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15 de julho de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 26ª Parte

CAPÍTULO V

Jesus ora no horto e sua sangue

“E tendo dito o hino, saíram para o monte das Oliveiras... Então Jesus foi com eles a uma granja chamada Getsêmani” (Mt 26,30). Tendo feito a ação de graças depois da ceia, Jesus deixa o cenáculo com seus discípulos, entra no horto de Getsêmani e se põe a orar; mal, porém, começa a orar assaltam-no ao mesmo tempo um grande temor, um grande tédio e uma grande tristeza, diz S. Marcos (14,33). E S. Mateus ajunta: “Começou a entristecer-se e ficar angustiado”. Oprimido por essa tristeza, nosso Redentor diz que sua alma está aflita até a morte (Mc 14,34). Passou-lhe então diante dos olhos toda a cena funesta dos tormentos e dos opróbrios que lhe estavam preparados. Esses tormentos o oprimiram durante sua paixão cada um por sua vez, sucessivamente, mas aqui no horto todos juntos e ao mesmo tempo o afligiram, as bofetadas, os escarros, os flagelos, os espinhos, os cravos e os vitupérios que teria de sofrer depois. Jesus os abraça todos juntos, mas, aceitando-os, sua natureza treme, agoniza e ora: “Estando em agonia, orava com mais instância” (Lc 22,43). Mas, ó meu Jesus, quem vos obriga a sofrer tantas penas? É o amor que tenho aos homens, responde Jesus. Oh! como o céu terá pasmado vendo a fortaleza tornar-se fraca, a alegria do paraíso se entristecer. Um Deus aflito! E por quê? Para salvar os homens, suas criaturas. Naquele horto se consumou o primeiro sacrifício: Jesus foi a vítima, o amor foi o sacerdote e o ardor de seu afeto para com os homens foi o fogo bem-aventurado que consumia o sacrifício.

“Meu Pai, se for possível, passe de mim este cálice” (Mt 26,39). Assim suplica Jesus. Ele, porém, assim suplica não tanto para ver-se livre como para nos fazer compreender a pena que sofre e aceita por nosso amor. Suplica também assim para nos ensinar que nas tribulações podemos pedir a Deus que nos livre delas, mas, ao mesmo tempo, devemos em tudo nos confortar com sua divina vontade e dizer como ele: “Contudo não se faça o que eu quero, mas como vós quereis” (Mt 26,39). Sim, meu Senhor, eu abraço por vosso amor todas as cruzes que quiserdes enviar-me. Vós inocentemente tanto sofrestes por meu amor e eu, pecador, depois de haver merecido tantas vezes o inferno, recusarei sofrer para vos comprazer e alcançar de vós o perdão e a vossa graça? Não seja feita a minha vontade, mas a vossa.

“Prostrou-se em terra” (Mc 14,35). Jesus naquela oração prostrou-se com a face na terra, porque, vendo-se coberto com a veste sórdida de todos os nossos pecados, se envergonhara de levantar o rosto para o céu. Meu caro Redentor, não teria coragem de pedir-vos perdão de tantas injúrias que vos fiz, se os vossos sofrimentos e méritos não me dessem confiança. Padre eterno, olhai para a face de vosso Cristo; não olheis as minhas iniqüidades, olhai esse vosso Filho querido, que treme, que agoniza, que sua sangue para obter-me de vós o perdão. “E seu suor se fez como gotas de sangue correndo sobre a terra” (Lc 22,44). Contemplai-o e tende piedade de mim. Mas, ó meu Jesus, nesse jardim não existem carnífices que vos flagelem, nem espinhos, nem cravos: e que vos faz derramar tanto sangue? ah, eu compreendo, não foi tanto a previsão dos sofrimentos iminentes que então vos afligiu, pois já vos havíeis oferecido para sofrer essas penas: Foi oferecido porque ele mesmo o quis (Is 53,7), mas foi a vista de meus pecados: eles foram a prensa cruel que espremeu o sangue de vossas sagradas veias. Não foram tão cruéis os carrascos, não foram tão atrozes os flagelos, os espinhos, a cruz, como o foram os meus pecados, ó meu doce Salvador, que tanto vos afligiram no horto.

