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4 de março de 2017

Sermão para o Domingo da Quinquagésima – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] História das Heresias III: nestorianismo, monofisismo e monotelismo

Sermão para o Domingo da Quinquagésima
26.02.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP
Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Caros católicos, continuemos ainda hoje a nossa brevíssima história das heresias. Antes de tratar das heresias, convém uma breve recordação da verdadeira doutrina sobre Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo encarnado. Ele é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Se é verdadeiramente homem, isso significa que Ele tem uma natureza humana completa, em tudo semelhante à nossa, exceto o pecado e o que o conduz ao pecado, como más inclinações, por exemplo. Ele é também verdadeiramente Deus, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro. Lembremo-nos de que para a nossa redenção, é preciso que Cristo seja Deus e homem. Sendo Deus, suas ações têm um valor infinitamente bom, reparando, satisfazendo a ofensa infinita de nossos pecados e merecendo infinitamente. Sendo homem, Ele é a nossa cabeça e podemos ser membros dEle, para satisfazer pelos nossos pecados e alcançar as graças divinas.
Em Nosso Senhor, as duas naturezas, a humana e a divina, estão unidas na pessoa do Verbo, isto é, na pessoa divina. Isso significa que a pessoa de Cristo é uma pessoa divina. As ações de Cristo, quaisquer que sejam elas, são ações de uma pessoa divina, pois as ações são sempre de uma pessoa. Quando Cristo, em virtude de sua humanidade, chora, podemos dizer que Deus chora, pois as ações não são de uma natureza, mas da pessoa, que é divina em Cristo. Quando Cristo, em virtude de sua natureza humana, teve cansaço e sentou à beira do poço na região da Samaria, podemos dizer que Deus esteve cansado, pois as ações se atribuem à pessoa de Cristo, que é divina. Essa união das duas naturezas na pessoa do Verbo chama-se união hipostática. Assim, em Cristo há duas naturezas – a humana e a divina -, mas uma só pessoa, a divina. E a união das duas naturezas se faz na pessoa divina. E, como diz o Concílio de Calcedônia, existe a união entre as duas naturezas, mas sem confusão entre elas. E as duas naturezas permanecem distintas, mas não separadas.
Passemos às heresias. Na primeira metade do século V, surgiu a heresia do nestorianismo, que tira seu nome do Bispo de Constantinopla, Nestório, que assumiu essa diocese em 428. Nestório começou a afirmar que em Cristo havia duas pessoas, a humana e a divina, e que o Verbo habitava na natureza humana de Cristo, como em um templo. Dessa forma, Cristo assemelhava-se simplesmente a um homem em estado de graça, talvez no grau mais elevado, mas simplesmente um homem em estado de graça. Se houvesse as duas pessoas em Cristo, não seria possível falar que Cristo é homem e Deus. Cristo seria apenas homem, no fundo. Essa heresia de Nestório ganhou maior visibilidade quando ele passou a negar a Nossa Senhora o título de Mãe de Deus. Essa negação era natural, já que ele negava, no fundo, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na verdade, Nossa Senhora, deu à luz Jesus Cristo, homem e Deus, e pessoa divina. Ela pode ser chamada verdadeiramente de Mãe de Deus, consequentemente. São Cirilo de Alexandria foi o Bispo que mais se opôs a Nestório, condenado no Concílio de Éfeso (431), que reafirmou solenemente Nossa Senhora como Mãe de Deus.
Pouco tempo depois, em 446, um velho abade chamado Eutiques, em reação a Nestório, caiu no erro contrário. Passou a afirmar que em Jesus Cristo havia apenas uma natureza: a divina. É a heresia do monofisismo, que significa uma natureza. Deturpando algumas palavras de São Cirilo de Alexandria, os monofisitas negavam a natureza humana de Cristo. Mais uma vez é toda a obra da redenção colocada a perder com essa heresia. Eutiques, de baixa capacidade intelectual, tinha uma considerável influência política. Conseguiu que o imperador reunisse um outro Concílio, também em Éfeso, em 449. O Papa São Leão Magno chegou a enviar legados e uma carta com a boa doutrina, chamada de Tomo de São Leão. Nesse Concílio, todos os bispos que tinham condenado o monofisismo começaram a ser excluídos e foram ameaçados com deposições, exílios e até morte. O herege Eutiques foi restaurado como abade enquanto os bispos que tinham guardado a fé, como Flaviano e Teodoreto, foram depostos. Flaviano foi preso e tão maltratado que morreu. Muitas vezes, as duas formas de perseguir a Igreja se unem. Esse Concílio aprovou a doutrina herética do monofisismo. São Leão Magno e os Papas seguintes nunca aprovaram esse Concílio, que passou para a história como o Latrocínio de Éfeso, tamanhos os absurdos que nele ocorreram. A heresia monofisita será condenada em um concílio legítimo, o Concílio de Calcedônia, que restabeleceu claramente a doutrina: união das duas naturezas em Cristo, mas sem confusão entre elas, e distinção das duas naturezas, mas sem separação. E essa união se faz na pessoa do Verbo. O Concílio de Calcedônia ocorreu em 451.  O monofisismo chegou a conhecer uma ampla difusão, sobretudo por sua roupagem mística que atraiu muita gente, dando origem a várias seitas.
Dependente do monofisismo, surgiu uma outra heresia em meados do século VII, chamada de monotelismo. O monotelismo não chegava a negar a natureza humana de Cristo, mas negava que em Cristo houvesse uma vontade humana. Essa heresia mutila a natureza humana de Cristo, negando-lhe a vontade humana. A heresia do monotelismo é uma espécie de semi-monofisismo. O monotelismo foi favorecido pelo desejo de pacificação que tinha o Imperador Heráclio, pois no império ainda reinava a discórdia em virtude das inúmeras seitas monofisitas. Como dissemos no sermão anterior, muitas vezes o desejo de falsa pacificação termina levando à aceitação da semi-heresia, de uma heresia atenuada, mas que, na realidade, é tão heresia quanto a heresia mais escancarada. Muitas vezes se quer reduzir tudo a uma mera questão de grupos, como se não estivesse a verdade em questão. Sérgio, patriarca de Constantinopla, homem mais da política que da Igreja, realizou os desejos do imperador propondo um texto que pretendia conciliar a doutrina católica com a heresia monofisita por meio do monotelismo, em que cada um cederia um pouco. Os católicos poderiam continuar afirmando a natureza humana de Cristo, mas teriam que negar a existência de sua vontade humana. Os monofisitas teriam que reconhecer a natureza humana de Cristo, mas poderiam negar a sua vontade humana. Os católicos não podiam aceitar isso, evidentemente. O monotelismo foi condenado pelo Papa São Martinho I em 649 e também pelo terceiro Concílio de Constantinopla em 680. Foi reafirmada a natureza humana íntegra de Cristo, com uma vontade humana, mas inteiramente submissa à vontade divina, evidentemente.
Com o monotelismo, terminam-se as chamadas heresias cristológicas mais diretas. Umas negavam a divindade de Cristo, outras a sua humanidade. Todas tornavam impossível a redenção, como já falamos.
Confessemos a humanidade e a divindade de Cristo. Ele é o Verbo Encarnado. O Filho de Deus que se fez homem. Como diz São João: Deus amou tanto o mundo que deu Seu próprio Filho, para todo o que crê nEle não pereça, mas tenha a vida eterna. Nosso Senhor Jesus Cristo é o Filho bem-amado do Pai, em quem Ele colocou todas as suas complacências. Façamos o que Ele nos manda, sobretudo nesse tempo de Quaresma que irá se iniciar.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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