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26 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

II. NO CAMPO DE BATALHA

Aceitando o cargo que o vice-rei impusera à sua honra, o nobre Inácio de Loiola praticou um ato heroico de dedicação à Espanha e ao seu soberano.
A Navarra, sempre independente, e governada pelos seus reis hereditários havia setecentos anos, tinha sido conquistada por Fernando, o Católico, em 1512, e era então uma província espanhola. Os navarros, sofrendo com pesar a humilhante posição em que se achavam, lançavam frequentes vezes os olhos para além dos Pirenéus, e chamavam com todos os seus votos Henrique de Albret, filho e herdeiro de D. João III, que Fernando tinha destronado e espoliado pelo direito da força. Além disso, o restabelecimento da monarquia navarra e a restituição deste reino ao seu legítimo soberano tinham-lhes sido solenemente garantidos pelo tratado de Noyorl, e Carlos V havia faltado à promessa. Nestas condições o nosso herói poderia esperar que a guarnição, quase inteiramente composta de soldados e oficiais navarros, o secundaria um só instante ao primeiro ataque dos franceses? Poderia contar também com as tropas que D. Antônio Manrique fora buscar? E não seria para recear que todas as populações fossem com alegria ao encontro dos franceses e os acolhessem como libertadores?
Inácio de Loiola, via, com um só volvei de olhos, todas as dificuldades, todos os perigos da situação. Sabia que em caso de ataque antes da chegada do vice-rei, seria impossível vencer; mas sabia também que lhe seria possível morrer combatendo, e tinha aceitado a morte, prometendo vender caro a vida.
Os navarros receberam efetivamente com satisfação o exército que se apresentava em nome de Henrique de Albret; em todo o caminho, a marcha dos franceses não encontrou obstáculos e parecia um triunfo. No dia 8 de Maio, véspera Pentecostes, cercaram Pamplona, que não tinha ainda recebido nenhum reforço e o não podia esperar antes de alguns dias.
As autoridades civis pediram ao comandante da praça que se rendesse e não tentasse nenhuma resistência, porque não tinha força suficiente para defender a cidade contra um exército tão numeroso. Os oficiais da guarnição uniram-se aos habitantes da cidade e todos a uma voz pediram a rendição da praça nas condições impostas pelo chefe do exército francês [6]:
- O vice-rei não pode estar de volta antes da tomada da praça, - diziam os antigos capitães; para que servirá o sangue espalhado numa defesa impossível?
- Henrique de Albret é nosso rei legítimo, - exclamava o povo. Não queremos defesa! Abramos as portas ao conde de Esparra!
- Viva Henrique de Albret! - exclamavam os soldados navarros. Viva o rei de Navarra! Viva o exército francês!
O governador da cidadela propõe também a evacuação imediata. Inácio de Loiola é o único de opinião contrária; só ele se opõe, em nome da honra, em nome do soberano, a entregar a praça ao inimigo. Fala ao povo e aos soldados; censura aos oficiais a sua fraqueza e quer fazer-lhes compreender que podem esperar da severidade do vice-rei e da indignação de Carlos V. Vãos esforços! Aquela voz amada parece desconhecida de todos; glacial silêncio responde ao seu entusiástico apelo; ninguém se quer opor à entrada dos franceses, a o nobre Inácio tem a dor de ver abrirem-se para os soldados franceses as portas da praça, que ele se comprometera a defender ate à morte.
Retira-se então para a cidadela; é ali que esperará o inimigo e lhe provará que há, pelo menos, um homem de coração na guarnição desta fortaleza. Mas o governador quer parlamentar e vai descer à cidade com os seus mais antigos oficiais. Inácio teme as condições do vencedor; quer conhecê-las e acompanha os oficiais. André de Foix propõe uma capitulação vergonhosa, que o governador está disposto a assinar. Inácio encara altivamente os dois, e, dirigindo-se aos oficiais que estavam a distância
- Senhores,- disse - se me deixarem só na defesa da cidadela, defendê-la-ei até à última gota do meu sangue! A história não dirá à posteridade que entrego a minha espada antes de a tirar da bainha. Quem de vós me seguirá neste caminho da honra?
