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19 de julho de 2021

Santa Rosa de Lima - O Anjo dos Andes

 X. A EREMITA

Na manhã de 14 de Julho, poucos meses depois de Rosa ter recebido o anel de ouro, os sinos de Lima plangiam sua música fúnebre pela cidade. O santo missionário franciscano, padre Francisco Solano, morrera.
Maria de Oliva murmurou uma breve oração, ao ouvir os fúnebres sons.
- Era melhor irmos logo ao convento dos franciscanos, Mariana. Estou certa de que haverá milagres por lá, hoje. Pegue todos os nossos rosários e medalhas. Poderemos tocar com eles o corpo do padre Francisco e guardá-los como relíquias.
A índia concordou com um aceno. Tanto a ama como a serva avaliavam a perda. O padre Francisco era na verdade um santo. Anos atrás, em 1589, quando ele viera a primeira vez ao Novo Mundo, naufragara com seus companheiros nas costas da Colômbia. Durante semanas o pequeno grupo de náufragos vagueara pelas florestas litorâneas sem encontrar viva alma. Em breve alguns dos homens sucumbiram ao comer plantas venenosas, e o desespero apoderou-se do resto. Somente o padre Francisco conservou-se calmo. Insistiu com seus companheiros que permanecessem perto da costa. Outro barco, assegurou-lhes, chegaria em breve do Panamá e os levaria a salvo ao Peru.
- Eu me lembro quando ele finalmente chegou a Lima, - disse Mariana vagarosamente, - Ficamos tão desapontadas quando ele insistiu em deixar-nos quase imediatamente... Ah, senhora, ele já estava debilitado de tanto labutar, e no entanto não vacilou em andar mil e quatrocentas milhas, através de montanhas e selvas, para ir em missão à Argentina.
- E fez essa caminhada duas vezes, Mariana. Não esqueça isto.
- Sim, senhora; onze anos mais tarde, quando seu duro labor entre os índios terminara. Que boa alma ele era! Bem, vou buscar os rosários e medalhas.
Lá fora, no jardim, entre suas amadas arvores e flores, Rosa pensava também no padre Francisco. Jamais esqueceria aquele dia de Dezembro de 1604 em que o frade, revestido do burel pardo, pregara o famoso sermão na praça do mercado. Ela tinha então dezoito anos. Agora, seis anos depois, sua memória estava ainda vívida.
"Ele disse ao povo que fizesse penitência. - lembrava-se. - Repetiu que Deus destruiria Lima se não cessassem de ofendê-lo. Havia, aquela noite, bastantes padres para ouvir quem quisesse confessar-se. Inimigos se reconciliavam, bens roubados eram restituídos aos donos, três mil casamentos se celebraram. Ah, querido padre Francisco, dá-me um pouco daquele zelo pelas almas, que tão sinceramente possuías!"
Depois de dizer sua breve oração, Rosa encaminhou-se pela vereda que conduzia ao fundo do jardim. Aí esperava-a uma figura familiar.
- Dona Maria! Oh! não esperava vê-la esta manhã!
Dona Maria de Usátegui, esposa de D. Gonçalo, abraçou Rosa afetuosamente.
- Minha querida, eu vim de mansinho pelo portão do lado. Sua mãe ainda não sabe que eu estou aqui. Quero dizer uma palavrinha a você somente.
- As crianças não estão outra vez doentes?...
- Não, não. Estão muito bem. Rosa, meu bem, você gostaria de morar com D. Gonçalo e eu? Ser como uma filha nossa...
A moça olhou com estranheza a visita.
- Não compreendo...
- Claro que você não compreende. Mas meu marido e eu temos certeza de que você seria mais feliz conosco. Pois que sua mãe não pode entender a espécie de vida que você deseja, e que ela não se sentiu feliz em ver você entrar na Ordem terceira de S. Domingos...
A jovem riu-se. Ninguém perceberia que as palavras de D. Maria feriram-na como uma faca. Era bem verdade! Maria de Oliva não perdia uma oportunidade para demonstrar sua reprovação a terciárias dominicanas.
- Mamãe ainda não compreende. Acha difícil crer que eu continue a ser a mesma, debaixo deste hábito branco.
- Exatamente. Eu e meu marido já lhe ouvimos algumas criticas. Querida amiguinha, nós temos uma casa enorme, e muitos bens deste mundo. Por que não vem morar conosco? As crianças ficariam tão contentes!...
