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27 de março de 2017

Sermão para o 3º Domingo da Quaresma – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] A pureza ou a modéstia no falar


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Caros católicos, seguindo o nosso propósito durante essa Quaresma, trataremos de mais uma virtude aparentemente simples, mas bem importante: a pureza ou modéstia no falar. São Paulo trata hoje, em sua epístola, da castidade. Diz o apóstolo que nenhum fornicador ou impuro entrará no reino dos céus. Pouco antes, ele diz: nem sequer se nomeie entre vós a fornicação, a impureza, como convém a santos. E continua: nem palavras torpes, nem parvoíces, nem chocarrices. Palavras torpes são palavras impuras, palavrões, palavras chulas. Parvoíces são palavras tolas, idiotas. Chocarrices são brincadeiras indevidas, piadas indevidas e, se envolvem coisas indecentes, cairão também nas palavras torpes. O que nos interessa hoje é tratar dessas palavras torpes, obscenas, impuras, também palavrões.
Muitas vezes se desdenha dessas palavras, dizendo que não têm muita importância, que há coisas mais graves com o que se preocupar e que elas são ditas simplesmente por brincadeira. Já na época de Santo Afonso se usava esse argumento. O Santo Doutor, farol da moral católica, fala dessa linguagem ruim em seu sermão para o 11º Domingo depois de Pentecostes, sobre as conversas e palavras licenciosas. O Santo diz: “se o confessor os repreende, eles dizem que falam essas coisas somente por brincadeira e sem a menor malícia.” O próprio Santo responde a esse argumento dizendo: “Tenha em mente, pobre insensato que você é, que essas brincadeiras indecentes fazem rir hoje os demônios e que eles farão que você chore um dia no inferno.” E continua o Santo: “não diga que você agiu sem malícia, pois é quase impossível que você não seja nos seus atos o que você é nas suas palavras.”  E cita São Jerônimo que diz: “não está longe dos atos aquele que se deleita nessas palavras.” São Sidônio Apolinário, Bispo de Auvergne, na França, no século V, diz que é impossível encontrar um homem imoral na linguagem e puro nos costumes. E São Bernardo diz que terminamos por praticar aquilo que gostamos de ouvir (ou que gostamos de falar, podemos acrescentar). Lembremo-nos da palavra do próprio Senhor: “a boca fala daquilo que o coração está cheio.” O que falamos é expressão de nosso íntimo ou vai formando o nosso íntimo. Alguém que fala impurezas, obscenidades, palavrões, ou tem o coração cheio disso ou está enchendo rapidamente o coração dessas coisas.
Um dos grandes meios para avançar na castidade nos atos é parar de falar essas impurezas e obscenidades, que são por si só um pecado e que conduzem a pecados ainda mais graves. Uma das dificuldades para as pessoas vencerem os pecados impuros é justamente a onipresença dessa linguagem baixa na nossa sociedade. No ambiente de trabalho, nos meios de comunicação, nos escritos, em todo lugar. Elas conduzem aos pensamentos impuros e aos atos de impureza. A impureza que condena tantas almas… Por uma satisfação insignificante se perde o céu, se merece o inferno, se ofende gravemente a Deus.
E se ao nosso redor falam coisas impuras, palavrões, procuremos mudar de assunto, procuremos sair do ambiente. Não devemos nunca ouvir voluntariamente a tais palavras baixas. Se mudar de assunto e sair do ambiente for impossível, não demonstremos aprovação alguma a essas palavras, por exemplo, rindo delas. Rezemos, reparemos por essas palavras tão baixas, mas sem repeti-las. Nosso apostolado e nossos deveres cotidianos devem ser feitos com palavras dignas de um cristão, mesmo nos momentos que exigem maior firmeza.