Achando-vos num estado de grande aflição, eu ainda me prestei a atormentar-vos e muito com o peso de minhas culpas. Se eu tivesse pecado menos, vós teríeis padecido menos. Eis aí a paga que eu vos dei por vosso amor, que quis morrer por mim, ajuntando penas às vossas penas. Meu amado Senhor, eu me arrependo de vos haver ofendido; pesa-me disso, mas esta minha dor é mui pequena. Desejaria uma dor que me tirasse a vida. Eia, pois, por aquela agonia tão amarga que sofrestes no horto, fazei-me participar da aversão que tivestes dos meus pecados. E se então eu vos afligi com as minhas ingratidões, fazei que agora eu vos amo de todo o meu coração, eu vos amo mais do que a mim mesmo e por vosso amor renuncio a todos os prazeres e bens da terra.Vós só sois e sereis sempre o meu único bem, meu único amor.

CAPÍTULO VI

Jesus é preso e amarrado

“Levantai-vos, vamos: eis que já está perto quem me há de trair” (Mc 14,42). Sabendo o Redentor que Judas juntamente com os judeus e soldados que o vinham prender já estavam perto, levanta-se ainda banhado no suor da morte, e com o rosto pálido mas com o coração tão inflamado em amor, vai ao seu encontro para entregar-se em suas mãos, e, vendo-os reunidos, pergunta-lhes: “A quem buscais?” Imagina, minha alma, que Jesus te pergunta do mesmo modo: Dize-me, a quem buscas? Ah, meu Senhor, a quem eu procuro senão a vós, que viestes do céu à terra em busca de mim, para que me não perdesse?

“Prenderam a Jesus e o ligaram” (Jo 18,13). Ó céus, um Deus amarrado! Que diríamos, se víssemos um rei preso e acorrentado por seus criados! E que devemos dizer então, vendo um Deus entregue às mãos da gentalha? Ó cordas felizes, vós que ligastes o meu Redentor, prendei-me também a ele, mas prendei-me de tal modo que eu não possa separar-me mais de seu amor; prendei o meu coração à sua vontade santíssima, para que de agora em diante não queira nada mais senão o que ele quer.

Contempla, minha alma, como uns lhe põe as mãos, outros o ligam, estes o injuriam, aqueles o batem, e o Cordeiro inocente se deixa atar e esbofetear à vontade deles. Não procura fugir de suas mãos, não pede auxílio, não se queixa de tantas injúrias, não pergunta por que o maltratam assim. Eis realizada a profecia de Isaías: “Foi oferecido porque ele o quis e não abriu sua boca, como uma ovelha será conduzido ao matadouro” (Is 53,7). Não fala e não se lamenta, porque ele mesmo já se oferecera à justiça para satisfazer e morrer por nós e assim deixou-se conduzir à morte qual ovelha, sem abrir a boca.

Olha como, preso e circundado por aquele populacho, é arrastado do horto e conduzido às pressas aos pontífices na cidade. E onde estão seus discípulos? que fazem? Se, não podendo livrá-lo das mãos de seus inimigos, ao menos o acompanhassem para defender sua inocência diante dos juízes, ou então para consolá-lo com sua presença! Mas não. O evangelho diz: “Então seus discípulos, abandonando-o, fugiram todos” (Mc 14,50). Que dor não sentiu então Jesus, vendo-se abandonado e deixado até por aqueles que lhe eram caros! Jesus viu então todas as almas que, mais favorecidas por ele, deveriam depois abandoná-lo e voltar-se ingratamente as costas. Ah, meu Senhor, minha alma foi uma dessas infelizes que, depois de tantas graças, luzes e convites recebidos de vós, esqueceram-se ingratamente de vós e vos abandonaram. Recebei-me, por piedade, agora que arrependido e contrito a vós me volto para não vos deixar mais, ó tesouro, ó vida, ó amor de minha alma.

