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17 de julho de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

2/5  -  Da morte cheia de doçura dos predestinados.

Deus, tendo chamado a si os seus servos e tomado sob sua proteção a sua salvação, não os deixa sem os conduzir ao céu; e tendo recebido grandes serviços dos seus santos, para os dispor melhor, para o declinar de seus dias, dá-lhes ordinariamente parcelas de felicidade da vida futura, para os fazer desejar porções inteiras, que estão no paraíso e desgostá-los das coisas terrenas, banindo dos seus corações todos os outros desejos; de tal forma que, sendo que neste mundo não podem entoar nem ouvir os divinos louvores à sua vontade, entram em desejos enormes de se libertarem dos laços desta vida para irem para a outra, onde se ama a Deus perfeita e soberanamente; e estes desejos, apoderando-se do coração, tornam-se tão poderosos e fortes no peito destes sagrados amantes, que tornam as suas almas lânguidas e enfermas de amor, até que esta paixão se adiante tanto que morram felizmente.
Assim o glorioso e seráfico São Francisco, tendo trabalhado neste afeto de louvar a Deus, nos seus derradeiros anos, depois que recebeu a certeza, por uma revelação especial, da sua salvação eterna, não podia conter a alegria, e os seus ardentes desejos tornando-se maiores cada dia, saiu enfim sua alma do corpo por um rapto que fez para o céu, pronunciando estas palavras sagradas:"Ah! tirai a minha alma desta prisão, oh! Senhor, para que eu bendiga o vosso santo nome; os justos esperam-me até que me concedais a tranquilidade desejada". Outro tanto se pode dizer de todo os santos, cuja morte é preciosa, embora suceda por modo diverso segundo a Providência de Deus; porque o seu espírito, como um rouxinol celeste, fechado na gaiola por seu corpo, no qual pode cantar à vontade as bençãos divinas, sabe que gorjeará e voará melhor se estiver ao ar livre podendo gozar a liberdade e da sociedade das outras Filomenas, entre as alegres e verdejantes colinas desse lugar ditoso; eis porque, livre do seu corpo, retirado desta prisão mortal, livre desta escravatura, voa ao céu para se unir aos coros dos anjos e bem aventurados e com eles entoar uma doce harmonia de árias deliciosas, cantando, louvando e bendizendo para sempre a infinita misericórdia.
Deus meu! como é desejável uma morte assim! Oh! como é amável o templo para onde voa a alma dos Santos! Aí tudo retine em louvores; e que doçura para os que vivem nesse sagrado recinto, onde tantos músicos celestes e coristas divinos cantam com santa emulação os cânticos e suavidade eterna!
Logo que a alma dos santos entra no paraíso para aí ter irrevogavelmente o seu domicílio e descanso nesta casa sagrada e nestes santos e desejáveis tabernáculos. Deus dispõe-a e fortifica-a pela luz excelente da glória para a tornar capaz da vista dum objeto tão sublime e brilhante como o da divindade. Os mergulhadores, diz Plínio, que para pescarem as pedras preciosas mergulham no mar, levam azeite na boca, para que espalhando-o tenham mais luz para ver as águas onde nadam. Da mesma forma os santos, mergulhados no oceano da essência divina, Deus os esclarece neste abismo de luz inacessível, para que, pela caridade da glória, vejam a claridade da divindade.
Todos os bem aventurados estão plenamente satisfeitos e todos têm um indizível contentamento de conhecerem que depois de terem satisfeito todo o desejo do coração e preenchido a sua capacidade no gozo do bem infinito que é Deus, contudo ficam ainda nesta infinidade perfeições infinitas para contemplar, ouvir e possuir que só a divina Majestade conhece porque só Ela se compreende a si mesma.
Ah! como é belo, ver estes felizes habitantes do paraíso e verdadeiros príncipes do santo império, melhor cercados e vestidos pelo oceano da divindade do que os peixes estão cercados pelas ondas no meio do mar, do que as aves voltejantes estão cercadas pelo ar, e do que os astros fixo no azul do firmamento estão cercados pelos céus!
Oh! que felicidade estar unido a Deus mais intimamente do que a luz de cristal puro, do que o fogo ao ouro, que brilha como o sol no cadinho, do que a alma ao corpo e a graça à alma! Explique quem puder a alegria plena dos santos que nasce do gozo sem reserva do soberano bem incriado, que só se sonda pelos abismos, só se mede imensidade, não se limita senão pela infinidade, só se termina pela eternidade e só é compreendido pela própria divindade. É daí que os amigos perfeitos de Deus possuído claramente tiram um contentamento extremo, vendo-se muito superiores ao que podiam esperar, cheios de felicidade, abismados, com alegrias, inebriados com as correntes volutuosas da casa de Deus, verdadeiro lugar de reunião de todas as santas e caras delícias que o altíssimo Deus de paz e de toda a consolação faz brilhar incessantemente para regozijar os seus servos fiéis, saciando-nos o coração pleno e todavia sem enfado, com  os manjares de sua mesa dignamente real e digna desse felicíssimo, magnífico e gloriosíssimo Monarca. Deus, como um pai amoroso, agradá-lhe festejar dessa forma os seus verdadeiros filhos, legitimados pela sua graça e reconhecidos pela glória que lhes reparte; o que Ele faz duma maneira infinitamente admirável; porque do gozo nasce-lhe o desejo, e à medida que o desejo cresce, cresce também a satisfação, e esta sem enfado e aquele sem angústia, mas um e outra com perfeito prazer e contentamento.
Os que têm na boca a erva cítica não sentem fome nem sede, tanto ela os sustenta deliciosamente.
Quando a vontade goza de Deus, nEle repousa; tendo um soberano comprazer, e contudo não se cansa em continuar o movimento do seu desejo, desejando o amor ardentemente, amando o desejo infinitamente.
Os rouxinóis agradam-se tanto com o seu canto, segundo diz Plínio, que por este agrado não cessam, durante quinze dias e quinze noites, de chilrear, esforçando-se por cantarem uns melhores do que os outros, de forma que quando gorjeiam melhor, agradam-se mais e comprazem-se, e este acréscimo da complacência os leva a fazer maiores esforços, aumentado por tal forma o seu agrado pelo canto e o canto pelo agrado, que muitas vezes morrem e rebentam a garganta à força de cantar. Ó! Deus! como cantam deliciosamente as celestes bênçãos estas almas que tem o primeiro lugar no céu, e como ultrapassam o comum dos bem aventurados à proporção que os ultrapassava em méritos e santidade cá na terra.
Á medida que louvam a Deus, comprazem-se em louvar; e à medida que se comprazam em louvá-lo ainda o desejam louvar melhor; e para se contentarem não podendo desejar a Deus aumento algum, porque é infinitamente maior do que elas o podem desejar nem mesmo pensar, desejam pelo menos que o seu nome seja bendito, exaltado, louvado, honrado e adorado cada vez mais no céu e na terra por homens e anjos.
Queira Deus que assim fossemos, que todas as faculdades da nossa alma fossem outras tantas turbas sagradas para entoar os cânticos e os louvores de Deus e que uma sólida devoção fosse a língua do nosso coração, pelo qual imitando os santos, recebêssemos o orvalho das perfeições divinas, absorvendo-as e atribuindo-as a nós como alimento pelo santo prazer que nelas tivéssemos, entoando por esta língua de devoção todas as orações de salmodia e bênção, cantando com o Profeta:
"Oh! alma minha, impelida suavemente para o céu, não tenhas nenhum pensamento nem nenhuma força interior que não mostre o valor de Deus".






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