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30 de março de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

Naquele momento, os discípulos de Jesus talvez não alcançassem toda a grandeza da cena, toda a profundeza do mistério de que eram testemunhas privilegiadas. Bastava que estivessem prevenidos contra o escândalo da cruz. Por isso, Jesus Cristo «proibiu-lhes que falassem daquela visão» .
Mais tarde, depois da Ressurreição, quando o Espirito Santo, no dia do Pentecostes, os confirmou na dignidade de Apóstolos, nessa altura revelaram, pela voz de Pedro, os esplendores que haviam contemplado. Pedro, o chefe da Igreja, aquele que recebera do Verbo Incarnado a missão «de confirmar os seus irmãos na fé»,  anuncia que «a majestade de Jesus lhe fora revelada, que Jesus recebera de Deus Pai honra e glória na santa montanha». E Pedro, pastor supremo, aproveita esta visão para exortar os seus fiéis, e a nós com eles, a não vacilarmos na fé.
 É que a Transfiguração operou-se também por causa de nós. Os discípulos escolhidos para testemunhas, diz S. Leão, representam toda a Igreja; é a ela, tanto como aos Apóstolos, que o Pai Eterno se dirige, quando proclama a Divindade do Seu Filho e ordena que O escutem.
 A Igreja, na oração da festa, resume admiravelmente os preciosos ensinamentos deste mistério. Para nós, como para os Apóstolos, a Transfiguração «confirma a nossa fé»: Fidei sacramenta patrum testimonio roborasti. Depois, "a nossa adoção de filhos de Deus é por ela admiravelmente significada": Et adoptionem filiorum perfectam, voce delapsa ín nube lucida, mírabiliter praesignasti. Finalmente, a igreja pede "que nos tornemos um dia co-herdeiros do Rei da glória e tenhamos parte no Seu triunfo»! Ut ipsius Regis gloriae nos coheredes efficias, et ejusdem gloriae tribuas esse consortes.
 A Transfiguração confirma a nossa fé?
 Com efeito, o que é a fé? É uma misteriosa participação do conhecimento que Deus tem de Si mesmo. Deus conhece-se como Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai, conhecendo-se, gera, desde toda a eternidade, um Filho semelhante a Si: Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui. Estas palavras constituem a maior revelação que Deus fez ao mundo, são como que um eco da vida do Pai. O Pai, enquanto Pai, vive de gerar o Filho. Esta geração que não tem princípio nem fim, constitui a propriedade essencial do Pai. Na eternidade, veremos com espanto, admiração e amor, esta "processão» do Filho gerado no seio do Pai. Esta «processão» é eterna: Filius meus es tu, ego hodie genuite. Este "hoje", este hoje, é o presente da eternidade.
 Quando nos diz que Jesus é o Seu Filho muito amado, o Pai revela-nos a Sua vida; e, quando acreditamos nesta revelação, participamos do conhecimento do próprio Deus. O Pai conhece o Filho nos esplendores sem fim; nós conhecemo-Lo nas sombras da fé, enquanto esperamos os fulgores da eternidade. O Pai declara que o menino de Belém, o adolescente de Nazaré, o pregador da Judeia, o supliciado do Calvário é o Seu Filho, o seu Filho muito amado; a nossa fé está em o crer.
É ótimo, na vida espiritual, ter sempre, para assim dizer, presente aos olhos do coração este testemunho do Pai. Não há nada que tão poderosamente sustente a nossa fé. Quando lemos o Evangelho ou uma Vida de Nosso Senhor, quando celebramos os Seus mistérios, quando O visitamos no Santíssimo Sacramento, quando nos preparamos para O receber em nosso coração pela Comunhão ou O adoramos depois de O termos recebido, numa palavra, em toda a nossa vida, procuremos ter sempre presente esta palavra: "Este é o meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências».
 E digamos então: «Sim, Pai, eu creio, e quero também repetir: este Jesus que está em mim pela fê, pela Comunhão, é o Vosso Filho: e creio-o, porque Vós o dissestes: e porque o creio, adoro o Vosso Filho para Lhe prestar as minhas homenagens e, por Ele e n'Ele, Vos testemunhar também a Vós, ó Pai celeste, em união com o Vosso Espírito, toda a honra e glória».
