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6 de agosto de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

IV. MANRESA: COMUNICAÇÕES DIVINAS

Inácio de Loiola retomara a sua habitação no hospital D. de Santa Lúcia. Teria preferido a vida solitária na gruta onde recebera tantas graças e fruíra tão doces consolações; mas tendo-lhe a obediência imposto o sacrifício de habitar no hospital, teve que renunciar à gruta e não voltar lá senão para orar e meditar. Deus, porém, compensou-o superabundantemente não só desse sacrifício, mas das tribulações interiores com que lhe experimentava a fidelidade.
Ao abandonar o mundo, Inácio era ignorante como todos os fidalgos da sua época. Ninguém entendia melhor que ele da arte da caça, conhecia perfeitamente a ciência do bem viver e da alta cortesia; à frente dos seus homens de armas, teria desafiado o melhor capitão; no campo de batalha era um herói; mas, doutras coisas, nada sabia. Fazia versos, é verdade, e a sua rica e poética imaginação produzia-os com tanta facilidade como elegância. Mas escrevia-os sem ortografia, de que fazia pouco caso, o que então se deixava aos sacerdotes e aos letrados. O nosso herói não sabia mais que ler e escrever, e sabemos o uso, que tinha até então feito duma coisa e doutra.
Era contudo necessário no plano da sabedoria e da misericórdia infinitas, que o nobre penitente de Manresa possuísse no grau mais eminente o gênio, que faz os grandes homens, as virtudes que fazem os maiores Santos, a ciência que faz os maiores doutores.
Do gênio tem ele o gérmen: o desenvolvimento será pronto e completo; às virtudes praticou-as todas na perfeição antes de as conhecer; a ciência vai possui-la, antes de ter estudado.
Estava um dia Inácio na escadaria da igreja dos Dominicanos, onde, durante uma procissão, recitava o ofício da Santíssima Virgem. De repente, o seu espírito é arrebatado até ao seio de Deus, e é-lhe dado compreender e contemplar o Incompreensível mistério dum Deus, único em três pessoas distintas! Depois desta visão, fica muito tempo em presença do Santíssimo Sacramento e não pode testemunhar senão pela abundância das lágrimas o reconhecimento que lhe enche o coração.
Ao sair da igreja a sua alma expande-se junto dos religiosos em termos magníficos; fala-lhes do adorável mistério da Santíssima Trindade com palavras de fogo e numa linguagem sublime, evidentemente inspirada; os mais sábios escutam-no com admiração, ninguém duvida de que ele haja recebido luzes sobrenaturais, e todos exclamam, quando Inácio se afasta: "- Nunca nenhum doutor da Igreja falou tão eloqüentemente e com tanta clareza sobre este mistério! Nunca este Mistério foi apresentado sob tais imagens!"
A notícia desta maravilha espalha-se na cidade, correm para junto de Inácio e pedem-lhe para que fale da Santíssima Trindade. O Santo causa admiração àqueles que o escutam. Esquece a linguagem popular que afetava de ordinário e exprime-se com notável elegância; a sua eloqüência arrasta algumas almas e ganha-as para Deus. Não se cansam de o ouvir, ele não se cansa de falar, seguem-no nas ruas, acompanham-no nas suas diversas peregrinações; em toda a parte, aonde vai, lhe pedem que fale de Deus, e por toda a parte e sempre corresponde à expectativa geral com igual fala sobretudo da Santíssima Trindade; sobre este assunto, Inácio é inesgotável, porque tem sempre presente a sua visão.
Um dia, quando orava na igreja de Nossa Senhora de Manresa [22], foi de novo arrebatado, e vê e compreende todo o plano da divina sabedoria na criação.