- Eu ! eu ! meu valente comandante! - exclamaram ao mesmo tempo alguns valorosos oficiais.
- Pois bem! - replicou o nosso herói -não capitulemos! Subamos à cidadela e saibamos morrer como valentes! Viva o imperador Carlos V!
- Viva o imperador! - repetiram os oficiais e soldados de Inácio. Viva o nosso valente comandante!
D. Inácio de Loiola, seguido dos seus poucos companheiros, encerrou-se na fortaleza e esperou o inimigo. Não tem ali sacerdote algum: pede a um fidalgo, seu irmão de armas, que ouça a sua confissão, e confessa os seus pecados àquele guerreiro com verdadeiro sentimento de humildade, porque sabe que pode estar morto daí a algumas horas [7].
No dia seguinte, 20 de Maio, segunda-feira de Pentecostes, ao romper do dia, os franceses começam o ataque.
O valente Inácio está nas trincheiras, e, com a palavra e com o exemplo, anima os seus, que se defendem com igual ardor. Os inimigos sobem ao assalto; Inácio repéle-os à medida que se apresentam. A artilharia francesa troa formidavelmente, mas a coragem de Inácio não se quebranta; os inimigos continuam a cair sob os seus golpes e enchem o fosso com os seus cadáveres.
Os chefes do exército francês admiram a valentia e habilidade do jovem oficial, que só por si vale uma companhia de velhos guerreiros, e sentem que ele não seja dos seus.
Entretanto, a artilharia redobra as suas espantosas descargas contra o bastião defendido pelo nosso herói. É abatido um lanço da muralha, uma lasca de pedra fere Inácio na perna esquerda, e ao mesmo tempo uma bala de canhão, lançada contra a muralha oposta, ricocheteia e quebra-lhe a perna direita. O valente Inácio cai gloriosamente no meio dos seus soldados. Estes, desanimados com a perda do seu chefe, depõem as armas e entregam a fortaleza aos vencedores [8].
Inácio transportado ao quartel general dos franceses, é ali tratado como herói, prodigalizando-lhe todos os maiores cuidados. O conde de Esparra manda pedir-lhe a honra de lhe apertar a mão e de o felicitar pelo seu nobre procedimento e altos feitos; D. Inácio recebe-o. Mas vendo-o, diz-lhe:
Senhor, deixaram-me a espada e contudo eu sou vosso prisioneiro.
- Um oficial do merecimento de V. Ex.a nunca é vencido - lhe respondeu André de Foix; V. Ex.a é livre e não ficará junto de nós senão o tempo indispensável para curar as suas gloriosas feridas. Entretanto, aceite a minha amizade e honre-me com a sua.
- Da melhor vontade, senhor, - lhe disse o nobre ferido apertando-lhe a mão; - e visto que a sua generosidade me trata como irmão de armas e não como prisioneiro, permita-me que lhe exprima um desejo.
- Fale, senhor; dou-lhe a minha palavra de honra de que o que eu puder fazer para ser-lhe agradável, o farei.
- O vice-rei de Navarra é meu parente e meu segundo pai, - disse Inácio. Ele marcha sobre Pamplona com o exército destinado a repelir-vos; peço-vos que lhe envieis um dos seus oficiais a informá-lo de que o serdes vós senhor da praça e da fortaleza é sinal de que eu caí como homem de honra.
- Como herói! - acrescentou o conde abraçando cordialmente o seu novo amigo.
Alguns dias depois, tendo os cirurgiões declarado que Inácio podia ser transportado sem perigo, André de Foix disse-lhe
- Chegou o momento de nos separarmos, com grande pesar meu; mas V. Ex.a será melhor e mais agradavelmente tratado no seio da família. Mandei preparar uma boa liteira; os soldados de V. Ex.a o conduzirão e escoltarão; a sua gente segue-o; todos aqueles que lhe pertencem são livres. Confesso que esta separação me é penosa e faço votos para que as nossas espadas não mais tenham que cruzar-se.
- Desejo-o tanto como vós, - lhe respondeu o nosso herói; mas se os nossos soberanos, a quem Deus guarde, se puseram em frente um do outro, não ouvirei, juro-vô-lo, outra voz senão a da honra e do dever!
- E isso é digno de V. Ex:a! E eu também espero ser fiel à divisa do rei de França: "Faze o que deves, suceda o que suceder".
- Salvo a honra, caro conde, para a vida e para a morte !
Os dois cavaleiros abraçaram-se, e Inácio foi colocado alguns instantes depois numa liteira e levado ao castelo de Loiola, pouco distante de Pamplona.

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