Busca no Blog

15 de março de 2021

Histórias das Cruzadas - Livro Primeiro - Origem e Progresso do Espírito das Cruzadas 7

Vários anos depois da morte de Frotmond, Cêncio, Prefeito de Roma, que tinha ultrajado o Papa na Igreja de Santa Maria Maior, arrancando-o do altar e atirando-o a um cárcere, teve necessidade, para ser
absolvido, desse grande sacrilégio, de fazer uma peregrinação à terra santa. O sexo frágil e tímido não se detinha pelas dificuldades e pelos perigos de uma longa viagem. Helena, de nobre família da Suécia, deixou seu país entregue à idolatria e foi a pé para o Oriente. Quando depois de ter visitado os santos lugares voltou à sua pátria, foi imolada ao ressentimento de seus pais e compatriotas. Alguns fiéis comovidos por sua piedade, elevaram em sua memória uma capela na ilha de Seeland, perto de uma fonte que ainda é chamada a Fonte de Santa Helena. Os cristãos do Norte foram por muito tempo em peregrinação a esse lugar, onde veneravam uma gruta em que Helena havia morado, antes de partir para
Jerusalém.

Nos últimos anos do século IX, encontramos uma importante peça histórica, datada de 881, que nos descreve o estado da igreja latina de Jerusalém, nessa época e mostra-nos como já relações de fraternidade se haviam solenemente estabelecido entre os cristãos do Oriente e os da Europa. Essa peça é uma carta de Elias, Patriarca de Jerusalém, dirigida a Carlos, o Moço, a todos os príncipes mui magníficos, mui piedosos e mui gloriosos da ilustre descendência do grande Imperador Carlos, aos reis de todos os países das Gálias, aos condes, aos mui santos arcebispos, metropolitanos, bispos, abades, padres, diáconos, subdiáconos e ministros da Santa Igreja; às santas irmãs, a todos os adoradores de Jesus Cristo, às .mulheres ilustres, aos príncipes, aos duques, a todos os católicos e ortodoxos de todo o universo cristão.

Depois de ter falado das numerosas tribulações que os cristãos de jerusalém tiveram que sofrer e de que
os peregrinos puderam fazer na Europa uma fiel narração, o Patriarca diz, que, pela misericórdia da divina providência, o príncipe de Jerusalém tendo-se feito cristão, permitiu aos fiéis retomar seus santos
edifícios e reconstruir seus santuários destruídos. Não tendo dinheiro suficiente para as despesas da restauração dos santos lugares, os fiéis foram obrigados a recorrer aos muçulmanos; como esses não quiseram emprestar sem garantias, os cristãos lhes entregaram suas oliveiras, suas vinhas, seus vasos sagrados; mas, por falta de dinheiro, eles não podem reaver os bens dados como penhor; nesse estado os pobres e os monges estão ameaçados de morrer de fome, os cristãos escravos não são resgatados e falta o óleo nas lâmpadas dos santuários. Como segundo a palavra do divino Apóstolo quando um membro sofre, todos os membros sofrem também, os cristãos de Jerusalém pensaram em implorar a piedade de seus irmãos da Europa. Outrora os filhos de Israel ofereceram eles mesmos seus bens para erguer um tabernáculo; foi-se obrigado a anunciar por meio de um pregoeiro público que os dons oferecidos já eram suficientes e esse aviso não detinha o entusiasmo generoso do povo de Deus; o patriarca pergunta se os fiéis ocidentais, chamados em socorro da Igreja de Jesus Cristo se hão de mostrar menos zelosos que os israelitas. Estes os trechos principais da carta patriarcal. Não sabemos o que a Europa cristã respondeu. Mas devemos crer que os dois monges encarregados da carta de Elias não voltaram de mãos vazias. Há um como pressentimento das cruzadas nessa voz de Jerusalém que, duzentos e quinze anos antes da pregação de Pedro, o Eremita, subia suplice do lado do Ocidente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário