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23 de julho de 2014

Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales.

5/5  -  É preciso entregar-mo-nos à Deus na vida e na morte.

Entre os louvores que os santos dão a Abraão, São Paulo eleva acima de todos os outros, este:" que ele creu, esperando contra toda a esperança". Deus tinha-lhe prometido multiplicar a sua posteridade como as estrelas do céu e as areias do mar e no entanto recebeu ordem de sacrificar o seu único filho. Abraão não perdeu por isto a esperança, e creu que obedecendo, não deixaria de manter a sua promessa.
Grande, com certeza, foi a sua esperança; porque nada via em que a apoiasse senão a palavra de Deus.
Oh! como é um alicerce forte e sólido esta palavra de Deus! oh! como é um alicerce forte e sólido esta palavra, visto ser infalível!
Abraão vai pois cumprir a ordem de Deus com simplicidade nunca vista; porque não considerou nem replicou como quando Deus lhe ordenou que saísse da sua terra e dentre os seus parentes. Caminhando três dias e três noites com seu filho, sem saber precisamente para onde ia, levando a lenha para o sacrifício, seu filho lhe perguntou onde estava o holocausto, ao que respondeu Abraão: "Meu filho o Senhor proverá a isso".
Oh! Meu Deus! como seríamos felizes se nos acostumássemos a dar esta resposta aos nossos corações, quando se afligem por qualquer coisa: Nosso Senhor proverá; e depois disso não tivéssemos mais ansiedade e perturbação que Isaac! porque se calou logo, crendo que o Senhor proveria a isso como seu pai lhe tinha afirmado.
Grande é com certeza a confiança que Deus nos pede que tenhamos no seu cuidado paternal e da sua divina Providência; mas porque razão a não teremos nós visto que ninguém pode ser enganado e que ninguém confia em Deus sem tirar os frutos desta confiança?
Considerai que o Nosso Senhor disse aos seus apóstolos para estabelecer com eles esta santa e amorosa confiança: "Quando eu vos enviei ao mundo, sem dinheiro e sem provisão alguma, faltou-vos alguma coisa?" E eles disseram: Não." Ide lhes disse Ele, e não vos inquieteis nem do que comereis, nem mesmo do que bebereis, nem com o que vos cobrireis, e nem do que direis perante os magistrados; porque em todas as ocasiões meu Pai que esta no céu vos dará tudo o que é necessário e ensinar-vos-á o que haveis de dizer".
Mas eu sou tão pouco espiritual, me dirá alguém: não posso tratar com os grandes e não tenho ciência. É o mesmo: Ide e confiai em Deus, porque Ele disse: "Embora uma mãe se esqueça de seu filho, eu não vos esquecerei; porque vos tenho gravado no coração e nas mãos".
Pensais que aquele tem cuidado em provar ao alimento das aves do céu e dos animais da terra, que não semeiam nem recolhem, não proverá de tudo o que é necessário aquele que confiar plenamente na sua Providência? Ele que esta unido a Deus, que é o sumo bem?
Convém saber que abandonar a sua alma e entregar-se a si próprio nada mais é do que deixar a própria vontade para a entregar a Deus: porque de nada serviria renunciarmos a nós mesmos se não fosse para nos unirmos à divina bondade: fazer outra coisa, seria parecer-nos com esses filósofos que abandonaram tudo e a si mesmo para se entregarem a vãs pretensões e ao estudo da filosofia. Sirva de exemplo Epíteto, que sendo escravo, e querendo libertá-lo o seu Senhor por causa da sua grande sabedoria, não quis a liberdade por uma das maiores renúncias, e ficou na escravidão, com uma tal pobreza que depois de morrer só lhe encontraram uma lâmpada, que foi vendida muito cara por ter pertencido a um tal homem. Quanto a nós não queiramos deixar-nos senão para nos entregar-nos à mercê da vontade de Deus. Há muitos que dizem a Nosso Senhor: Entrego-me a vós sem reserva; mas há poucos que pratiquem este abandono, que é uma perfeita submissão em receber toda a sorte de acontecimentos, logo que seja por ordem da Providência de Deus, seja aflição ou consolação, doença ou saúde, pobreza ou riqueza, desprezo ou honra, opróbrio ou glória.
