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27 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

V I I 

O ADMIRABILE COMMERCIUM !
 (Tempo do Natal) 

 A VINDA do Filho de Deus ao mundo é um acontecimento tão importante, que Deus quis prepará-lo durante séculos; ritos e sacrifícios, figuras e símbolos, tudo faz convergir para Jesus Cristo;anuncia-O pela boca dos profetas que se sucedem de geração em geração.
 Mas agora é o próprio Filho de Deus quem nos vem instruir: Multifaríam multisque modis olim Deus loquens patribus ... novissime locutus est nobis in Filio. 
Porque Jesus Cristo não nasceu somente para os judeus da Judeia que foram Seus contemporâneos; foi para todos nós, por amor de todos os homens, que desceu do céu: Propter nos et propter nostram salutem descendit de caelis. A graça que mereceu por Sua natividade, quer distribuí-la por todas as almas.
 Por essa razão, a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, apropriou-se dos anseios dos patriarcas, das aspirações dos antigos justos, dos votos do povo eleito, para os colocar em nossos lábios e com eles encher os nossos corações; quer preparar-nos para a vinda de Jesus Cristo, como se esta novidade se fosse renovar sob os nossos olhos.
 Assim, vede como, ao comemorar a vinda do seu divino Esposo ao mundo, a Igreja desenvolve o esplendor das suas pompas, como faz resplandecer o brilho das suas luzes para celebrar o nascimento do «Príncipe da Paz, do Sol de Justiça», que desponta «no meio das nossas trevas para iluminar todo o homem» que vem a este mundo; concede aos sacerdotes o privilégio, quase único no ano, de oferecer três vezes o santo sacrifício da Missa.
 Se estas festas são magníficas, são também cheias de encanto. A Igreja evoca a lembrança dos Anjos que cantam nos ares a glória do recém-nascido; dos pastores, almas simples, que vêm adorá-Lo no presépio; dos Magos que acodem do Oriente para Lhe render os seus preitos e oferecer-Lhe ricos presentes. 
E, no entanto, como toda a festa neste mundo, esta solenidade, mesmo com o prolongamento da sua oitava, é efêmera; passa. Seria para uma festa dum dia, por esplêndida que fosse, que a Igreja reclamaria de nós tão longa preparação? Certamente que não! Qual então o motivo? É porque sabe que a contemplação deste mistério contém para nossas almas uma graça especialíssima.
 Disse-vos, ao encetar estas conferências, que todo o mistério de Jesus Cristo não constitui apenas um fato histórico que se realizou no tempo, mas encerra também uma graça própria, de que se devem alimentar as nossas almas para dela viverem. 
Ora, qual é a graça intima do mistério da Natividade? Que graça é essa, para cuja recepção a Igreja tanto se esmera em nos preparar? Que fruto devemos colher da contemplação de Jesus Menino?
 A própria Igreja no-lo indica na primeira Missa, da meia-noite. Depois de ter oferecido o pão e o vinho, que dentro de alguns instantes serão transformados, pela consagração, no corpo e no sangue de Jesus Cristo, resume os seus votos nesta oração: «Dignai-Vos aceitar, Senhor, a oblação que Vos apresentamos na solenidade deste dia e fazei, por Vossa graça, que por meio desta permuta santa e sagrada, nos tornemos participantes da Divindade, à qual pelo Verbo, está unida a nossa substância humana.
 Pedimos para ter parte nessa Divindade a que está unida a nossa humanidade. Produz-se uma espécie de troca; Deus, ao incarnar, toma a nossa natureza humana; dá-nos, em paga, uma participação da Sua natureza divina.
 Este pensamento, tão conciso na Sua forma, é mais claramente expresso no mesmo lugar da segunda Missa: «Fazei, Senhor, que as nossas oferendas sejam conformes aos mistérios da Natividade que hoje cantamos, afim de que, como o Infante que acaba de nascer na natureza humana se manifesta igualmente Deus, assim esta substância terrena (que Ele a Si une) nos comunique o que n'Ele é divino». 
Tornar-nos participantes da Divindade a que foi unida a nossa humanidade na pessoa de Jesus Cristo e receber esse dom divino por esta mesma humanidade, tal é a graça ligada à celebração do mistério deste dia.
 Como vedes, é um comércio humano divino; o Menino que hoje nasce é ao mesmo tempo Deus, e a natureza humana que Deus toma de nós deve servir de instrumento para nos comunicar a Sua Divindade: Sicut homo genitus idem refulsit et Deus sic NOBIS haec terrena substantia CONFERAT quod DIVINUM est. As nossas ofertas serão «conformes aos mistérios significados pelo nascimento deste dia», se, pela contemplação da obra divina em Belém e pela recepção do Sacramento eucarístico, participarmos da vida eterna que Jesus Cristo nos quer comunicar pela Sua Humanidade. «Ó admirável comércio! cantaremos no dia da oitava. O Criador do gênero humano, revestindo um corpo e uma alma, dignou-se nascer duma Virgem e, aparecendo na terra como homem, fez-nos participar da Sua Divindade»: O admirabile commercium ! CREATOR generis humani, ANIMATUM CORPUS SUMENS, de virgine nasci dignatus est: et procedens homo sine semine, LARGITUS EST NOBIS SUAM DEITATEM. 
Demoremo-nos, pois, alguns instantes a admirar, com a Igreja, esta permuta entre a criatura e o Criador, entre o céu e a terra, permuta que constitui todo o fundo do mistério da Natividade. Consideremos os seus atos e a sua matéria; sob que forma se realiza: veremos em seguida quais os frutos que poderemos tirar dele e quais as obrigações que daí derivam para nós. 

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