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13 de julho de 2021

Santa Rosa de Lima - O Anjo dos Andes

V. DUAS HISTÓRIAS

A visita ao seminário era interessante, dias Dona Maria de Quinhones não se demorou, pois, como fez saber a Rosa, tinha outros lugares aonde ir.
- As Irmãs do Convento da Encarnação?
- Isso mesmo. Depois, talvez, teremos tempo de ir ao Convento da Conceição. E ao da Trindade também.
A carruagem de Dona Maria rodou ligeira pelas ruas estreitas. Rosa seguia com interesse as cenas animadas que se, lhe deparavam; no entanto, não eram os edifícios majestosos nem os inúmeros jardins multicores que lhe chamavam em primeiro lugar a atenção. O que lhe prendia o olhar era o povo nas ruas - aleijados, mendigos e criancinhas esfarrapadas. Havia tantos! E parecia terem esquecido até de sorrir.
Dona Maria lançou um olhar rápido à sua companheirazinha.
- Adivinho o que está pensando, meu bem.
Os olhos escuros da menina brilharam.
- Estava pensando que, se eu fosse um rapaz, iria amanhã para S. Domingos a fim de ser padre e fazer alguma coisa por toda essa pobre gente. Quantos deles nada sabem de Deus, Dona Maria. E não há padres bastante aqui no Peru, para ensinar-lhes. E' uma pena, não é?
A dama concordou.
- E' mesmo, minha filha. Mas, diga-me, por que você gostaria de ser dominicana? Por que não franciscana, ou jesuíta, ou agostiniana?
Rosa sorriu. Tanta gente estava sempre perguntando a mesma coisa.
- E' por causa de Santa Catarina de Sena, Dona Maria. Ela era terceira dominicana. E que pessoa extraordinária! Nós temos em casa um livro que conta a respeito dela. Já o li tantas vezes que acho que sei, de cor todas as palavras.
- Eu também li sobre ela. Não há dúvida que era uma pessoa extraordinária. Mas era uma terciária e passava seus dias no mundo, nem nunca entrou para um convento.
- Eu sei, Dona Maria. Ela pertencia à Ordem terceira. dominicana. Deve ser uma vida encantadora, já que ela gostou tanto.
- É uma vida penosa, minha filha. E' necessária uma graça especial para tornar-se santa, vivendo no mundo.
Rosa deu uma risada.
- Eu vou experimentar, Dona Maria. Não quero casar-me nem entrar para um convento. Pedi a S. Catarina que me ajude a ser como ela. A senhora vê, quando eu tinha cinco anos...
- Que houve?
- Ora, parece uma história muito tola, pois eu era então muito pequena.
Dona Maria animou-a com um sorriso.
- Você me conta a sua história e depois eu lhe conto a minha. Enquanto isso teremos chegado ao mosteiro da Encarnação. Mas, naturalmente, se você quer guardar segredo...
Rosa sacudiu a cabeça.
- Não é tão importante. Além disso, quando eu ficar mais velha e toda gente esperar que eu me case, terei de explicar por que não posso. Portanto, eu conto primeiro à senhora. Sei que me compreende.
- Obrigada, meu bem. Respeitarei sua confidência.
- Foi numa tarde em que eu e Fernando estávamos brincando no jardim, -começou Rosa. - Nesse tempo eu tinha cinco anos e ele, sete. Mariana tinha acabado de lavar-me os cabelos e eu estava satisfeita de ver como eles brilhavam ao sol. Eram mais sedosos e cheios de cachinhos. Eu estava orgulhosa de meus cachos, Dona Maria.
- Não há dúvida de que eram bonitos. Mas Fernando começou a caçoar de mim. Fez de conta que era um padre pregando um sermão, e pôs-se a falar sobre a loucura de ser alguém orgulhoso de suas roupas e aparências. Dizia que, por essas coisas é que ia tanta gente para o inferno.. Eu, me sentara a ouvi-lo, e ele subitamente. apanhou um punhado de lixo e atirou-o sobre meus cabelos limpos. "Não precisa mais ficar tão orgulhosa", exclamou.
No primeiro momento fiquei mesmo zangada com Fernando. Depois, porém, meditei e conclui que ele tinha razão. Não devemos, realmente, ser tão convencidos por causa de nossa aparência, ou por termos dinheiro, saúde ou educação. E' claro que ele estava só brincando, nem nunca pensou que eu o levasse a sério. Mas eu o levei, e então toda gente ficou zangada comigo.
- Por quê, minha filha?
- Porque eu decidi cortar meus cachos, como fez S. Catarina quando era uma menina; assim eu não ficaria mais orgulhosa de minha aparência.
Dona Maria não pôde deixar de rir.
- Sua mãe nunca me falou nisso, e é com satisfação que vejo que o seu cabelo cresceu novamente. E' de fato uma cabeleira bonita.
- Obrigada, Dona Maria. Há mais ainda na minha história. A senhora imagine, quando cortei meus cabelos, prometi a Nosso Senhor que o amaria sempre, mais do que a qualquer pessoa e qualquer coisa. Eu tinha só cinco anos, mas sabia que tudo que eu desejava na vida era servi-lo e trabalhar por sua glória aqui na terra. Eu não queria nem marido, nem lar, nem filhos - só Ele.
- Compreendo...
- Mamãe, naturalmente, não sabe nada disso, e com certeza vai ficar muito zangada quando eu lho disser. Mas é assim, Dona Maria. E ninguém poderá fazer-me mudar de opinião. Pertenço a Deus, para sempre.
Dona Maria sorriu.
- E' uma história adorável - murmurou brandamente. - E estou certa de que, algum dia, terá um esplêndido final.
