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13 de março de 2021

Histórias das Cruzadas - Livro Primeiro - Origem e Progresso do Espírito das Cruzadas 5

A política não foi sem dúvida estranha às demonstrações de estima que Arun prodigalizava ao Imperador do Ocidente: o califa fazia guerra aos senhores de Constantinopla e podia temer com razão que os gregos interessassem em sua causa os mais valorosos dentre os povos cristãos. As tradições populares de Bizâncio representavam os latinos como os futuros libertadores da Grécia; num dos primeiros assédios de Constantinopla, pelos sarracenos, somente o ruído do exército dos francos, reanimara a coragem dos sitiados e lançara o espanto nas linhas muçulmanas.

No tempo de Arun, o nome de Jerusalém exercia já uma poderosa influência sobre os cristãos do Ocidente, tanto que era suficiente pronunciar esse nome sagrado para despertar seu entusiasmo bélico. A fim de tirar aos francos todo pretexto de uma guerra religiosa, que lhes teria podido fazer abraçar a causa dos gregos e atraí-los para a Ásia, o califa não perdeu nenhuma ocasião de conquistar a amizade de Carlos Magno e mandou apresentar-lhe as chaves do Santo Sepulcro e da Cidade Santa. Essa homenagem prestada ao maior dos monarcas cristãos foi  celebrada com entusiasmo pelas lendas contemporâneas e fez crer em seguida que o Imperador do Ocidente tinha ido a Jerusalém.

Arun tinha tratado os cristãos da igreja latina como seus próprios súditos: os filhos do califa imitaram sua moderação; sob seu reinado, Bagdad foi a sede das ciências e das artes. O califa Almanon, diz um historiador árabe, bem sabia que aqueles que trabalham para o progresso da razão são os eleitos de Deus. As luzes poliram os costumes dos chefes do islamismo e inspiraram-lhes uma tolerância que os companheiros de Abu-Beker e de Omar desconheciam.

Enquanto os árabes da África prosseguiam em suas conquistas para o Ocidente, apoderavam-se da Sicília e Roma mesma tinha visto seus arredores e a Igreja de S. Paulo invadidos e saqueados pelos infiéis, os servos de Jesus Cristo rezavam em paz nos muros de Jerusalém. Os peregrinos, que para lá iam, dos confins da Europa, eram recebidos numa estalagem cuja fundação se atribuía a Carlos Magno. Ante a relação do monge Bernardo, francês de origem, que, pelo fim do século IX viajou para a terra santa com dois outros religiosos, a hospedaria dos peregrinos da igreja latina compunha-se de doze casas ou edifícios. A esse piedoso lugar estavam anexos campos, vinhas e jardins, situados no vale de Josafat.

Essa hospedaria, como as que o Imperador do Ocidente fundou no norte da Europa, tinha uma biblioteca franqueada aos cristãos e aos viajantes. Desde o século VI via-se perto da fonte de Siloé, um cemitério no qual eram sepultados os peregrinos que morriam em Jerusalém. Entre os túmulos dos fiéis moravam os servos de Deus. Esse lugar, diz uma narração, coberto de árvores frutíferas, semeado de sepulcros e de humildes celas, reunia os vivos e os mortos e apresentava um quadro, ao mesmo tempo, risonho e lúgubre.

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