas vestes no sangue do Cordeiro, daquele mesmo cordeiro imaculado, Cristo Jesus, que veio para "tirar o pecado do mundo" (Jo 1, 29): nos tornaremos dignos de sair-lhe ao encontro e de ser admitidos ao seu convívio feliz de todos aqueles bens que traz consigo, e de sua própria herança. "Andarão comigo vestidos de branco, porque o merecem" (Ap 3, 4).

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