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8 de março de 2021

Histórias das Cruzadas - Livro Primeiro - Origem e Progresso do Espírito das Cruzadas 3

Maomé tinha quarenta anos quando começou sua obra apostólica em Meca. Depois de treze anos de pregação, foi obrigado a fugir para Medina para escapar à sua tribo, que o perseguia: essa fuga para Medina que teve lugar a 16 de julho de 622, inicia a era muçulmana. O profeta apóstolo de Deus, como ele mesmo se chamava, marchava à frente dos discípulos fanatizados por sua palavra, invadiu em poucos anos as três Arábias; ele sonhava em continuar suas conquistas, quando de repente o veneno veio terminar seus dias em Medina, no ano 632. Abu-Beker, seu sogro, que tomou o título de lugar-tenente do apóstolo de Deus, continuou a obra da conquista durante um reinado de vinte e sete meses; Omar, sucessor de Abu-Beker, que se fez primeiro chamar de lugar·tenente do lugar-tenent,e do apóstolo de Deus e mais tarde Príncipe dos fiéis, apoderou-se da Pérsia; a Síria e Egito bem depressa pertenceram ao islamismo, pelo poder da espada. A nova religião ameaçava todas as nações. Os batalhões do islamismo espalharam-se pela África, plantaram o estandarte do profeta sobre as ruínas de Cartago e levaram o terror de suas armas até as praias do Atlântico. Desde a índia até o estreito de Cadiz, desde o mar Cáspio até o Oceano, tudo mudou: língua, costumes, crenças; o que restava do paganismo foi aniquilado bem como o culto dos magos.

O cristianismo subsistiu com dificuldades. Constantinopla que era o baluarte do Ocidente, viu diante de seus muros hordas inumeráveis de sarracenos; sitiada várias vezes por terra e por mar, a cidade de Constantino deveu sua salvação apenas ao fogo grego, aos búlgaros que acorreram em seu auxílio, e à inexperiência dos árabes na arte da navegação. Durante o primeiro século da héjira, as conquistas dos muçulmanos foram limitadas apenas pelo mar que os separava da Europa; mas depois que eles construíram navios, nenhum povo ficou a salvo de suas invasões; eles devastaram as ilhas do Mediterrâneo, as costas da Itália e da Grécia; a fortuna ou a traição os fez senhores da Espanha, onde derrubaram a monarquia dos gôdos; aproveitaram-se da fraqueza dos filhos de Clóvis para penetrar nas províncias meridionais da Gália e só foram detidos em sua marcha terrível pela vitória de Carlos Martelo.

Depois das primeiras conquistas dos sarracenos, suas vistas se fixaram por primeiro, em Jerusalém. Segundo a fé dos muçulmanos, Maomé tinha honrado com sua presença a cidade de Davi e de Salomão; de lá ele partira para subir ao céu na sua viagem noturna. Os sarracenos consideravam Jerusalém como a casa de Deus, como a cidade dos santos e dos milagres. Dois lugar-tenentes de Omar, Amrou e Serdyil, sitiaram a cidade santa, que se defendeu corajosamente durante quatro meses; todos os dias os sarracenos davam assaltos, repetindo estas palavras do Corão: Entremos na terra santa que Deus nos prometeu. Os cristãos, em sua longa resistência, aguardavam socorro de Heráclio; mas o Imperador de Bizâncio nada ousou empreender para salvar Jerusalém.

O califa Omar veio ele mesmo à Palestina receber as chaves e a submissão da cidade conquistada. Os cristãos tiveram a dor ingente de ver a Igreja do Santo Sepulcro profanada pela presença do chefe dos infiéis. O Patriarca Sofrônio que acompanhou o califa, não pode deixar de repetir estas palavras de Daniel: A abominação da desolação está no lugar santo. Omar tinha deixado aos habitantes uma espécie de liberdade religiosa, mas a pompa das cerimônias lhes havia sido proibida; os fiéis escondiam suas cruzes e objetos sagrados, o sino não chamava mais à oração. Jerusalém estava imersa no luto. Uma grande e magnífica mesquita, que o viajante pode encontrar ainda hoje foi construída pelo califa no lugar onde se havia erguido o Templo de Salomão. O aspecto do edifício consagrado ao culto dos infiéis aumentava a aflição dos cristãos. A história narra que o patriarca Sofrônio não pode suportar a vista dessas profanações e morreu de desespero.

No entretanto a presença de Omar, do qual todo o Oriente elogiava a moderação, detinha o fanatismo invejoso dos muçulmanos. Os cristãos sofreram muito mais depois de sua morte; foram expulsos de suas casas, insultados em seus santuários; aumentaram os tributos que eles deviam pagar aos novos senhores da Palestina; proibiram-lhes usar armas, montar a cavalo; um cinto de couro que eles não podiam deixar era o sinal de sua escravidão; os vencedores chegaram ao ponto de proibir aos cristãos o uso da língua árabe, porque era a língua do Corão; enfim, o povo que permanecera fiel a Jesus Cristo não teve a liberdade de escolher seus pastores sem a intervenção dos sarracenos.

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