Busca no Blog

19 de julho de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

3/5  -  Motivos pelos os quais os cristãos imperfeitos não devem temer a morte e podem até desejá-la.

Assim como a vida cristã é uma imitação e expressão da vida que Jesus Cristo por nós sofreu, a morte cristã é também uma imitação e expressão de Jesus Cristo, morrendo por nós. Jesus Cristo morreu para satisfazer a justiça de Deus pelos pecados de todos os homens e por termo ao reino da iniquidade; para prestar a seu Pai a obediência mais perfeita submetendo-se à sentença da morte justamente pronunciada contra todos os pecadores, cujo lugar ocupava, servindo-lhes de caução; para por meio da sua morte dar uma homenagem infinita à majestade de Deus, e reconhecer o seu soberano domínio sobre todas as criaturas.
Todo o cristão esta obrigado a aceitar da morte com estas mesmas disposições e deve julgar-se por muito feliz em querer Jesus Cristo unir o sacrifício que fez a Deus da sua divina e infinitamente mais preciosa do que a vida natural de todos os anjos e homens, como o sacrifício que cada um de nós deve fazer a Deus duma vida tão miserável e indigna, e que queira tornar a nossa morte digna de nos granjear uma vida eterna, unindo-se à sua. Morrer sem participar destas disposições de Jesus Cristo moribundo, não é morrer como Cristão, e por conseguinte morrer como réprobo.
Todo o cristão é obrigado a trabalhar para adquirir estas disposições durante a vida que só lhe foi dada para aprender a bem morrer. É preciso adorar muitas vezes em Jesus Cristo este zelo ardente em satisfazer a justiça de Deus e em destruir o pecado este espírito de obediência e sacrificio, no qual viveu e morreu e que ainda conserva no mistério da Eucaristia.
É preciso pedir-lhe para dele participarmos, sobretudo durante o augusto sacrifício da missa e da santa Comunhão, onde Jesus Cristo ainda se oferece a seu Pai, com as mesmas disposições, e onde se entrega a nós para no-las comunicar. Quanto mais participarmos destas santas disposições, menos temeremos uma morte, que deve ser tão preciosa e meritória perante Deus, e que o sera tanto mais quanto mais entrarmos nos desígnios de Jesus Cristo, que, tendo morrido realmente uma só vez para render a seu Pai a honra soberana que lhe é devida, deseja oferecer-lhe até o fim dos séculos a morte de cada um dos seus membros, como continuação deste sacrifício.
Um dos grandes efeitos da encarnação e da paixão de Jesus Cristo foi o livrar-nos do temor da morte; fez-se homem e homem mortal, para destruir por sua morte aquele que era o príncipe da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles a quem o temor da morte mantinha em uma escravidão contínua durante a vida. Não é, por assim dizer, desonrar a vitória de Jesus Cristo sobre a morte, tremer diante do inimigo, que Ele venceu, e ficar nesta escravidão só pelo temor de morrer.
Jesus Cristo desejou com ardor a hora em que devia consumar o sacrifício pela efusão do seu sangue: "Desejei ser batizado com um batismo, (é assim que Ele denomina a sua paixão), e como estou aflito até que isto se cumpra!" Um cristão que se honra em ser um de seus membros, não deveria entrar no seu espírito, e desejar efetuar o batismo com que Ele foi batizado? Porque a morte deve ser para um cristão verdadeiro um batismo onde se purifique dos seus pecados e se regenere por uma vida imortal e perfeitamente isenta de toda a corrupção do pecado.