Não fique, porém, surpreendida se for um pouco diferente do que você planejou.
- Diferente?
- Sim. Quando você .crescer, pode achar que sua vocação é para freira, e não terceira dominicana como S. Catarina. Afinal, considerando os dons que Deus lhe concedeu, talvez seja mais acertado servi-lo na vida religiosa do que no mundo.
- Talvez, Dona Maria. Mas agora eu acho que não.
A nobre senhora contemporizou.
- Bem, veremos. Agora vou eu contar-lhe a minha história. Estamos quase no convento da Encarnação e desejo que você a ouça antes de entrarmos.
- Oh! sim, Dona Maria. Eu tinha quase esquecido que a senhora também tem uma história para contar.
A dama recostou-se nas almofadas da carruagem e começou.
- Foi a 6 de Janeiro de 1535, que D. Francisco Pizarro fundou nossa cidade de Lima. Você o sabe tão bem como eu, Rosa. E sabe também que; ele foi assassinado por seus inimigos em 1541. Pois bem, alguns anos depois as coisas andaram atrapalhadas no Peru. Alguns dos sequazes de Pizarro quiseram governar o país, e instigaram o povo a revoltar-se contra o dirigente legal, o rei da Espanha. Um desses rebeldes era o capitão Francisco Hernandez de Giron. No entanto, o prenderam finalmente e o executaram a 9 de Dezembro de 1554. Puseram-lhe o corpo num saco e, amarrado a um cavalo, o arrastaram pelas ruas de Lima.
- Que coisa horrorosa!
- Isso mesmo. Queriam com isto escarmentar a outros que talvez quisessem revoltar-se contra o rei da Espanha. Entretanto, quem mais sofreu com esse espetáculo foi a esposa do capitão, Dona Mência. Ela assistiu a todo o terrível castigo - até ao dilaceramento do corpo de seu esposo pelas pedras das ruas. Passaram-se semanas inteiras até que se lhe atenuasse a lembrança daquelas cenas. Por fim comunicou a sua mãe, D. Leonor Portocarrero, que desejava passar o resto de seus dias rezando pela alma do capitão Francisco. Ainda que ele tivesse morrido como um criminoso comum, talvez a misericórdia divina o tivesse livrado do inferno. Ele podia estar até então no purgatório, sofrendo por seus pecados e clamando por orações de seus amigos.
- Que fez ela, então, Dona Maria?
- Dona Leonor concordou, pois ela também tinha desejado devotar-se à oração. Foram, portanto, visitar o Padre André, prior do convento dos agostinianos, que ficava perto. Contaram-lhe a respeito do infeliz capitão, e explicaram-lhe que desejavam ser freiras, e passar o resto de seus dias rezando pela alma de seu marido e genro.
Rosa interrompeu sorrindo.
- E ele consentiu, Dona Maria? Ajudou-as a fundar em Lima o primeiro convento para senhoras?
Dona Maria mirou sua companheira.
- Você sabe esta história tão bem como eu, Rosa! Por que não me disse?
- Porque eu gosto de ouvir a senhora falar. A senhora torna tudo tão interessante. Realmente, eu não conheço a história toda. Essa parte do corpo do pobre capitão arrastado pelas ruas, por exemplo.
- Bem, é verdade. Como é certo também que Dona Leonor e Dona Mência receberam o hábito agostiniano das mãos do padre André e iniciaram a vida religiosa em sua própria casa. Isto foi aí por 1558. Algumas pessoas não aprovaram de modo algum a ideia. Achavam que as duas senhoras deviam esperar até terem mais dinheiro e benfeitores. Mas, você compreende, era preciso não esquecer a alma do capitão.
- Elas não tiveram de esperar muito tempo para terem um convento de verdade, não foi?
- Três anos apenas. Lá está ele nesta rua, minha filha, - o Convento da Encarnação. Foi construido em 1561.
As torres do mosteiro erguiam-se em frente das visitantes, e o carro seguia ao longo do muro de adobes que separava da rua o jardim. Rosa virou-se para sua companheira, enquanto o carro se dirigia para o portão principal.
- Lima tem sido a primeira em muitas coisas, Dona Maria. No outro dia papai estava nos contando que nossa universidade é a primeira de toda a América, e foi fundada no convento dos dominicanos a 12 de Maio de 1551 pelo padre Tomás de San Martin.
- Ha, ha, você gosta mesmo dos dominicanos, Rosa. Está sempre a cantar-lhes os louvores.
- Mas é verdade, Dona Maria. A Universidade de S. Marcos foi a primeira...
- Não esqueça o seminário que acabamos de visitar. E' um pioneiro também. E temos o primeiro hospital Sant'Ana.
- Fundado por um dominicano, Dona Maria, em 1549. A senhora não esqueceu que nosso primeiro Arcebispo, Jerônimo de Loaysa, pertencia à família de S. Domingos...
A dama levantou as mãos em cômico desespero.
- Vamos, minha filha. Você sabe mais do que eu a respeito da história de Lima.
Rosa tomou o cesto de mantimentos que D. Maria trouxera para as freiras. Enquanto seguia sua amiga em direção ao pesado portão de madeira, acudiu-lhe uma ideia esplêndida. Quem sabe, Lima seria a primeira em mais alguma coisa - o primeiro lugar das Américas a possuir um santo canonizado!
"Talvez o próprio tio de D. Maria, o Arcebispo Turibio", pensou ela. "E' um homem tão santo!"

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