O resto daquele dia, e nos dias seguintes, Rosa ponderou o amável oferecimento de Dona Maria de Usátegui. Por fim decidiu recusar. Embora Maria de Oliva frequentemente achasse defeitos na vida de terciária dominicana, com tantas orações e sacrifícios, à qual sua filha se dedicara, Rosa sabia que suas aflições podiam transformar-se em grandes méritos.
"Há muito tempo - pensava - ofereci-me para rezar e sofrer pelos outros. Amado Senhor, não me deixeis fugir de qualquer pena agora. Que a falta de compreensão de Mamãe sirva para unir-me mais estreitamente a vós. Que isto contribua para fazer-me santa".
Passaram-se semanas, com sua incessante rotina de atividades comuns. Sempre vestida com o imaculado hábito de terceira, coberta com o véu, Rosa cuidava de suas flores e ervas, e se aplicava em suas finas costuras e bordados.
Andava completamente alheia aos rumores que se espalhavam pela cidade de que ela era tão santa como aqueles grandes servos de Deus, o Arcebispo Turíbio, o padre Francisco Solano e o irmão Martim de Porres. Dificilmente se passava um dia em que homens e mulheres não viessem pedir-lhe orações, consultá-la sobre um ou outro assunto, tocar sua famosa imagem do Menino Jesus, o "Pequeno Doutor" como ela dizia.
- Rosa é outra Santa Catarina de Sena, - dizia um ao outro.- Jejua o tempo todo. Dorme somente, duas horas por noite. Devotou-se inteiramente à salvação dos pecadores.
Casualmente, entretanto, algo de tudo isto chegou aos ouvidos da donzela. Foi logo procurar sua mãe com um estranho pedido. Queria permissão para ser uma eremita no jardim. Se ela se isolasse do mundo, se raramente aparecesse nas ruas, talvez o povo se esquecesse dela. Visto, porém, que o oratoriozinho que construíra quando criança, no fundo, entre as bananeiras, estava quase em ruínas, seria necessário fazer outro. E este segundo eremitério tinha de ser feito com material durável, com uma porta que se pudesse trancar.
Maria de Oliva recusou-se a ouvir qualquer sugestão. Já era bem desagradável ver sua linda filha num hábito religioso, saber que ela havia desprezado para sempre a oportunidade de ter um marido e filhos. Mas que fosse viver como eremita numa casinha de barro no fundo do jardim! - isso nunca!
Quatro anos se passaram. Rosa não perdeu a esperança de possuir sua casinha de adobes. Finalmente, assediada pelos rogos do padre Alonso, Dona Maria de Usátegui e D. Gonçalo, Maria de Oliva deu o sim desejado. Sim - Rosa podia enclausurar-se como um eremita, se o padre Alonso achava isso um gesto adequado. Podia recusar as visitas. Podia arruinar a saúde passando horas num cubículo úmido.
- Mamãe, como poderei jamais agradecer-lhe? - exclamou a jovem. - Eu o desejo há tanto tempo!
Maria suspirou ao contemplar sua filha então com vinte e quatro anos. Ainda era bonita, mas tão magrinha... O hábito branco não conseguia ocultar que durante anos Rosa vinha levando uma vida dificílima.
- As vezes não posso compreender por que você não entrou para um convento, minha filha. Que outra moça em Lima reza tanto como você?
Rosa sorriu, lembrando-se daquela tarde de domingo, quando uma força misteriosa a mantivera de joelhos em frente da Virgem do Rosário.
- Nunca tive vocação para freira, mamãe. Peço-lhe que acredite. E por favor, reze para que eu sirva bem a Deus, como eremita.
- Rezarei, - disse a mãe tristemente. - Mas lembre-se disto: se não fosse porque o padre Alonso achou que era direito, eu nunca teria dado consentimento. E'... é uma vida muito esquisita para uma moça.
Nos dias seguintes Rosa e Fernando estiveram muito ocupados. Escolheram um local para. o eremitério, desta vez pegado à casa e batido pelo sol. Uma área de um metro e meio por um metro e vinte, foi traçada no chão e perto, à mão, amontoaram grosseiros tijolos de adobe, de cor marrom clara e leves.
