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9 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II

O sacrifício deste Pontífice único caminha a par do Seu sacerdócio. igualmente inaugurado por Jesus desde a Incarnação.
Sabeis que em Jesus Cristo a alma. criada como a nossa, não foi contudo submetida pelo exercício das suas próprias faculdades, inteligência e vontade. ao desenvolvimento progressivo do organismo corporal : possuía. desde o primeiro momento da sua existência, a perfeição da sua própria vida. como convinha a uma alma unida à Divindade.
S. Paulo revela-nos o primeiro movimento da alma de Jesus no instante da lncarnação.
Com um rápido olhar, abrange os séculos passados ;vê, ao lado do abismo em que jaz a humanidade inteira incapaz de se libertar, a multiplicidade e a insuficiência de todos os sacrifícios da Antiga Lei, porque a criatura, por mais perfeita que seja, não pode dignamente re­parar a injúria feita, pelo pecado, ao Criador : contempla o programa de imolação que Deus exige dela para
realizar a salvação do mundo. Que momento solene para a alma de Jesus! Que momento para o gênero humano !
E que  faz  esta alma?  Por um movimento de  intenso amor. entrega-se inteiramente ao serviço da obra humano-divina, única que pode glorificar o Pai, sal­vando a humanidade - «Ó Pai, já não aceitas estas ofertas, estes sacrifícios, que não são suficientemente dignos de ti». Mas formaste-me um corpo :  Corpus autem aptasti  míhi.  E porque mo deste; Eis que eu venho. ó Pai,  cumprir a tua vontade. Exiges que te ofereça em sacrifício.. . Eis-me aqui :  Ecce venio, in
capite libri scriptum est de  me ut  faciam,  Deus, voluntatem tuam.  «Na cabeça do livro da minha vida está  escrito que devo ó Pai. fazer a Vossa vontade ; assim o quero porque Vos é agradáveI» .
Com uma vontade perfeita, Jesus Cristo aceitou todas as dores que começaram na humildade do presé­pio para só rematarem na ignomínia da Cruz. Ao entrar no mundo, Jesus Cristo logo se oferece como Vítima: o primeiro ato da Sua vida é um ato sacerdotal. Que criatura poderá avaliar o amor que encerra este ato sacerdotal de Jesus? Quem conhecerá a Sua intensidade e descreverá o Seu esplendor? Só o silêncio da adoração pode louvá-lo um pouco.
Nunca Jesus Cristo se retratou deste ato, ou retomou esta dádiva. Pelo contrário, tudo em Sua vida
será ordenado para o sacrifício da Cruz. Lede o Evangelho a esta  luz e vereis como em todos os mistérios  e estados de Jesus se encontra uma parte do sacrifício que passo a passo, conduz ao cimo do Calvário, de tal modo é inerente à Sua pessoa o carácter de Pontífice, de Me­diador e de Salvador. Só compreenderemos a verdadeira fisionomia da pessoa de Jesus, se a estudarmos constantemente em ordem à Sua missão redentora pelo sacri­fício e pela imolação de Si próprio. Por isso, quando S. Paulo diz que tudo leva «ao conhecimento do mistério de Jesus», acrescenta imediatamente: «e de Jesus crucificado» :  Non enim judicavi aliquid scire inter vos nisi Jesum Christum,  ET HUNC CRUCIFIXUM.
Vede: Jesus Cristo nasce na mais absoluta pobreza ; para escapar ao furor dum tirano, tem de refugiar-se em terra estranha ; sujeita-se na oficina de Na­zaré ao trabalho penoso e oculto ; durante a Sua vida pública não tem onde reclinar a cabeça : Vê-se perse­guido pelos fariseus, seus inimigos mortais : experimenta a fome, a sede e o cansaço. Mais ainda, deseja ardentemente consumar o Seu sacrifício:  Baptismo autem habeo baptizari,  et  quomodo  COARCTOR,  usquedum perficiatur.
Há  em Jesus, se assim se pode dizer. uma espécie de entusiasmo pelo sacrifício. Vede ainda o Evangelho, quando o nosso divino Salvador, para poupar os Após­tolos, começa a revelar-lhes, pouco a pouco, o mistério dos Seus sofrimentos. Um dia diz-lhes que é preciso ir a Jerusalém e padecer muito da parte dos  Seus  inimigos e ser condenado à morte. Então  S. Pedro,  tomando-o à parte, exclama : «Senhor, praza a Deus que isto Vos não aconteça». Mas Jesus replica imediatamente : « Re­tira-te de mim que me escandalizas, porque não tens a inteligência das coisas de Deus ; só tens pensamentos humanos». No Tabor, durante  os esplendores  da transfiguração, de que é que se trata entre o  Salvador, Moisés e Elias senão da  Sua próxima  Paixão?
Estava Jesus Cristo ansioso por dar ao Pai  a  glória que o seu sacrifício  Lhe devia  proporcionar:  Jota unum aut unus apex non praeteribit a lege, donec omnia fiant . Quer cumprir tudo até ao último jota, isto é, até ao mais pequeno pormenor. Na agonia. sente profundamente as angústias e  as dores que Lhe acabrunham a alma: «Ó Pai, exdama, se é possíveí, afasta de mim este cálix»  e no entanto só quer  cumprir  a vontade de Seu Pai: «Contudo, seja feita  a tua vontade,  e não
a minha». Enfim, no Calvário.  consuma-se a imolação : e, antes de exalar  o  derradeiro suspiro, pôde dizer que realizou plenamente o programa  traçado pelo  Pài:
Consummatum est.  Este grito final da Vítima divina sobre a cruz corresponde ao  Ecce venio  da lncarnação no seio da Virgem.

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