Não deveríamos nós, como Jesus, desejar com ardor sacrificar o mais cedo possível a vida:
1º  Para dar a soberana Majestade de Deus e a todas as suas divinas perfeições, a maior glória, que lhe pode dar uma  criatura e para prestar a mais perfeita homenagem à morte de Jesus Cristo, nosso Deus e salvador;
2º  Para oferecer a Deus a mais digna ação de graças em reconhecimento por ter sacrificado por nós na cruz a vida de seu Filho e por continuar há tantos séculos a imolar seu corpo e sangue em nossos altares, e em reconhecimento por nos ter dado o seu Santo Espírito e a vida da graça, que vale mais do que todas as vidas do mundo;
3º  Para oferecer a Deus a satisfação mais plena que lhe possamos oferecer pelos nossos pecados, oferecendo-lhe a nossa morte unida à de Jesus Cristo;
4º  Para atrair sobre nós as maiores misericórdias de Deus pela submissão plena à morte e pelo contínuo sacrifício que lhe fizermos da nossa vida. (Salmo LXII, 4).
Porque embora a nossa vida valha pouco e seja pouco digna de ser oferecida a Deus em sacrifício, manchada como esta por tantos pecados, no entanto é a coisa mais importante que temos para oferecer a Deus; e Deus é muito bom para receber este resto de pecado como um sacrifício de agradável odor. Um número infinito de mártires de todas as idades, sexo, e países, tem corrido para a morte com alegria, considerando com a maior honra poderem sacrificar-se a Deus entre os mais horríveis tormentos.
A vida pagã e desregrada que até então alguns tinham tido não resfriava o seu ardor, porque esperavam, pela morte reparar o passado. "Porque, diz São Jerônimo os não imitaremos nós em alguma coisa? Não somos, como eles, discípulos e membros dum Deus morto para a nossa salvação e destinados ao mesmo reino dos céus? É verdade que não teremos com eles a felicidade de oferecer a Deus uma morte sangrenta; mas porque não supriremos a isso pela oblação contínua que lhe fizermos do gênero de morte que nos destinava? Porque me atrevo a dizê-lo acrescenta este Padre, que há tanto ou mais mérito em que lhe oferecermos a vida em todos os momentos em que no-la conserva do que em a perder uma só vez pela crueldade dos carrascos. Este sacrifício que fazemos a Deus de nossa vida , se é bem  sincero, é o maior ato de amor que podemos fazer".
"Se os anjos, diz Santo Agostinho, pudessem invejar aos homens algumas vantagens, seria o não poderem morrer por amor para com Deus".
Pedimos todos os dias a Deus que chegue o seu reino. Este reino de Deus não se estabelecerá perfeitamente em nós senão pela morte, que será para um de nós o fim do pecado, da destruição da concupiscência e o princípio do reinado perfeito da justiça e da caridade. Pedir todos os dias a Deus que chegue o seu reino e temer a morte são coisas que se podem aliar? O desejo do reino de Deus e da vida eterna é essencial à salvação.
"Não basta, diz Santo Agostinho, crer pela fé nesta vida bem aventurada, amá-la pela caridade e desejar estar já nesta morada celeste; é impossível ter esta disposição no coração sem se alegrar por sair desta vida".
A frente desta divina oração, onde pedimos a Deus a vinda do seu reino, ordena-nos que digamos: "Padre nosso, que estais no céu". Se cremos sinceramente que Deus é nosso Pai e que nós somos seus filhos, como poderemos temer juntarmo-nos com o nosso Pai celeste; para reinar com Ele, para gozar de todos os seus bens e repousarmos para sempre no seu seio?
Perguntavam a Santo Ambrósio ao morrer se o não tinha aterrado o temor dos juízos de Deus. Ele respondeu: "Nós temos um bom senhor". É o que convém que nós respondamos. Temos necessidades de morrer com uma certeza impenetrável, não só dos juízos de Deus a nosso respeito, mas ainda das nossas disposições. "É preciso, diz Santo Agostinho, que nos reduzamos a não poder apresentar a Deus senão a nossa miséria e a sua misericórdia". A nossa miséria é objeto próprio da misericórdia e esta misericórdia é o nosso único título.