- Fernando, que faria eu sem você? - disse a donzela, enquanto se apressavam na construção da cela. - Você tem sido sempre tão bonzinho para mim, desde pequeninos.
- Ora, não é lá grande trabalho construir este quartinho, Rosa. O que me preocupa é como você vai conseguir viver numa casinha tão acanhada. Não podíamos fazê-la um bocadinho maior?
A jovem sacudiu a cabeça:
- Eu a quero bem pequena para não haver lugar para visitas. E só uma janelinha.
- E a porta? Como vai ser?
- Meu plano para a porta é especial. Tem de ser bem baixa, o bastante para uma pessoa passar engatinhada. Você compreende, quanto menor e menos confortável fizermos esta cela, tanto menos pessoas quererão vir ver-me.
O rapaz sorriu. Era verdade, sem dúvida. Quase nenhum dos conhecidos de sua mãe, por exemplo, haviam de querer passar de joelhos, arrastando-se, por uma portinhola.
- Diga-me como você a quer, e será assim, Rosa. Quero que tenha felizes recordações de mim, quando vier morar neste eremiteriozinho.
- Recordações? Você não vai embora, Fernando!?
- Vou, sim. Vou para o Chile no mês que vem.
- Negócios?
- Não. Tenciono entrar para o exército. Afinal de contas, tenho trinta anos, e é tempo de fixar-me em algum lugar.
Rosa abafou sua surpresa e desapontamento. Esse irmão querido falava a verdade. Muitos homens da idade dele já estavam casados, tinham um lar e família próprios... No entanto ela teria saudades dele...
- Rezarei por você todos os dias - disse ela gentilmente. - Não importa onde você vá, minhas preces o seguirão. Tenho certeza que você gostará de viver no Chile. Você casar-se-á com uma bela moça... e terá uma linda filhinha...
- De que está você falando? - perguntou Fernando incrédulo.
- E você vai dar o meu nome à meninazinha. Ela se chamará Maria Rosa.
- Bem, - disse Fernando com uma risada cordial. Uma coisa está certa do que você diz: se eu tiver uma filha, há de se chamar como você. Quem sabe... talvez algum dia ela até visite esta ermida.
Rosa olhou-o sorrindo. Embora não estivesse adivinhando, seu irmão dizia a verdade. Um dia Maria Rosa viria, evidentemente, a Lima, e seria uma célebre menina.
Mais uns dias de trabalheira e o eremitério de adobe estava pronto. A criançada dos Flores divertiu-se um bocado engatinhando para dentro e para fora, pela portinhola, e trepando numa cadeira a fim de espiar pela janelinha que dava para o jardim. Amigos e vizinhos e até alguns padres vieram ver a casinha de adobe construida por Rosa e Fernando. Alguns chegaram a medir o espaço ocupado, duvidando dos próprios olhos.
- Metro e meio de comprimento, um metro e vinte de largura, nem dois metros de altura! - exclamou assombrado o padre Velasquez. - Rosa, isto é pequeno demais!
- Padre, é bastante grande para Nosso Senhor e eu. Acho que serei muito feliz aqui.
Dona Maria de Usátegui que, entre os visitantes, também examinava o eremitério, pôs afetuosamente a mão no ombro da donzela.
- O convite ainda está de pé - murmurou. - Eu e meu marido ainda desejamos que você venha morar conosco. Avise-nos se mudar de ideia.
Rosa acenou que sim. Dom Gonçalo e Dona Maria eram tão bons amigos... Ela sabia que ambos preocupavam-se com sua saúde, com a vida árdua a que se dedicara.
- Não esquecerei vosso convite, - respondeu, -nem a vossa bondade. Agradeço a ambos por tudo, Dona Maria.
Rosa começou a morar no eremiteriozinho, mas não abandonou sua costura, seu bordado e o cultivo de suas flores e ervas. Quando caía a noite encerrava-se no cubículo e entregava-se a oração. Aí, rodeada do silêncio e da escuridão do jardim, dava largas a seu coração em louvores e pedidos.
Estes atos estavam agradando a Deus, pois Ele inundou de inúmeras graças a alma da nova eremita. Aparecia-lhe frequentemente como uma criancinha, encorajando-a a continuar em sua difícil vocação. Ensinou-lhe a nada recear enquanto depositasse n'Ele toda a confiança.