Isto entendo eu relativamente à parte superior do nosso ser; porque quanto à parte inferior, ninguém dúvida que ela e a inclinação natural tendem antes para o lugar da honra do que do desprezo; das riquezas do que da pobreza; embora ninguém ignore que o desprezo e a pobreza são mais agradáveis a Deus do que a honra e a abundância,
Vivamos, enquanto agradar a Deus, neste vale de misérias com uma inteira submissão à sua vontade. Noutro dia me recordava do que dizem os autores a respeito do alcião, ave pequena, que põe na margem do rio. Estas aves fazem ninho tão redondos e apertados, que as águas do mar não podem penetrar, e somente em cima deixam um orifício por onde podem respirar; dentro alojam os filhinhos, para que, se o mar os surpreender possam nadar com segurança e flutuar sobre as águas sem se encherem nem submergirem; e o ar que entra por esse pequeno orifício serve de contrapeso e é balanço por tal forma a estas barquinhas, que nunca se viram.
Oh! como eu desejo que os nossos corações estejam calafetados por toda a parte, para que, se a tempestade e as tormentas do mundo os agitarem, lhes não penetrem, e que só haja uma abertura para o céu, para respirarmos e aspirarmos ao nosso Salvador! E por quem será feito este ninho? Pelos filhinhos d'Aquele que o fez por amor de Deus, por afetos divinos e celestes. Mas, enquanto os alciões fabricamos seus ninhos e os seus filhinhos ainda estão tenros para suportar o embate das vagas, ah! Deus terá disso cuidado e usará de compaixão, impedindo que o mar entre neles e os leve.
Oh! Deus! eis a vossa bondade soberana, que manterá o ninho dos nossos corações, pelo seu santo amor contra os assaltos do mundo, e garantirá que eles sejam vencidos. Ah! como eu amo essas aves que estão carcadas pelo mar, e não vivem senão dar e só vêem o céu?
Nadam como peixes e cantam como aves; e o que mais me agrada é que a âncora é lançada da parte superior e não da inferior, para os garantir contra as vagas.
Queria o doce Jesus tornar-nos assim de maneira que, cercados pelo mundo e pela carne, vivamos do espírito; que, entre as vaidades da terra, contemplemos sempre o céu que, vivendo entre os homens, o louvemos com os anjos, e que o fundamento das nossas esperanças esteja sempre no paraíso; que em tudo por tudo o amor santo seja o nosso grande amor. Ah! mas quando será que nos consumirá e quando consumirá a nossa vida para fazer morrer a nós mesmos o fazer-nos reviver para o nosso Salvador? A ele só sejam dados glória, honra e louvor. Já que o nosso propósito inviolável tende incessantemente para o amor de Deus, nunca serão fora de propósito as palavras do amor de Deus.
Nada mais vos direi, nem sobre grande o abandono de tudo e de nós mesmos a Deus, nem sobre a saída do nosso país e da casa de nossos pais. Não, não quero falar. Queira Deus esclarecer-nos e mostrar-nos o seu gosto; porque embora perigue tudo o que há em nós, segui-lo-e-mo para toda parte onde nos conduza.
Oh! como é bom estar com Ele seja em que lugar for! Eu penso na alma do bom ladrão. Nosso Senhor tinha-lhe dito que naquele dia estaria com Ele no paraíso e apenas a sua alma se apartou do corpo, eis que o conduz ao inferno. Sim, porque devia estar com Nosso Senhor, e Nosso Senhor desceu aos infernos; foi pois aí com Ele. Deus verdadeiro! que pensaria ele ao descer e vendo esses abismos com a sua vista interior? Creio que diria em Jó: "Quem me fará a graça, Meu Deus, que me defendeis e conserveis no inferno?" e com Daví: "Não, nenhum mal temerei, porque Senhor, Vós estais comigo". Não, enquanto estão vivas as nossas resoluções, nada nos perturba. Quando morrermos, volte-se tudo, isso pouco me importa contando que isto subsista.
As noites são dias, quando Deus permanece em nosso coração, e os dias são noites quando Ele lá não esta.

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