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31 de março de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV 

Tal é o estado glorioso que nos espera, porque é o estado glorioso do nosso chefe Jesus, de quem somos os membros, estado admirável que a Transfiguração do Tabor nos faz entrever e propõe à nossa fé como objeto de esperança.
 Mas, perguntar-me-eis, que devemos fazer para o conseguir? Qual o caminho que havemos de seguir para atingirmos essa glória bem aventurada, de que contemplamos um revérbero na Transfiguração do nosso divino Salvador?
Há só um caminho, e é o Pai quem no-lo mostra. O Pai, que nos adota, que nos chama à celestial  herança a fim de partilharmos da Sua beatitude e participarmos um dia da plenitude da Sua vida, o próprio Pai é quem nos aponta o caminho e no-lo indica neste mesmo mistério: "Eis o meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências".
 É verdade que já ouvimos estas palavras no Batismo de Jesus; mas, na Transfiguração, o Pai acrescenta uma nova palavra que encerra todo o segredo da nossa vida: Ipsum audite - «Escutai-O" . É como se Deus, para nos fazer chegar até Ele, tudo fizesse depender de Jesus. E tal é, de fato, a economia dos desígnios divinos.
 Filho de Deus que vive sempre no seio do Pai, Jesus, o Verbo Incarnado, faz-nos conhecer os segredos divinos: lpse enarravit. Ele é a luz que ilumina todo o homem que vem a este mundo; onde brilha essa luz não há trevas; ouvi-Lo é ouvir realmente o Pai que nos chama, pois a doutrina de Jesus não é sua, mas d"Aquele que O enviou; "tudo o que nos ensina, foi o Pai que no-lo mandou revelar»: Omnia quecumque audivi a Patre meo, nota feci vobis. Ele é o único caminho que conduz ao Pai»: Nemo venit ad Patrem, nísi per me. «Outrora, Deus falou, e frequentes vezes, pela boca de Moisés e dos profetas; agora não nos fala senão por Seu Filho»: Multifariam multisque modis olim Deus loquens patribus in prophetis: novissime diebus istis locutus est nobis in Filio. 
Ora vede: para no-lo fazer compreender claramente, Moisés e Elias desaparecem, quando a voz do Pai nos manda ouvir o Filho: Et dum fieret vox (Patris), inventus est Jesus solus. Só Ele é, de futuro, o único Mediador: só Ele realiza as profecias e compendia a lei. Substitui as realidades às figuras e profecias; substitui a Lei Antiga, toda de servidão, pela Lei Nova, toda de adoção e amor. Para ser filho do Eterno Pai, para alcançar a «adoção perfeita» e gloriosa, basta-nos ouvir Jesus: Oves meae vocem meam audíunt.
 E quando é que nos fala? Fala-nos no Evangelho, fala-nos pela voz da Igreja, dos pastores; fala-nos pelos acontecimentos, pelas provações; fala-nos pelas inspirações do Seu Espírito.
 Mas, para bem O ouvir, é indispensável o silêncio; é preciso muitas vezes, como Jesus na Transfiguração, retirar-nos a um sítio ermo e solitário; seorsum. É certo que em toda a parte podemos encontrar Jesus, mesmo no tumulto das grandes cidades; mas só numa alma em paz e bem envolvida em silêncio se pode ouvir bem a sua voz; não se pode compreender bem senão «na prece e na oração» - dum oraret; é então sobretudo que se revela à alma para a atrair e transfigurar em Si. No momento da oração, imaginemos que o Pai nos mostra o Seu Filho: Hic est Filius meus dilectus. Adoremo-Lo então com profunda reverência, fé viva e amor ardente. E escutemo-Lo; «só Ele tem palavras de vida eterna»: Domine, ad quem ibimus? Verba vitae aeternae habes.
Escutemo-Lo pela Fé, pela aceitação de tudo o que nos diz: «Sim, Senhor, creio, porque Vós o dizeis: estais sempre in sinu Patris; vedes os segredos divinos no esplendor da luz eterna: cremos no que nos revelais. A fé é para nós essa lâmpada de que fala o Apóstolo, testemunha da Vossa Transfiguração, «lâmpada que brilha nas trevas para nos guiar»: Lucerna lucens in caliginoso loco.
 E é a esta luz, cercada de trevas, que vamos caminhando; e, apesar destas trevas, devemos caminhar com coragem. Escutar a Jesus não é somente ouvi-Lo com os ouvidos do corpo; ouve-se também com os ouvidos do coração. É preciso que a nossa fé seja prática, que se manifeste por obras dignas dum verdadeiro discípulo de Jesus, conformes com o espírito do Seu Evangelho. É o que S. Paulo chama «agradar a Deus"- placere Deo  termo que a Igreja repete, quando pede por nós a Deus que sejamos dignos filhos do nosso Pai celeste.
 E isto, apesar das tentações, das provações, dos sofrimentos. Não ouçamos a voz do demônio; as suas sugestões são do príncipe das trevas. Não nos deixemos arrastar pelos preceitos do mundo; as suas máximas são enganosas. Não nos deixemos seduzir pelas solicitações dos sentidos; com satisfazê-las a alma só ganha ficar perturbada.