Nestas ocasiões Rosa pensava que morreria de pura felicidade. Que maravilha é a vida! dizia a si mesma. Qualquer alma, não importa a sua fraqueza, pode ser útil a seus semelhantes. Tudo necessário é pensar em Deus e em sua bondade. Virá, então, tal propensão de ser como Ele, de partilhar de sua verdade e beleza, que a alma não pode evitar que sua covardia se transforme em coragem, e começa a assemelhar-se a Deus. Devido a isto, arde em grande amor pelas outras almas, desejando que elas compartilhem também de sua felicidade.
"E' como um mendigo que finalmente ficasse rico", refletia Rosa. Enquanto é pobre, arreceia-se das outras pessoas, tem de si próprio um baixo conceito, sabendo que não fará jamais alguma coisa de grande aos olhos do mundo. (Ama vez, porém, que enriquece, muda-se tudo. Seu corpo definhado pela fome torna-se forte. Verifica que os outros olham para ele, e encontra uma verdadeira felicidade em fazê-los participar de sua riqueza.
Numa tarde de verão, Maria de Oliva saiu à procura de sua filha. O sol estava ardente e o jardim ostentava o colorido das flores que Rosa cuidava carinhosamente. Mas o rosto da mulher ensombrava-se de aborrecimento, enquanto se encaminhava para a pequenina ermida de adobe.
- Rosa! Estás aí?
Não houve resposta. Maria vislumbrou alguém movendo-se entre as fruteiras, e apressou-se naquela direção. Com certeza, Rosa estava colhendo laranjas que Mariana levaria ao mercado no dia seguinte.
- Rosa! Estás surda? Não me ouviste chamar-te?
A jovem descansou no chão um cesto quase cheio dos apetitosos frutos.
- Quer alguma coisa, mamãe?
- Naturalmente. Dona Isabel de Mejía veio ver-me e contou uma coisa que me aborreceu terrivelmente.
- Sua mãe não está doente outra vez?!
- Claro que não. Eu é que estou doente. Rosa, é verdade que disseste às pessoas que vai haver um convento de freiras dominicanas em Lima? E que dona Lúcia de la Daga será a primeira prioreza?
Um sorriso aflorou à face da moça.
- Sim, mamãe. E ele se chamará Mosteiro de Santa Catarina, em louvor de Santa Catarina de Sena.
A voz de Maria estava áspera.
- Dona Lúcia é uma senhora casada e muito feliz, com cinco filhinhos adoráveis. Por que hás de andar espalhando esses rumores de que ela vai ser freira?...
- Mas é verdade, mamãe. Vai haver um Mosteiro de Santa Catarina, e dona Lúcia irá para lá com sua irmã Clara. O padre Luís de Bilbao celebrará a primeira missa...
- Com que então, estás virando profeta, não é? Que sabes do futuro? Estás é perdendo o senso, desde que te meteste nessa mal-aventurada ermida.
Rosa baixou os olhos. Como havia ela de fazer sua mãe compreender que as notícias a respeito de Santa Catarina lhe tinham sido dadas na oração? Que sua amada amiga e padroeira, Santa Catarina de Sena, viera em pessoa contar-lhe do novo mosteiro?
- Sinto muito, mamãe. Não imaginei que a senhora ficasse tão aborrecida com o que eu disse a Dona Isabel.
- E não havia de ficar aborrecida? Que é que Dona Lúcia vai pensar de mim? E seu marido? Vê bem, disseste afinal de contas que o bom homem vai morrer... e os cinco filhinhos também. De outro modo, como poderia Dona Lúcia entrar para um convento?
Rosa sorriu levemente.
- Por favor, mamãe, não fique zangada. Tudo vai acontecer exatamente como eu disse.
- Chega! - exclamou Maria. - Daqui a pouco estarás contando a todo mundo que tua própria mãe vai fundar um convento. E eu não quero estas conversas. E' bastante desagradável.
A moça olhou o anel de ouro que Fernando lhe dera havia quatro anos. Lágrimas brilharam-lhe nos olhos.
- A senhora não vai fundar um convento, mamãe, mas entrar num, algum dia. Dona Lúcia lhe dará o hábito dominicano em Santa Catarina. A senhora será muito feliz lá, e eu prometo-lhe vir buscá-la quando a senhora estiver pronta para morrer.

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