 Uma oração assim é extremamente agradável ao nosso Pai dos Céus. E, quando sincera, pura e frequente, faz de nós o objeto do amor do Pai; Deus envolve-nos nas Suas complacências para com o Seu próprio Filho Jesus. É o próprio Nosso Senhor quem no-lo diz: «O Pai ama-vos, porque crestes que Eu saí dEle, que sou Seu Filho. E que felicidade para uma alma ser objeto do amor do Pai, desse Pai "de quem vem todo o dom perfeito" que alegra os corações!
 É também muito agradável a Jesus. Ele quer que proclamemos a Sua Divindade, que tenhamos nela uma fé viva, forte, profunda, a coberto de qualquer ataque: "«Bem-aventurado aquele que não se escandalizar comigo», aquele que, apesar das humilhações da minha Incarnação, dos obscuros trabalhos da minha vida oculta, dos ataques e blasfêmias de que sou constantemente objeto, das lutas que neste mundo têm de suportar os meus discípulos e a minha Igreja, permanecer firme na sua fê em mim e de mim se não envergonhar.
 Vede os Apóstolos durante a Paixão de Jesus. A sua fê era fraca: fugiram. S. João foi o único a seguir o divino Mestre até ao Calvário. E sabemos que, depois da Ressurreição, quando Madalena e as outras santas mulheres, mandadas pelo próprio Jesus Cristo, lhes foram dizer que Ele havia ressuscitado, não o quiseram acreditar; e disseram que eram histórias de mulheres, boatos.
Vede ainda os dois discípulos que se dirigiam para Emaús. É preciso Jesus juntar-se a eles e, depois de lhes explicar o sentido da Escritura, mostrar-lhes que "era necessário que se cumprisse tudo o que acerca d'Ele estava escrito na lei de Moises, nos profetas e nos salmos»,  antes de entrar na Sua glória.
 Creiamos, pois, firmemente na Divindade de· Jesus. Não deixemos nunca afrouxar esta fé. Recordemos, para a sustentar, o testemunho do Eterno Pai na Transfiguração. Nele encontrará a nossa fê um dos seus mais inabaláveis apoios.
A oração da festa diz-nos em seguida que "a nossa adoção como filhos de Deus foi admiravelmente significada pela voz divina que saiu da nuvem luminosa».
 O Eterno Pai declara-nos que Jesus é Seu Filho. Mas, como sabeis, Jesus é também "o primogênito duma multidão de irmãos». Tendo assumido a nossa natureza humana, faz-nos participar, pela graça, da Sua filiação divina.  Se Ele é o próprio Filho de Deus por natureza, nós somo-lo pela graça. Pela Incarnação, Jesus é um dos nossos; torna-nos semelhantes a Ele, conferindo-nos uma participação da Sua divindade, de maneira a formarmos com Ele um só corpo místico. É a adoção divina: Ut filii Dei nominemur et simus.
 Ao proclamar que Jesus é Seu Filho, o Pai proclama que são igualmente Seus filhos, embora por outro titulo, aqueles que, pela graça, participam da Sua Divindade. É por Jesus, Verbo Incarnado, que nos é outorgada esta adoção: Genuit nos verbo veritatis. E, adotando-nos como filhos, o Pai dá-nos o direito de parti­lharmos um dia da Sua vida divina e gloriosa. É a «adoção perfeita»: Adoptio perfecta! Da parte de Deus é perfeita, pois «todas as Suas obras levam o cunho da sabedoria infinita»: Domine, omnia in sapientia fecisti. De fato, vede de quantas riquezas cumula Deus os Seus adotados para tornar este dom incomparável: graça santificante, virtudes infusas, dons do Espírito Santo, socorros que diariamente nos concede, tudo o que na terra constitui para nós a ordem sobrenatural. E, para nos garantir todas estas riquezas, a Incarnação do Seu Filho, os méritos infinitos de Jesus, que nos são aplicados nos Sacramentos, a Igreja com todos os privilégios que lhe confere o titulo de Esposa de Cristo. Sim, da parte de Deus, esta adoção é perfeita.