Outro dia, assistia à santa missa na igreja de Monserrate[23], o seu olhar fixa-se com amor sobre a divina Hóstia exposta à adoração pública naquele dia, e vê e compreende a presença real de Jesus Cristo na adorável Eucaristia. Num dos seus passeios contemplativos, senta-se numa pedra perto da cruz do Tort, e o seu rosto volta-se para o Cardoner, que corre diante dele; de repente, perde todo o sentimento das coisas da terra, Deus dá-lhe um conhecimento claro e distinto de todos os mistérios da nossa fé e faz-lhe ver e compreender o encadeamento e o conjunto deles. Voltando a si, Inácio vai prostrar-se aos pés da cruz do Tort e demora-se ali bastante tempo em ações de graças"- Se, por impossível, - dizia ele algumas vezes - as Sagradas Escrituras desaparecessem da terra, com isso eu nada perderia". - As verdades da fé parecem-me tão claras, - dizia também - que, ainda que não estivessem contidas no santo Evangelho, não hesitaria em defendê-las e sustentá-las à custa do meu sangue!"
No hospital de Santa Lúcia, Inácio habitava um quarto que tinha uma tribuna para a capela [24].
Um sábado, depois de completas, entrou em êxtase, na sua tribuna, e ali esteve até ao sábado seguinte, à mesma hora. Durante estes oito dias, não tomou alimento algum e não mudou um só instante de posição; julgaram-no morto; auscultaram-lhe o peito, sentiram um ligeiro movimento de coração, e pensando que ele estava desmaiado, começaram a prodigalizar-lhe cuidados. Nada, porém, conseguiu chamá-lo à realidade da vida; compreenderam então que o seu espírito estava abismado em Deus, e ergueram-no para o despertar. Quando o puseram em terra, o Santo pareceu despertar dum doce sono, e, abrindo os olhos, disse, vertendo lágrimas: "-Ó Jesus! ó Jesus!" E mais nada.
Que se passou, durante estes oito dias, entre a alma de Inácio de Loiola e o Deus de amor que se dignava comunicar-se-lhe? Nunca ninguém o soube; mas há razões para pensar que o livro dos Exercícios Espirituais e o plano da santa Companhia de Jesus são os frutos desse longo êxtase, e que foi então que o próprio Deus o traçou na alma do nosso Santo. A todas as perguntas que lhe foram dirigidas a este respeito, Inácio respondia estas simples palavras "- Nada mais posso dizer senão que todos os favores de que a divina Majestade se dignou cumular-me são inexprimíveis !"
Fossem quais fossem as luzes sobrenaturais com que fora esclarecido, Inácio de Loiola, sempre humilde, não cessara de seguir a direção do Padre João Chanones, a quem ia regularmente pedir conselhos. Este santo velho dizia muitas vezes aos seus religiosos: "- O meu discípulo de Manresa é um grande mestre! Será um dia o defensor, o sustentáculo, o ornamento da Igreja; será reformador do mundo, verdadeiro sucessor de S. Paulo, e, por ele, a luz do Evangelho será levada às mais longínquas nações idólatras".
Uma santa jovem, conhecida em toda a Espanha pela beata de Manresa, só falava de Inácio com toda a veneração, e assegurava que via nele um dos maiores Santos da igreja.
Não havia mais. que uma voz para o proclamar homem de Deus, e todos repetiam que só a sua humildade lhe fazia ocultar o brilho do seu nascimento sob as aparências da maior pobreza.
Entretanto, o nosso herói sabia agora que a maior glória e Deus, para a qual ele, só queria viver e morrer, consiste na santificação das almas, e ardia no desejo de trabalhar para esse fim. "- Não basta, - dizia ele - que eu sirva o Senhor soberano do céu e da terra; é necessário que Ele seja amado por todos os corações; é necessário que todas as vozes o bendigam e cantem os seus louvores! Não basta que eu trabalhe para a minha própria perfeição; é necessário, para a maior glória da sua divina Majestade, que eu trabalhe para a dos outros!" Cheio deste pensamento, redobra as suas exortações, e a sua palavra, sempre ouvida com prazer, opera prodígios. De todas as circunvizinhanças correm para escutar aquele que pratica tão escrupulosamente o que aconselha, e é obrigado a subir a uma pedra, à porta do hospital, para se fazer ouvir de todos.
