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21 de abril de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 347

ARREPENDER-ME... POR QUÊ?

Terrivelmente trágica é a história de um velho mendigo de Lião, encontrado na maior miséria física e moral. A algumas senhoras, que o visitaram e se prontificaram a chamar um padre, respondeu:
— Um padre para mim? Não, nunca! Meu pai, um bom cristão, faleceu quando eu tinha quatro e minha irmã cinco anos; minha mãe não tinha fé e toda hora vociferava contra a religião e as patranhas dos padres. Nós lhe demos crédito, crescemos egoístas e libertinos, gozando a vida conforme os exemplos de nossa mãe, que nos repreendia, mas nós não fazíamos caso e a tratávamos de louca. Um dia ela adoeceu seriamente. Chamamos o médico e uma enfermeira, porque nós não podíamos renunciar a vida folgazona e ficar aos pés da velha. Uma noite, ao voltarmos de um café-dançante, perguntamos-lhe: Como vai, mãe?
Muito mal. Choro os meus pecados, porque não vos eduquei como devia. Que hei de responder a Deus? Por caridade, chamai-me um padre!
— Isso, nunca! Não dizias que isso de religião e de padres são patranhas?... Aqui não entrará padre!
— Mas estou arrependida; retrato tudo quanto vos disse. Um Padre, por caridade, que eu morro.
— Dorme e deixa-me em paz! — disse-lhe eu.
— E tu, Laura, queres deixar-me morrer como um cão? um padre, por favor!
E, vendo que minha irmã se sentia comovida, chamei-a:
— Vamo-nos embora; a mãe está delirando.
E, assobiando, saí para a rua com minha irmã. Apenas tínhamos transposto a porta, ouvimos um grito rouco e depois silêncio. Quando chegou a enfermeira, encontrou-a morta. Minha irmã casou-se, mais tarde, com um maçon e foi tão infeliz que se suicidou. Eu, depois de esbanjar toda a herança paterna, fiquei reduzido a este estado miserável. Assim foi a minha vida.
As senhoras, horrorizadas com toda aquela tragédia, queriam chamar-lhe um padre para ele reconciliar-se com Deus e reparar o passado. Ele, porém, respondeu:
— Não, é inútil insistir; jurei ódio ao padre.
— Mas, ao menos, arrependa-se...
— Arrepender-me, por quê? segui os ensinamentos de minha mãe.
— Mas ela arrependeu-se, retratou-se.
— Não, não me arrependo e não quero saber de padre.
Chegara o seu último instante. E morreu como um pagão.
Coisa horrível cair assim nas mãos do eterno Juiz!

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