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28 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

IV. A CONVERSÃO

D. Garcia não entrava no quarto do seu jovem irmão que o não encontrasse ocupado a ler ou a escrever.
- Achais interesse na vida dos Santos, caro Ínigo? - lhe disse um seu irmão.
- Sim, senhor, acho nela coisas surpreendentes, que ultrapassam tudo o que os cavaleiros imaginários têm empreendido para conquistar um nome glorioso. No primeiro momento, ou fosse por ser privado dos romances que eu desejava, ou por outra razão, este livro pareceu-me insípido. Mas forçando-me o aborrecimento a lê-lo, terminei por achar-lhe. muito interesse.
- Tanto melhor, caro Ínigo, porque esta longa reclusão é dolorosa para uma natureza tão viva como a vossa.
- Sofro menos, meu caro irmão, desde que leio este livro. Contudo, vede: condeno-me a este suplício para não perder a minha influência junto das damas da corte, ao passo que todos estes Santos teriam sofrido tudo isto, e mais ainda, só para agradarem a Deus. Eles ganharam uma eternidade de felicidade em recompensa da sua vida penitente ou do martírio que aceitaram; e eu apenas terei sorrisos de mulheres ou louvores cortesãos como única recompensa! Pergunto a mim mesmo o que me ficará de tudo isso, quando eles e eu tenhamos envelhecido?
- Sempre assim foi o mundo, meu bom Ínigo; o importante, para um fidalgo do vosso nascimento e do vosso valor, não é ser um Santo, como aqueles cuja vida estais lendo, mas portar-vos sempre com honra, e aumentar a glória que já vos mereceu a vossa valente espada.
É precisamente o que eu penso, meu caro irmão. Demais estou na idade dos triunfos, desejo-os, e ser-me-ia impossível sacrificá-los. O meu destino não é imitar estes heróis evangélicos incontestavelmente nunca serei um Santo!
Inácio não acrescentou,-só o confessou mais tarde -que tinha perguntado muitas vezes a si mesmo, ao ler a vida dos Santos, porque não procuraria imitá-los; por que não podia fazer o que os Santos puderam; por que não procuraria, como eles glorificar a Deus na terra, com a esperança de ser um dia participante da sua glória no céu. É verdade que esses bons sentimentos eram imediatamente abafados pelos sonhos de ambição e de vaidade, e que, indo-se-lhe pouco a pouco distendendo a perna, a esperança de não ficar coxo quando saísse do seu quarto o preocupava mais que tudo. Entretanto, lia relia as grandes ações dos Santos, e, querendo conservar a recordação delas, escrevia aquelas que mais o impressionavam. Passado pouco tempo, sentiu-se muito comovido ao entregar-se a esta ocupação, e perguntou de novo a si mesmo:
- Por que não hei-de ter a coragem que tiveram os Santos? Vejo entre eles alguns que eram de estirpe tão boa como a minha; vejo-os até que se sentaram em tronos ou foram oriundos de sangue real... Por que não hei-de eu procurar a única glória que eles ambicionaram? Hoje estão eles em posse duma felicidade que os prazeres e a glória desta vida não podem dar, e têm esta felicidade garantida por toda a eternidade! Esta felicidade eterna conquistaram-na renunciando às grandezas, aos prazeres, às vaidades deste mundo, e calcando-as aos pés, para só viverem da renúncia, da oração e da mortificação... Por que me parece tão estimável o que eles tanto desprezaram?... De que lado está a razão? Onde está a verdade? Eles só procuraram a glória da eternidade; eu ambiciono a do tempo... De que lado está a sabedoria? Onde o verdadeiro e sólido interesse? Tenho trinta anos, sou de nobre raça adornado de todos os dotes que agradam ao mundo. Se a minha perna ficar de novo curta quando a tirar desta máquina, eis-me forçado a afastar-me da corte e dos prazeres. da minha idade! Os meus triunfos estão, pois, dependentes dum movimento de nervos, duma ferida, duma doença, dum incidente que a coisa mais insignificante pode provocar! Eis o que vale a felicidade que o mundo pode oferecer!... Não será uma loucura procurá-la e viver para ela?"
Todas estas reflexões surgiam no espírito de D. Inácio assaltavam-no de dia e de noite e o fatigavam tanto mais quanto mais energicamente eram combatidas pelo respeito humano e pelo atrativo dos prazeres entre os quais tinha vivido até então...
- "Que se dirá na corte - perguntava ele a si mesmo - se eu não reaparecer? Crer-se-á que fiquei defeituoso até ao ridículo e que tenho vergonha de me deixar ver... Ou pensar-se-á que perdi Pamplona por culpa minha... Acusar-me-ão de inabilidade, dirão que me envergonho daquela, derrota e que fugi por cobardia... Se se escrevesse assim a história!..."
A este pensamento, todo o orgulho do nobre Inácio se revoltava; lançava a vista para a sua gloriosa espada suspensa perto do leito, com a qual quisera atravessar no mesmo instante o corpo do historiador desleal ou mal informado.
Prolongando-se esta luta na alma do nosso herói, perguntou um dia a si mesmo se não seria já tempo de pôr termo a ela, tomando uma resolução definitiva.
- "Há evidentemente em mim, - dizia ele - duas vontades opostas; uma, que me impele para o bem, e por ele à felicidade eterna; a outra, que me impele para o mal, e por ele à eterna infelicidade. Quando reflito largamente sobre as vantagens duma vida penitente, como a dos Santos, experimento uma tranquilidade, uma paz de espírito, uma doçura. interior, que são desconhecidas e que o mundo não pode dar-me. Quando, ao contrário, me deixo arrastar pelo pesar e pelo desejo dos prazeres e da glória desta vida, fico com uma perturbação, uma inquietação, uma agitação que se assemelham ao remorso, e me tornam desgraçado. É, pois, loucura hesitar no partido que devo tomar... Farei o que fizeram os Santos!"
Esta importante resolução estava tomada e, com uma natureza de Inácio de Loiola, devia ser executada. Aproxima-se o momento em que ele podia tirar o aparelho da perna e experimentar as suas forças; mas a estação era pouco favorável, o inverno começava a fazer-se sentir e a prudência recomendava que esta resolução fosse adiada por alguns meses.. Entretanto o nosso recluso ocupava-se em ler e reler a vida Nosso Senhor e a dos Santos, e escrevia sempre, mas com muito mais cuidado, os traços que mais o impressionavam. Fez este modo um livro de trezentas páginas, escritas no gosto época, em diversas cores. Empregava a cor de ouro para Nosso Senhor, a vermelha para a Santíssima Virgem e as outras cores para os Santos [9].
Entretanto, Inácio tornara-se um homem novo. Ocupado de Deus e do desejo de lhe agradar, dividia o seu tempo entre santas leituras, a oração, a meditação e a escrita. Procurava trazer à memória todas as faltas da sua vida passada, suspirando pelo momento em que lhe fosse permitido expiá-las pelos jejuns, vigílias, macerações e solidão. A sua família estranhava-o a linguagem, maneiras, assuntos de conversação, mudara nele, e D. Garcia preocupava-se seriamente com isso, Sabia que com um caráter enérgico e perseverante como o de Inácio, tudo o que se tentasse para o afastar do caminho em que ele entrara, encontraria a invencível barreira da sua firmeza. Além disso, Inácio não lhe falava dos seus projetos, nem lhe comunicava as suas impressões, e limitava-se deixar adivinhar que agora era todo de Deus e que o mundo não valia nada para ele.
Aguardando a cura completa, formava planos de vida que acolhia e rejeitava; mas não abandonava a ideia de ir em peregrinação à Palestina. Teve, um momento, o pensamento de se retirar a um mosteiro dos Cartuxos. Chegou a enviar um dos seus servos à Cartuxa de Burgos a pedir informações sobre a regra de S. Bruno, ordenando-lhe que guardasse segredo acerca da missão de que o encarregara. Guardá-lo-ia? É provável que não, e que fosse este servo de Inácio que despertasse as suspeitas de D. Garcia.
Por fim, o nosso ferido readquiriu a liberdade dos movimentos; pôde levantar-se e andar, mas tão longa inação e tão doloroso tratamento haviam-lhe enfraquecido a perna direita. Foi necessário fortificá-la com o ar puro e um exercício moderado. Inácio submeteu-se a este regime, cujo resultado devia secundar os projetos que lhe alimentavam o espírito. Todos os dias dava um pequeno passeio, sem perder o recolhimento; todas as noites se levantava para se entregar à oração por mais tempo e com mais tranquilidade que durante o dia. Gozava consolações tais neste exercício, que o desejo de retiro, de solidão e de mortificação, tornara-se para a sua alma um verdadeiro sofrimento.
Uma noite, sofrendo mais ainda que de ordinário. pela necessidade imperiosa de abandonar tudo por Deus, e estando a sua perna assaz fortificada para lhe permitir a execução dos seus projetos, prostrou-se diante duma imagem da Santíssima Virgem, pediu-lhe que aceitasse o compromisso, que ele tomava a seus pés, de só viver para a glória do seu divino Filho, e jurou-lhe, na sua linguagem de guerreiro, ser sempre fiel à sua bandeira, não servir senão na sua milícia e sob suas ordens, e ser do Filho e da Mãe, na vida e na morte. No mesmo instante, um estrondo, semelhante a uma forte detonação, faz-se ouvir no interior do castelo e o abala até aos alicerces. O abalo foi sentido em todos os cantos da casa, mas não deixou sinais senão no quarto de D. Inácio, mais violentamente atingido, e cujos muros, dalguns pés de espessura, sofreram um abalo tão forte que produziu uma larga fenda, que ainda existe.
Não foi um tremor de terra, porque só o castelo sofreu o abalo; as dependências nada sofreram. Qual a causa deste fenômeno? Procurou-se, mas não se encontrou. Preveria o demônio os temíveis e incessantes golpes que lhe viria a dar a santa Companhia de Jesus, e quereria manifestar a sua raiva impotente contra aquele que Deus tinha escolhido para ser o fundador da mesma? Os historiadores do Santo são dessa opinião.
D. Garcia continuava a preocupar-se com a transformação de Inácio e procurava ocasião de comunicar-lhe os receios que o agitava; esta apresentou-se breve. Inácio, sentindo-se mais forte, deu um passeio a cavalo sem prevenir o irmão, e, quando regressou, encontrou D. Garcia que o esperava na escadaria
- Julgastes, meu irmão, que fosse nosso tio Manrique? - perguntou.
- Não, meu irmão, - respondeu gravemente o chefe da família - sabia que vos tínheis ausentado a cavalo, e quando ouvi o som da buzina corri para ver se os vossos criados entravam sós ou se vos seguiam.
- Fui experimentar as forças, meu caro irmão. É conveniente readquirir o exercício de cavalgar.
À noite os dois conversavam sem testemunhas no quarto de Inácio.
- Confesso, - dizia D. Garcia - que a vossa saída a cavalo me inquietou bastante, em consequência do silêncio, que guardais sobre os vossos projetos. Por que me não prevenistes ?
- É verdade que vô-lo podia ter dito, mas que receais?
- Meu caro Ínigo com toda a franqueza vô-lo digo porque tenho necessidade de expandir. o coração. A vossa mudança é tal que receio tudo. A vossa. imaginação está exaltada com a leitura da vida de Jesus Cristo e dos Santos; renunciastes à corte, à guerra, às honras, à glória, a tudo o que amáveis.
Só viveis para Deus, não comunicais a ninguém os vossos projetos, e, na vossa idade, deveis tê-los certamente. É, pois, de temer que, deixando-vos levar por indiscreto fervor, falais mais do que deveis.
- Espero, caro irmão, não ir mais longe do que devo, - respondeu Inácio; - peço-vos que fiqueis tranquilo a esse respeito.
D. Garcia prolongou a conversa mais alguns momentos, e, vendo que não podia esperar confidência alguma sobre os projetos do irmão, deixou-o, recomendando-lhe que refletisse.
Na noite seguinte, quando Inácio estava em oração, a Santíssima Virgem apareceu-lhe rodeada de brilhante luz, trazendo Jesus Menino nos braços. Não lhe falou; mas a sua celestial presença inundou-lhe a alma de inefável consolação, e pareceu-lhe que a graça o purificava inteiramente, que tudo nele fora renovado. A partir daquele momento, ficou livre de toda a tentação, de todo o pensamento contrário à virtude da pureza.
O nosso Santo tinha experimentado as forças: prolongando a sua estada sob o teto da família, expunha-se a novas observações, a novas tentativas da parte do irmão para o afastar de seguir a voz que o chamava. Era, pois, urgente apressar a partida. Dois dias depois deu as necessárias ordens, e, entrando nos aposentos de D. Garcia, disse-lhe:
- Meu querido irmão, o tempo é favorável e vou aproveitá-lo para ir ver meu tio Manrique; estarei ausente alguns dias...
- Ínigo, - exclamou D. Garcia - enganais-me!
- Não, senhor, digo-vos a verdade, vou a Navarrete.
-Sim, mas de lá aonde ireis? Conheço-vos, Ínigo, e estou certo que há muito tempo alimentais um projeto de futuro, que não pode ser agradável à vossa família. Não posso afastar-vos dele, porque sei como sois firme nas resoluções tomadas. Mas, por Deus! não me direis nada? Afastais-vos dum irmão que vos ama sem lhe dizer aonde ides e o que fareis? Receio que a imaginação vos tenha iludido. Quereis viver longe do mundo, bem o sei. Mas não podeis estar aqui só e tão retirado como um solitário, ficando conosco? Deus não estará em toda a parte? Não consultastes ninguém; cedeis a um impulso de fervor inspirado pelo exemplo dos Santos; bem está. Todavia deveis ter em consideração também a honra da vossa família. Ides abraçar a pobreza evangélica e estender a mão aos viandantes?
Inácio não respondeu.
- Se me engano, - acrescentou D. Garcia - por que me não desenganais e tranquilizais?
O mesmo silêncio da parte de Inácio. Seu irmão continuou:
- Nada posso para vos fazer mudar de resolução, mas ao menos, meu irmão, meu caro irmão, se não voltardes de Navarrete, se vos afastardes de nós, como receio, prometei-me, a mim vosso irmão mais velho, que nunca desonrareis o nobre nome que usais! Prometei-me que em qualquer lugar em que vos acheis, não esquecereis o sangue que corre nas vossas veias, e que nunca adotareis um modo de viver que nos faça corar! Enfim, prometei-me que nunca vos tornareis indigno dos nossos gloriosos antepassados.
Prometo-vô-lo, meu irmão; não tenho e espero nunca ter a intenção de faltar à honra. Disse-vos a verdade. Vou a Navarrete fazer uma visita dalguns dias a meu tio Duque de Nájera que veio ver-me durante a doença, e a quem devo este testemunho de reconhecimento e de afeição.
- Estais assaz vigoroso para empreender tão longa viagem através das montanhas?
- Sim, senhor, estou certo que posso efetuá-la, a não ser que um incidente, que ninguém pode prever, mo impeça e pararei em Biscate para ver minha irmã.
- Pois bem, acompanhar-vos-ei até casa dela e em seguida deixar-vos-ei para irdes com os vossos criados a casa do tio Manrique.
No dia seguinte, os dois irmãos partiram a cavalo, seguidos dos seus escudeiros e criados, e só se separaram em Onate, como fora combinado. As despedidas fizeram-se à noite porque Inácio devia partir de madrugada. Mas quando todos estavam deitados o nosso herói, que tinha tomado todas as precauções, dirigiu-se à igreja de Nossa Senhora de Arancuza e ali passou a noite. Ao romper do dia montou a cavalo, e, seguido de dois criados, dirigiu-se para Navarrete.
Abandonando para sempre a opulenta casa dos pais, não levara mais nada que os seus manuscritos; não tomara sequer a bolsa. Chegado a casa de seu tio, recorda-se que tem algumas dividas e quer solvê-las; em casa de seu tio Manrique devem-lhe uma certa quantia, que ele reclama, encarrega o seu escudeiro de pagar as dívidas, e, julgando-se rico com o que lhe resta, manda fazer uma imagem da Santíssima Virgem, que trará sempre consigo; porque ela será agora a sua única Senhora.

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