Já não é uma corda de cânhamo que lhe cinge o corpo é uma longa cadeia de ferro, pesada e áspera; o seu jejum é continuo, as suas disciplinas sangrentas, o seu rosto cavado pela austeridade da vida; o seu olhar não é da terra. É, o homem evangélico na mais alta perfeição; só o seu aspecto arrasta ao arrependimento e à penitência.
Alguns meses antes, a cidade de Manresa oferecia um doloroso espetáculo; os costumes eram relaxados; os sacramentos desprezados, a fé parecia quase extinta. Agora, é uma cidade exemplar. Inácio reformou-a completamente e restituiu-a a Deus.
Foi no próprio seio de Deus que ele hauriu o poderoso método que empregava para fazer vibrar mais profunda e eficazmente nas almas a palavra evangélica. Ele vê as vocações religiosas que desperta, os sacrifícios que obtém, a reforma de costumes que opera, e quer facilitar o meio de o espalhar e de multiplicar os seus frutos. Escreve o livro imortal dos Exercícios Espirituais, Deus continuava a prodigalizar os seus favores ao nosso Santo; algumas vezes foi-lhe dado ver e contemplar Nosso Senhor e sua divina Mãe, não duma maneira sensível, mas por uma espécie de vista interior, como ele mesmo explicou mais tarde ao Padre Gonçalves.
O demônio quis aproveitar-se da disposição em que tão frequentes visões mantinham o seu espírito. Algumas vezes uma serpente, de brilhantes e luminosas cores, se apresentara à sua vista, no campo. Inácio admirara-a; mas, não vendo nisso nenhuma significação e experimentando apenas uma espécie de perturbação depois do seu desaparecimento, tinha pensado que isso não podia ser senão uma ilusão do inimigo de Deus e dos homens. Representando-se-lhe a serpente um dia ao cimo da cruz do Tort, logo após um dos êxtases que tão maravilhosamente o esclareciam, notou que as cores da serpente tinham perdido o seu brilho. Desde este Momento, não havia dúvida para ele: reconheceu a presença do demônio. Desde esse dia, todas as vezes que a visão se renovava, bastava ao Santo fazer um movimento com o bastão para se ver livre desta imagem importuna.
Entretanto, Inácio tinha perdido o sono; as suas austeridades tinham-lhe deteriorado o estômago, que não suportava alimentos. Não pôde resistir mais tempo a tantas fadigas, privações e sofrimentos e caiu perigosamente doente. Foi um luto para Manresa. Os magistrados e os principais habitantes da cidade quiseram quinhoar da consolação de o tratar as suas expensas, em casa de D. André Ferreira de Amigante, para onde foi de novo conduzido. Os Dominicanos e os Beneditinos combinaram-se para lhe imporem o dever de Moderar as suas austeridades, e, apenas recobrou a saúde submeteu-se a tudo o que lhe impuseram. Abandonou as pobres roupas de Monserrate, aceitou as que lhe deram em troca e vestiu por cima delas uma longa batina de algodão cinzento tendo a forma da dos clérigos; consentiu também em cobrir-se com um manto de pano azul e com um boné do mesmo pano [25] para se preservar do frio, que começava a fazer-se sentir.
O valente cavaleiro de Jesus e de Maria acabava de fazer o seu primeiro ensaio de armas em Manresa. A espada da Palavra, com a qual tinha alcançado brilhantes e magníficas vitórias sobre as paixões humanas, havia-lhe sido dada pelo próprio céu, e a sua maravilhosa virtude não podia ser posta em dúvida, porque a reforma duma cidade inteira e dos seus arredores o atestavam evidentemente.
Nos romances de cavalaria, que Inácio bem conhecia, aos mais valorosos paladinos e àqueles cujas proezas haviam conquistado maior nomeada, é que eram concedidas as armas encantadas que asseguravam a vitória. Havia também armaduras que tinham a virtude de tornar invulneráveis aqueles que as usavam; mas sucedia por vezes que um malvado ou um traidor se apoderava delas por astúcia, e então o cavaleiro espoliado tornava-se vulnerável como um simples mortal.