As palavras torpes são um pecado. E, como todo pecado, favorecem o reino do demônio. Elas podem ser um pecado leve ou grave, isto é, venial ou mortal. A gravidade depende, primeiramente, da gravidade da palavra em si. Em seguida, depende da intenção com que é proferida e, finalmente, depende também do escândalo que provoca (levando outros ao pecado). Deixemos claro que ainda que sejam ditas somente com a intenção de brincar ou de chamar a atenção de alguma forma, essas palavras não serão lícitas. E tenhamos consciência: ainda que alguma palavra assim não seja um pecado mortal, ela vai dispondo cada vez mais a alma para atos torpes, e o perigo de escândalo ou de levar os outros ao pecado também é considerável. Basta conhecer um pouco de verdadeira psicologia humana. Tais palavras ditas e repetidas vão marcando a imaginação e facilmente a pessoa volta a pensar nelas ou a representar-se tais palavras. A tendência é terminar consentindo nelas interiormente e depois praticar atos de impureza. São Bernardino de Sena conta a história de uma jovem que tinha uma conduta exemplar, mas que ouviu (voluntariamente ou sem combatê-la de um modo sério) uma palavra obscena de um jovem e teve logo maus pensamentos que a levaram a vícios aos quais se entregou de tal forma que o próprio demônio, se tivesse carne humana, não faria.
Que tristeza é ver um cristão proferir palavras tão vergonhosas ou de alguma forma encontrar agrado nelas, por exemplo, rindo. Ou proferir tais palavras por impaciência, por ira. Se Deus nos deu a inteligência e a língua, é para falarmos coisas que nos elevem a Deus, que nos edifiquem a nós mesmos e ao próximo, para falar coisas boas, ainda que não somente religiosas. Em todo caso, nunca para que falemos coisas que nos afastem de Deus. E, assim, São Paulo diz que devemos falar ações de graças. Se Nosso Senhor diz que deveremos prestar contas de toda palavra ociosa, quanto mais de uma palavra impura, torpe. Sendo católicos, temos ainda muitos outros motivos para não proferirmos coisas tão baixas. Vejamos. Somos batizados, somos membros de Cristo. Cristo é a Sabedoria Eterna Encarnada, é a Palavra de Deus que se fez homem. Sendo nós membros e discípulos da Sabedoria Eterna Encarnada, não podemos usar a sabedoria e a palavra que nos foram dadas para proferir coisas torpes, impuras, que A ofendem. Sendo católicos, é na nossa língua que recebemos o Corpo de Cristo. Se a patena em metal que recebe a hóstia consagrada na Missa deve ser revestida de ouro, sem corrupção, quanto mais a nossa língua deve estar isenta da mancha, da corrupção dessas palavras. Nosso Senhor nos dá o exemplo. Jamais usou palavras torpes. As condenações de Jesus dirigidas aos seus inimigos não são xingamentos, palavras baixas, palavrões. Afirmar o contrário seria uma blasfêmia terrível. Seria dizer que Cristo nomeia aquilo que São Paulo diz que um cristão não deve nomear. Nosso Senhor usa palavras duras, mas honestas, e as utiliza com mansidão, justiça e caridade. Palavras que, em aspecto algum, são palavras torpes.
Devemos abolir essas palavras baixas de nosso vocabulário, ainda que algumas não sejam pecado mortal. Se por hábito e sem muita advertência alguém proferir uma palavra impura, um palavrão, deve fazer um pequeno ato de reparação e impor-se uma pequena penitência, a fim de perder esse hábito pouco a pouco. Uma Ave-Maria, por exemplo, ou invocar os nomes de Jesus, Maria e José. E mesmo se essas palavras vêm somente na nossa imaginação, afastemo-las, rezando e pensando em algo lícito.
Como diz São Paulo, que essas coisas nem se nomeiem entre os cristãos, como convém a santos. São coisas despropositadas. Sejamos filhos da luz, como diz o mesmo apóstolo, filhos da Palavra Eterna, da Sabedoria Eterna. Que nossas palavras sejam sábias, dignas de filhos de Deus.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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