A escritura representa a todos os fiéis como pessoas que esperam a última vinda de Jesus Cristo, que amam esta vinda e que a apressam tanto quanto, podem, pelos seus desejos e gemidos. Para que somos nós cristãos? Para que nos convertemos a Deus? "É diz São Paulo, para servir a Deus vivo e verdadeiro e para esperar do céu a seu Filho Jesus, que ressuscitou e nos livrou da cólera futura". A quem dará o Senhor, como justo juiz, a coroa da justiça no grande dia? O mesmo Apóstolo responde que será aos que amam a sua vinda.
Já que a terra e tudo o que ela contém deve ser consumido pelo fogo que precederá a vinda do grande juiz, que deveis vós ser diz São Pedro a todos os fiéis, e qual deve ser a santidade da vossa vida, a piedade das vossas orações, esperando e como apressando por vossos desejos a vinda do dia do Senhor? Jesus Cristo depois de ter feito uma descrição dos sinais espantosos que precederão a sua vinda, depois de dizer que os homens secarão de temor à espera dos males com que estiver ameaçado o mundo dos ímpios, dirige em seguida a todos os discípulos presentes e a todos os que os deviam seguir no decurso dos séculos estas palavras de consolação e alegria: "Quanto a vós, disse Ele, quando começar a acontecer isto olhai para o céu e levantai a cabeça, porque a vossa redenção perfeita está próxima... Quando virdes acontecer isto, sabei que o reino e o reinado de Deus estão próximos".
Estas grandes máximas, que os Apóstolos de Jesus Cristo nos ensinam, concordam perfeitamente com o desejo ardente da morte; mas concordam com o temor excessivo da morte? Não tememos desonrar estas grandes verdades pela oposição que surge entre as disposições que exigem e as que nós temos? "Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, dividirá o seu reino entre todos os que tiverem desejado sinceramente que chegue o seu reinado". Ele dará diz o Apóstolo, a coroa da justiça aos que amam a sua vinda. Porque não desejaremos nós que Ele venha, pois que é o meio seguro de reinar com Ele?
Há muitas pessoas que se afligem com a morte, pela lembrança dos seus crimes, e vendo que não tem feito penitência, são tentadas pelo desespero. Oh! se eu tivesse jejuado! oh! se eu tivesse dado grandes esmolas aos pobres! Ah! já não estou em estado de o fazer. Que me sucederá? Para onde irei? Podeis fazer coisa muito melhor do que isto; é aceitar a morte e uni-lá a de Jesus Cristo. Não há mortificação semelhante a esta; é a maior de todas as pobrezas; é a mais terrível de todas as penitências; e não duvido que o que esta pesaroso por ter ofendido a Deus e aceite voluntariamente a morte em satisfação dos seus pecados, obtenha logo o perdão.
Que consolação poder fazer a hora da morte uma penitência maior de que todos os anacoretas no deserto e isto em um tempo em que já não estamos em estado de não fazer nada? Que dor é ver uma infinidade de pessoas privarem-se do fruto da morte, que é de todas as penas do que tem maior mérito. Ut quid perditio hoec? Porque se há de perder uma ocasião tão propícia para honrar a Deus, satisfazer a justiça, pagar as suas dívidas e merecer o céu.
Confesso que a nossa vida nada vale comparando a de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas quando ela é oferecida com amor, é de um preço inestimável. Que é para Deus uma esmola de um real? No entanto aquela pobre mulher que a deu, diz o Evangelho, mereceu ser louvada pelo filho de Deus e ser preferida aos escribas e fariseus que tinham dado esmolas muito mais avultadas; tanto, diz Jesus, que ela dava tudo o que tinha, e dava com o maior gosto, na sua indigência. Haec de pecunia sua omnia quae habuit, misit totum victum suum. Pode-se dizer o mesmo daquele que entregar a sua vida a Deus: dá tudo, sem nada para si reservar, e é isto o que torna a sua morte preciosa. É isto que fazia correr com tanta alegria os cristãos para o martírio; queriam dar a Nosso Senhor a vida que dele tinham recebido e compensar pela sua morte a que Ele tinha sofrido por seu amor.