CAPÍTULO VII

Jesus é apresentado aos pontífices e por eles condenado à morte

“Eles, apoderando-se de Jesus, o conduziram a Caifás, príncipe dos sacerdotes, onde os escribas e anciãos se haviam congregado” (Mt 26,57). Amarrado como um malfeitor, entra em Jerusalém nosso Salvador, onde poucos dias antes entrara aclamado com tantas honras e louvores. Atravessa ele de noite a estrada, entre lanternas e tochas, e tão grande era o rumor e o tumulto, que fazia crer que se conduzia preso algum famoso malfeitor. Chegam-se pessoas à janela e perguntam quem é o prisioneiro. E a resposta é: Jesus Nazareno, que se descobriu ser um sedutor, um impostor e falso profeta, merecedor da morte. Quais foram então os sentimentos de desprezo e desdém de todo o povo, vendo Jesus Cristo, que ele acolhera como o Messias, aprisionando por ordem dos juízes como impostor. OH! como se transformou em ódio a veneração de cada um que se arrependia de o haver homenageado, envergonhando-se de ter tomado pelo Messias a um malfeitor.

Eis como o Redentor é apresentado quase em triunfo a Caifás, que sem dormir o espera, e, vendo-o na sua presença, só e abandonado de todos os seus, sumamente se alegra. Contempla, minha alma, teu doce Salvador, coo se mostra todo humilde e manso diante daquele soberbo pontífice, estando amarrado como um criminoso e com os olhos baixos. Contempla aquela bela face, que no meio de tantos desprezos e injúrias não perdeu sua natural serenidade e doçura. Ah, meu Jesus, agora que vos vejo cercado, não de anjos que vos louvam, mas dessa plebe vil que vos odeia e despreza, que farei? continuarei talvez a desprezar-vos como foi no passado? Ah, não. Na vida que me resta quero estimar-vos e amar-vos como mereceis e vos prometo não amar ninguém fora de vós. Vós sereis meu único amor, meu bem, meu tudo. Meu Deus e meu tudo.

O ímpio pontífice interroga Jesus sobre seus discípulos e sobre sua doutrina, para descobrir um motivo para condená-lo. Jesus humildemente lhe responde: “Eu lhe falei publicamente ao mundo... Pergunta àqueles que ouviram o que eu lhes disse: Ei-los aí, eles sabem o que eu ensinei” (Jo 18,20-21). Eu não falei em segredo, falei em público: os que estão ao redor de mim podem atestar o que eu disse: Aduz por testemunhas seus próprios inimigos. Mas, depois de uma resposta tão acertada e tão mansa, se precipita do meio daquela chusma um algoz mais insolente, que, tratando-o de temerário, lhe dá uma forte bofetada, dizendo: “É assim que respondes ao pontífice?” (Jo 18,22). Ó Deus, então uma resposta tão humilde e modesta merecia uma afronta tão grande? O indigno pontífice o vê, mas em vez de repreender aquele carrasco, cala-se e com seu silêncio bem aprova o que ele fizera. Jesus, diante de tal injúria, para isentar-se da culpa de falta de respeito ao pontífice, diz: “Se falei mal, dá testemunho do mal, mas se falei bem, por que me bates?” (Jo 18,23). Ah, meu amável Redentor, vós sofreis tudo para pagar as afrontas que eu fiz à divina majestade com os meus pecados. Ah, perdoai-me, pelo merecimento desses mesmos ultrajes que por mim sofrestes. “Procuravam um falso testemunho contra Jesus, para o condenarem à morte: mas não achavam” (Mt 26,59). Buscam um testemunho para condenar a Jesus e, não o encontrando, o pontífice busca novamente nas palavras de nosso Salvador um motivo para declará-lo réu e por isso diz-lhe: “Eu te conjuro por Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, Filho de Deus” (Mt 26,63). O Senhor, vendo-se instado em nome de Deus, confessa a verdade e responde : “Eu o sou, e vereis o Filho do homem sentado à destra do poder de Deus e vindo sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62). Eu o sou, e um dia me vereis, não assim desprezível como agora vos pareço, mas num trono de majestade, sentado como juiz de todos os homens, sobre as nuvens do céu. Ao ouvir isso, o pontífice, em vez de lançar-se com o rosto em terra para adorar seu Deus e seu juiz, rasga suas vestes e exclama: “Blasfemou, que necessidade temos ainda de testemunhas? eis aí acabais de ouvir a blasfêmia! Que vos parece?” (Mt 26,65-66). Responderam todos os sacerdotes que sem dúvida alguma era digno de morte: “E eles em resposta disseram: É réu de morte” (Mt 26,66). Ah, meu Jesus, a mesma sentença proferiu vosso eterno Pai, quando vos oferecestes para pagar por nossos pecados: desde que meu Filho quer satisfazer pelos homens, é réu de morte e deve morrer. Então lhe cuspiram no rosto e lhe deram bofetadas, outros lhe descarregara as mãos na face, dizendo: Adivinha-nos, ó Cristo, quem foi que te bateu?” (Mt 26,67-68). Puseram-se todos a maltratá-lo como a um malfeitor já condenado à morte e digno de todos os vitupérios: este lhe escarra no rosto, aquele lhe dá punhadas, mais um outro lhe dá bofetadas e, cobrindo-lhe o rosto com um pano, como acrescenta

