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11 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

O  oferecimento que Jesus Cristo fez de Si mesmo foi pleno, total, contínuo ; compreendeu, porém. diferentes atos.
Em primeiro lugar, a  adoração.
Na Santíssima Trindade, o Filho é todo de Seu Pai, atribuindo-Lhe, para assim dizer, tudo o que é. Desde que o Verbo se fez carne, a Humanidade que a Ele se uniu, foi arrastada por essa inefável corrente que leva o Filho ao Pai. Mas como a Humanidade é criada, inferior à Divindade, este movimento traduz-se nela pela adoração. E esta adoração é intensa e perfeita ; desde o instante em que a Humanidade, em Jesus Cristo, se uniu ao Verbo, abismou-se em profunda adoração, num aniquilamento de si mesma, diante da majestade divina do Verbo eterno, cujas infinitas perfeições contemplava pela visão beatífica.
Havia a  ação de graças.
É certo que de todas as graças e de todas as misericórdias que Deus pode fazer, a maior, a mais eminente, foi concedida à Humanidade de Jesus : «Deus esco-­lheu-a, predestinou-a entre todas,  prae consortibus tuis, para ser a Humanidade do Seu Filho, para a unir, numa incompreensível união, ao Seu Verbo ; é uma graça única, que ultrapassa tudo o que o espírito humano pode conceber em matéria de comunicação da Divindade com a criatura.
Por isso, a alma de Jesus, saturada, por esta união, das delícias da própria Divindade, transbordava de ações de graças. Se nós mesmos, às vezes, não sabemos como exprimir ao Pai celeste a abundância da nossa gratidão, qual não deve ter sido o reconhecimento da alma de Jesus pela graça inefável que lhe era feita,  por todos os incomparáveis privilégios que deviam  resultar da sua união com o Verbo, não somente a título pessoal, mas como chefe do corpo místico?
Há  em seguida a  expiação.
A raça da qual o Verbo toma uma humanidade para a unir a Si é uma raça pecadora e decaída ; o Verbo desposou um corpo de pecado,  in similítudinem camis peccati .
Por certo que o pecado nunca o atingiu pessoalmente:  Tentatum autem per omnia pro similitudine,
absque peccato. Ele é o Cristo, isto é, o Pontífice por excelência, o Pontífice, diz S. Paulo, «tal qual nos era necessário, para que o Seu oferecimento fosse agradável a Deus : santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus. Mas o Pai carregou sobre Ele com os pecados de todos os homens: Posuit in eo iniquitatem omnium nostrum; segundo a enérgica expressão do Apóstolo, «Jesus tornou-se pecador por nós; e, por este motivo, o oferecimento
que fez de Si mesmo ao Pai, no momento da Incarnação, comprendia a pobreza do presépio, os aniquilamentos da vida oculta, as fadigas e as lutas de vida pública, os terrores da agonia, as ignomínias da Paixão e os tormentos duma morte sanguinolenta:  Semetipsum exinanivit
formam servi accipiens ... humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crur:is. «Apesar de ser Deus, Jesus Cristo não quis valer-se da Sua igualdade com Deus ; mas humilhou-se a Si mesmo, tomando pela Incarnação a condição duma natureza criada, tornado-se semelhante aos homens : e, mostrando-se sob o aspecto dum homem, humilhou-se ainda, fazendo-se obediente até à morte da cruz».
Esta morte no Calvário era uma expiação de valor infinito, não só porque Jesus Cristo era Deus, mas também porque os Seus aniquilamentos atingiam o !imite da humilhação. «Jesus Cristo. morrendo na cruz, aceitou rornar-se para nós um como que refugo,  um  maldito»: Opprobium hominum et abjectio plebis :  e este aniquilamento extraordinário a que devia descer para  expiar o pecado desejou-o a alma de Jesus desde a sua entrada neste mundo, com tudo quanto encerrava de
humilhação, de sofrimento e de ignomínia.
Enfim. há neste oferecimento a  impetração,  isto é, a  súplica.
Nada nos diz o Evangelho acerca da oração de Jesus Cristo por nós na Incarnação, nem mesmo durante a  Sua vida pública, embora nos diga que Jesus «passava a noite  em  oração»: Erat pernoctans in oratione Dei .
S . João conservou-nos, porém,  o  texto da prece de Jesus por Seus discípulos e por nós, feita no momento de dar início à Paixão e consumar  o sacrifício ; é  a oração sacerdotal de Jesus. O Evangelho não encerra página mais bela do que esta. E como duvidar de que esta oração é o resumo e o eco final de todas as que Jesus Cristo fizera ao Pai durante a Sua vida?
«Pai. é chegada a hora : glorifica o teu Filho a fim de que o teu Filho te glorifique a ti ; porque lhe deste poder sobre , todo o homem para que comunique a todos os que lhe deste a vida eterna. Manifestei o teu nome aos homens que me confiaste... Sabem agora que tudo o que me deste vem de ti. . .  É por eles que rogo  .. .porque são teus. Pai santo, guarda-os em teu nome para que sejam um como nós ... Faço esta oração, enquanto estou no mundo. para que eles tenham em si  a  plenitude da minha alegria ... Não te peço que os  tires  do mundo, mas que os livres do mal. .. Vou oferecer-me em sacrifício por eles para que sejam verdadeiramente santificados ... Não peço somente por eles, mas  também  por todos os que, por meio da sua palavra, hão de crer em mim, para  que  todos  sejam  um assim, como tu, Pai, o és em mim  e eu em ti... Pai, quero que aqueles que me deste, aonde estou, também eles estejam comigo. para que vejam a  minha  glória ,  a glória que me deste, pois fui amado por ti antes da criação do mundo».
Que prece ! E  de que coração ela  brotou : Do coração de  Jesus. supremo Pontífice de toda a Humanidade, nosso Pontífice, no  momento  em  que se vai tornar a nossa  hóstia : Oh !  por que havemos tantas vezes de duvidar do poder de Jesus Cristo? Para quê desanimar, quando  Jesus,  verdadeiro Deus e verdadeiro homem, dirigiu tal  oração ao Pai, no  momento de O glorificar
infinitamente, imolando-se pelos  nossos pecados?
Jesus  Cristo  repetiu ainda por nós esta oração: «Pai, livra do mal  aqueles que  me  deste . . . para que tenham a  minha  alegria . . .   e  a tenham plenamente  . .  .para  gozarem da minha glória . . . e serem  um  em nós».

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