Não podemos ser mártires: oh! que aflição! mas podemos no entanto morrer por Jesus Cristo. Temos uma vida que podemos sacrificar por seu amor: oh! que consolação!
A diferença que Santo Agostinho faz entre os perfeitos e imperfeitos, é que os perfeitos sofrem a vida com pena e recebem a morte com alegria, e os imperfeitos sofrem, a morte com paciência, combatem contra si próprios para se submeterem à vontade de Deus e estimam mais submeter-se ao que dele ordenou, armando-se com a força de paciência para vencerem o desejo da vida, e receberem a morte com submissão e paz.
A perfeição consiste pois em desejar morrer para não ser mais imperfeito, para cessar inteiramente de pecar, para que Deus reine inteiramente em nós, e que este corpo de pecado que levamos até a morte seja, em castigo de suas contínuas revoltas contra Deus, reduzindo a cinzas para satisfazer plenamente à sua justiça e santidade e reparar todas as injúrias que comete contra sua Majestade, por esta última, mais profunda e mais longa humilhação. Sobe-se a perfeição ao passo que estes desejos da morte se tornam mais sinceros e ardentes, e o meio mais breve para nos tornarmos perfeitos, é desejar a morte de todo coração.
As preparações que devíamos levar para este último sacrifício não devem levar-nos a desejar que na hora do sacrifício seja deferida, quando chega a própria de o consumar. Estas preparações são menos necessárias do que a nossa submissão a vontade de Deus. A nossa submissão pode suprir estas preparações, mas nada pode suprir a nossa submissão; é isto o que as almas ainda mais imperfeitas, não devem esquecer.
É mais útil e seguro para nós comparecermos diante de Jesus, quando Ele anuncia a sua vinda, do que expor-nos a chegar tarde, crendo estarmos mais preparados para o receber. A preparação essencial que nenhuma outra pode suprir, é apresentarmo-nos ante Ele com confiança e amor; basta então só excitá-los e animá-los. É  mesmo um grande assunto de humilhação e confusão para nós não sentirmos um santo ardor e uma santa impaciência em o vermos. Felizes, diz São Crisóstomo, se suspiramos e gememos continuamente, esperando o complemento da nossa divina adoção, que será a redenção e libertação de nossos corpos e almas, o desejo de sair deste mundo com tanto ardor e impaciência como os desterrados e cativos desejam o fim de seu exílio. (Chris. Hom. XVII in Gen. et alib). Estas impaciências, acrescenta o Santo Doutor, que testemunharmos a Deus, contribuíra bastante para nos obter o perdão dos pecados e será a melhor das disposições para comparecermos ante Ele.
"Porque desejamos nós tão ansiosamente a nossa vida, diz São Bernardo, que quanto mais vivemos mais pecamos e só se aumenta o número dos nossos dias para se aumentar as nossas faltas?  Quanto a mim acrescenta o humilde Doutor, tenho vergonha de viver, porque pouco aproveito; temo morrer, porque não estou preparado. Mas apesar de tudo, antes quero morrer e entregar-me à misericórdia de Deus, que é infinitamente bom, do que ser um objeto de escândalo para o meu próximo pelo mau exemplo da minha vida".
Procurai compenetrar-vos bem destes pensamentos tão consoladores, para que vos disponhais melhor a aceitar a morte, sem terdes temores excessivos tão perigosos neste momento decisivo para a salvação.
Já demonstramos que ninguém por mais santa que tenha sido a sua vida, se deve exaltar com a sua virtude, se Deus as examinasse sem misericórdia. É a confiança nesta misericórdia e nos méritos de Jesus Cristo que produz a segurança de todos. Já que é preciso voltar a este ponto, nos entregamos desde já por toda a vida e morte. Tenhamos por verdade certa que quanto mais completamente nos abandonarmos mais justos seremos e o nosso sacrifício será mais agradável a Deus.


Nenhum comentário:

Postar um comentário