S. Marcos (13,65), o escarnecem como falso profeta e dizem-lhe: Pois que és profeta, adivinha lá quem agora te bate. S. Jerônimo escreve que foram tantos os ludíbrios e as irrisões a que sujeitaram o Senhor naquela noite, que somente no dia de juízo serão todos eles conhecidos. Portanto, ó meu Jesus, não repousastes naquela noite, mas fostes o objeto da mofa e meus traços daquela gentalha. Ó homens, como podeis contemplar um Deus tão humilhado e ser soberbos? como podeis ver vosso Redentor padecer tanto por vós e não amá-lo? Ó Deus, como é possível que aquele que crê e considera as dores e ignomínias (mesmo só as narradas nos santos evangelhos) sofridas por Jesus por nosso amor, possa viver sem se abrasar em amor por um Deus tão benigno e tão amoroso para conosco?

Aumenta a dor de Jesus o pecado de Pedro, que o renega e jura não haver conhecido. Vai, minha alma, vai àquele cárcere em busca de teu Senhor, tão aflito, escarnecido e abandonado e agradece-lhe e consola-o com teu arrependimento, já que tu durante tanto tempo também o desprezastes e renegaste. Dize-lhe que desejarias morrer de dor, pensando que no passado tanto amarguraste o seu doce coração, que tanto te amou. Dize-lhe que agora o amas e nada mais desejas senão sofrer e morrer por seu amor. Ah, meu Jesus, recordai-me dos desgostos que vos dei e olhai-me com um olhar amoroso como olhastes para Pedro, depois de vos haver renegado; o que fez que ele nunca mais deixasse de chorar o seu pecado até ao fim de sua vida.

Ó grande Filho de Deus, ó amor infinito, que padeceis por aqueles mesmos homens que vos odeiam e maltratam. Vós sois a glória do paraíso, muita honra teríeis feito aos homens se os admitísseis somente a beijar-vos os pés. Mas, ó Deus, quem vos arrastou a essa determinação tão ignominiosa de vos tornar o joguete da gente mais vil do mundo? Dizei-me, ó meu Jesus, que posso eu fazer para compensar-vos a honra que esses vos roubam com seus opróbrios? Sinto que me respondeis: Suporta os desprezos por amor de mim, como eu os suportei por ti. Sim, meu Redentor, quero obedecer-vos. Meu Jesus, desprezado por amor de mim, eu só quero e desejo ser desprezado por amor de vós, quanto vos aprouver.

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