 Só a Jesus devemos ouvir, só a Ele devemos seguir. Entregue-mo-nos a Ele pela fé, pela confiança, pelo amor, pela humildade, pela obediência, pelo abandono. Se a nossa alma se fechar aos rumores da terra, ao tumultuar das paixões e dos sentidos, o Verbo Incarnado tomará pouco a pouco posse dela; far-nos-á compreender que as mais profundas alegrias são aquelas que encontramos no Seu serviço. A alma que tiver a felicidade de ser admitida, como os Apóstolos privilegiados, na intimidade do Divino Mestre, sentirá por vezes a necessidade de exclamar como S. Pedro: Domine, bonum est nos hic esse, «Senhor, que bem se está aqui» !
 Está claro que Jesus nem sempre nos leva ao Tabor, a esse lugar onde «se está bem»; nem sempre nos dá consolações sensíveis; se no-las dá, não devemos rejeitá-las, pois nos vêm d'Ele, mas aceitá-las humildemente, embora sem as procurar e sem nos apegarmos a elas. S. Leão observa que Nosso Senhor não respondeu a Pedro, quando este Lhe propunha se levantassem tendas e se fixasse morada naquele lugar de beatitude. Não diz que tal desejo fosse condenável, mas que ainda não era chegada a hora. Enquanto estamos neste mundo, é ao Calvário que Jesus nos conduz as mais das vezes, quer dizer, pelo caminho das contradições, das provações, das tentações.
 Ora reparai. De que falava Ele na montanha com Moisés e Elias? Das Suas prerrogativas divinas, da Sua glória que deslumbrava os discípulos? Não; falava da Sua Paixão próxima, do excesso dos Seus sofrimentos que assombravam Moisés e Elias tanto como os fascinava o excesso do Seu amor. É pela cruz que Jesus Cristo nos conduz à vida; e, porque sabe que somos fracos na provação, quis mostrar-nos com a Sua Transfiguração a glória que éramos chamados a partilhar com Ele, se permanecêssemos fiéis: Coheredes autem Christi, si tamem compatimur, ut et conglorificemur. A terra não é lugar de repouso, mas sim de trabalho, de luta, de paciência. 
Sejamos fiéis a Jesus, a despeito de tudo. Ouvimos que Ele é o Filho de Deus, igual a Deus; a Sua palavra não passa; é o Verbo eterno. Ora Ele afirma que aquele que O seguir chegará à «luz da vida»: Habebit lumen vitae. Feliz da alma que O escuta, que O escuta só a Ele, que O escuta sempre, sem duvidar da Sua palavra, sem se deixar abalar pelas blasfêmias dos Seus inimigos, sem se deixar vencer pelas tentações nem abater pelas provações ! «Não sabemos, diz S. Paulo, o peso de glória que nos está reservado pelo menor sofrimento suportado, em união com Jesus Cristo». «Deus é fiel»; e, através de todas as vicissitudes por que uma alma passa, Deus leva-a infalivelmente a essa transformação, que a torna semelhante a Seu Filho.
 Assim, a nossa transfiguração em Jesus vai-se realizando pouco a pouco interiormente, até chegar o dia em que aparecerá radiante naquela sociedade de eleitos que trazem o sinal do Cordeiro e que o Cordeiro transfigura porque Lhe pertencem.
O próprio Nosso Senhor no-lo prometeu. «O mundo alegrar-se-á, dizia Ele antes de nos deixar; vós sofrereis na terra aflição e provação, assim como Eu mesmo sofri, antes de entrar na glória»: Oportuit pati Christum et ita intrare in gloriam suram. Assim tem de ser; é o caminho da minha providência; mas permanecei firmes, «tende confiança», confidite: eu estou convosco até à consumação dos séculos. Por enquanto, a vossa fé recebe-me cada dia no mistério dos meus aniquilamentos; mas, um dia, hei-de vir na plena revelação da minha glória. E vós, discípulos fiéis, entrareis na minha glória, tomareis parte na minha alegria, pois sois um comigo. Porventura não o pedi ao meu Pai no momento de saldar as contas com o meu sacrifício? " Quero, ó Pai, que, onde eu estiver, estejam também os meus discípulos, aqueles que Vós me destes; que vejam e participem da minha glória, glória que recebi de Vós antes da criação do mundo»: Pater, VOLO ut ubi sum ego et illí sint MECUM, ut videant claritatem meam quam dedisti mihi. Quanto a vós, a quem chamo meus amigos, vós a quem confiei os segredos da vida divina, conforme o Pai me ordenou; vós, que crestes e não me abandonastes, entrareis na minha alegria, vivereis da minha vida, vida plena, alegria perfeita, porque será a minha própria vida e a minha alegria pessoal que vos darei, a minha vida e alegria de Filho de Deus: Ut gaudium MEUM in vobis sit, et gaudium vestrum lMPLEATUR . 

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