"- Nada tenho feito, - dizia o nosso Santo - para merecer a espada maravilhosa que o meu Senhor e Mestre se dignou de confiar-me para sua glória. Recebendo-a, comprometi-me a, defender a sua honra em toda a parte e sempre; não posso nem devo deixá-la ociosa! Irei à Palestina atacar as falanges inimigas do meu soberano Senhor e da soberana Senhora e Rainha do mundo. A minha armadura encantada será composta da Fé, da Esperança, da Caridade, e da Oração. A graça sustentar-me-á e ajudar-me-á! Se eu conservar preciosamente esta santa armadura, serei invulnerável; se, ao contrário, não desconfiar constantemente do malvado e do traidor, a sua infernal astúcia poderá roubar-ma. Avante pois, contra a infidelidade que cobre a Terra Santa e guerra ao traidor maldito! "Inácio estava resolvido a partir. A peste diminuía de intensidade em Barcelona, os navios não podiam demorar-se a fazer-se ao mar, e o nosso Santo queria encontrar-se lá para embarcar no primeiro que se fizesse à vela para Itália.
A notícia da sua próxima partida causou intensa dor aos seus amigos. Orações, lágrimas, súplicas, tudo foi empregado em vão para o afastar de uma viagem que então se julgava das mais perigosas. Algumas pessoas inutilmente solicitaram o favor de o acompanhar, acrescentando - O senhor não sabe nem latim nem italiano; leve em sua companhia alguém que fale um ou outro idioma, para lhe servir de intérprete e evitar os inconvenientes, que resultam da ignorância da língua desses países. - Ainda que me dessem o filho do duque de Córdova - respondeu energicamente o nosso herói não o aceitaria. Se eu levasse companheiro de viagem, contaria com ele para me alimentar quando tivesse fome, para me levantar quando caísse... Não! Poria nele a confiança que só devo pôr em Deus; unir-me-ia a ele, em vez de só amar a Deus... Não! não quero ninguém..., ou, antes, parto acompanhado da Fé, da Esperança e da Caridade; a Fé me guiará, a Esperança será a minha despenseira e a Caridade não me abandonará nunca.
Inácio tinha como inimigos, naquela cidade, alguns homens, em pequeno número, é certo, cujo endurecimento no pecado havia resistido às suas constantes exortações. D. Inês Pascoal, temendo que ele fosse perseguido com as suas injúrias, e que a sua própria vida fosse ameaçada, chamou seu irmão D. Antônio Pujole, que era um dos familiares do Arcebispo de Tarragona, e pediu-lhe que acompanhasse a Barcelona o santo penitente. Não podendo recusar esta companhia, submeteu-se humildemente.
Inácio não tinha dinheiro; mas todas as bolsas se lhe abriram; queriam que levasse ao menos uma soma suficiente para as despesas da viagem. - A Providência, - respondeu ele - encarregar-se-á de fazer as despesas da viagem e do regresso. E, tomando os manuscritos e o bordão de peregrino, partiu a pé, não querendo outras provisões senão o pão da esmola, que lhe fosse dado no caminho, a água que a sua cabaça levava, e, principalmente, a confiança em Deus. Um sacerdote, chamado Caváglia, tinha-lhe sempre dado esmola com terno respeito. No momento de o abandonar, Inácio quis deixar-lhe uma lembrança do seu reconhecimento, mas não possuía nada: tem apenas o seu livro de oficio da Santíssima Virgem e faz o sacrifício de lho dar.
Não pode conter as lágrimas à vista da desolação daqueles que o amam; promete a todos as suas recordações e lembranças e arrancando-se enfim aos seus pesares e à sua ternura, encaminha-se para Barcelona com D. Antônio Pujole, que cavalgava perto dele numa mula.

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