 Mas, da nossa parte, neste mundo, não o pode ser. Vai sempre aumentando, desde o dia em que nos foi conferida pelo Batismo. É um germe que deve crescer, um esboço que se deve acabar, uma aurora que deve chegar ao pleno meio dia. Atingiremos a perfeição quando, depois de termos perseverado fielmente, a nossa adoção desabrochar em glória: Si filii et heredes, heredes quidem Dei, coheredes autem Christi.
 Ê por isso que a Igreja termina a oração da festa pedindo a graça de «alcançarmos a adoção perfeita, que só na glória do céu se realiza» : Concede propitius  ut ipsius regis gloriae nos coheredes efficias et ejusdem gloriae tribuas esse consortes.
 Realmente vemos na Transfiguração a revelação da nossa futura grandeza. Esta glória que cerca Jesus deve tornar-se nossa herança. E porquê? Porque nos dá o direito de participar, como membros Seus que somos, da herança que Lhe cabe como Filho de Deus.
 É o pensamento de S. Leão. "Por este mistério da Transfiguração, uma providência não menos singular radicou a esperança da Igreja. Todo o corpo de Jesus Cristo (isto é, as almas que formam o Seu corpo místico) pode reconhecer agora que transformação será a sua. Os membros podem ter a certeza de que participarão um dia da honra que brilhou no seu Chefe».
 Neste mundo, pela graça, somos filhos de Deus. Mas "não sabemos ainda o que, em consequência desta adoção, viremos a ser um dia»: Nunc filii Dei sumus; et nondum apparuit quid erimus.  Esse dia virá quando, «tendo os raios iluminado, sacudido e feito tremer a terra  até seus fundamentos», «os justos, segundo a palavra de Jesus, ressuscitarem para a glória: Tunc justi fulgebunt sicut sol in regno Patris eorum. Os seus corpos serão glorificados à semelhança do corpo de Jesus Cristo no Tabor. A mesma glória que irradia sobre a humanidade do Verbo Incarnado é que há de transfigurar os nossos corpos. S. Paulo di-lo expressamente: Reformabit corpus humilitatis nostrae, configuratum corpori claritatis suae.
 Sem dúvida, não devemos crer que Jesus Cristo, na santa montanha, tivesse todo o esplendor com que brilha no céu a sua Humanidade; era apenas um reflexo, mas tão fulgente que deslumbrava os discípulos.
 Donde Lhe vinha esse brilho? Da Divindade. Era como que um derramamento da Divindade sobre a santa Humanidade, uma irradiação do foco da vida eterna que se ocultava ordinariamente em Cristo e fazia naquele momento brilhar o Seu corpo sagrado com um esplendor maravilhoso. Não era uma luz vinda de fora, mas sim um reflexo dessa incomensurável majestade que Jesus Cristo possuía e comprimia dentro de si mesmo. Por nosso amor, Jesus, durante a Sua existência terrena, ocultava a vida divina sob o véu da carne mortal; impedia-a de transbordar uma luz contínua que cegaria os nossos débeis olhos. Mas, na transfiguração, Jesus Cristo deixou projetar sobre a Humanidade que assumira o fulgor da eterna glória.
 Isto mostra-nos que a nossa santidade não é mais do que a nossa semelhança com Jesus Cristo, não uma santidade de que nós próprios podemos ser a fonte primeira, mas difusão em nós da vida divina. Pela graça de Jesus Cristo, esta santidade principiou a «despontar em nós» com o Batismo, que inaugura a nossa transformação na imagem de Jesus. De fato, a santidade não é neste mundo senão uma transfiguração interior moldada em Jesus Cristo: Praedestinavit nos Deus conformes fieri imaginis Filii sui. Pela nossa fidelidade à ação do Espirito, esta imagem vai-se desenvolvendo, aumentando, aperfeiçoando pouco a pouco, até chegarmos à luz eterna. Então a transfiguração revelar-se-á  aos olhos dos Anjos e dos eleitos. Será a ratificação suprema da "adoção perfeita", que fará brotar em nós uma fonte perene de alegria.

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