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10 de abril de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I
Jesus condenado à morte

 «Jesus está de pé diante do governador romano»: Stetit ante praesidem. Está de pé, porque, como segundo Adão, é o chefe de toda a raça que vai resgatar com a Sua imolação. O primeiro Adão «merecera a morte pelo Seu pecado»: Stípendia enim peccatí mors. Jesus, inocente, carregado com os pecados dos homens, tem de os expiar pelo Seu sacrifício cruento. Os príncipes dos Sacerdotes, os fariseus, o Seu próprio povo «rodeiam-no como touros furiosos». Os nossos pecados clamam e exigem tumultuosamente a morte do Justo: Tolle, tolle, crucifige eum! O covarde governador romano «entrega-lhes a Vítima, para ser pregada na cruz»: Tradidit eis illum ut crucifigeretur.
 Que faz Jesus? Se está de pé por ser o nosso chefe, se, como diz S. Paulo, «dá testemunho» da verdade da Sua doutrina, da Divindade da Sua pessoa e da Sua missão, no entanto, interiormente curva-se diante da sentença pronunciada por Pilatos; reconhece nele um poder autêntico: Non haberes potestatem adversun me ullam, nisi tibi datum esset desuper. Neste poder terrestre, indigno mas legítimo, Jesus vê a majestade do Pai. E que faz? «Entrega-se mais do que é entregue»: Tradebat judicanti se injuste. Humilha-se, obedecendo até à morte; aceita voluntariamente por amor de nós, para de novo nos dar a vida, a sentença de condenação: Oblatus est quia ipse voluir. «Assim como a desobediência dum só homem, Adão, arrastou um grande número à perda, assim também a obediência dum só, Jesus Cristo, os estabelecerá na justiça».
 Devemos unir-nos a Jesus na Sua obediência, aceitar tudo o que o nosso Pai dos Céus nos impuser, seja por quem for, por um Herodes ou por um Pilatos, uma vez que a sua autoridade seja legítima. Aceitemos também, desde já, a morte, em expiação dos nossos pecados, com todas as circunstâncias de que aprouver à Providência rodeá-la; aceitemo-la como homenagem prestada à justiça e santidade divinas ultrajadas pelos nossos pecados: unida à de Jesus, tornar-se-á «preciosa aos olhos do Senhor».
 Meu divino Mestre, uno-me ao Vosso Coração Sagrado, na sua completa submissão, no seu inteiro abandono à vontade do Pai. Que a virtude da Vossa graça produza em minha alma esse espírito de submissão que, sem reserva e murmuração, me entregue à vontade do Alto, a tudo o que Vos aprouver enviar-me no momento em que deva deixar este mundo.


 II
 Jesus com a cruz aos ombros

"Pilatos entregou-lhes Jesus para ser crucificado, e eles levaram-no carregado com a Sua cruz»: Bajulans sibi crucem. Jesus tinha praticado um ato de obediência, entregara-se à vontade do Pai; e agora o Pai mostra-Lhe o que Lhe impõe a obediência: a cruz. Aceita-a, como vinda das mãos do Pai, com tudo o que ela encerra de dores e ignomínias. Naquele momento, Jesus aceitava o aumento de sofrimentos que essa pesada cruz vinha trazer aos Seus ombros doridos, as torturas indizíveis que afligiriam os Seus sagrados membros no momento da crucifixão; aceitava os amargos sarcasmos, as odiosas blasfêmias com que os seus piores inimigos, na aparência triunfantes, iam oprimi-Lo, apenas O vissem suspenso do infame patíbulo; aceitava a agonia de três horas, o abandono por parte do Pai ... Jamais poderemos sondar o abismo de aflições a que o nosso divino Salvador se sujeita ao receber a cruz. Naquele momento, Jesus Cristo, que nos representava a todos e ia morrer por nós, aceitava a cruz por todos os Seus membros, por cada um de nós: Vere languores nostros ipse tulit, et dolores nostros ipse portavit. Uniu então todos os sofrimentos do Seu corpo místico aos Seus próprios, comunicando-lhes, nessa ocasião, todo o seu valor e mérito.
 Aceitemos, pois, a nossa cruz, em união com Ele, como Ele, para sermos dignos discípulos deste divino chefe. Aceitemo-la sem discutir, sem murmurar. Por muito pesada que fosse para Jesus a cruz que o Pai Lhe impunha, acaso fez diminuir o Seu amor, a Sua confiança para com Ele? Pelo contrário. "Hei de beber o cálix da amargura que meu Pai me apresenta»: Calicem quem dedit mihi Pater, non bibam illum? Seja assim conosco. «Se alguém quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me». Não sejamos daqueles que S. Paulo chama "inimigos da cruz de Cristo". Antes tomemos a nossa cruz, aquela que Deus nos envia. É na aceitação generosa desta cruz que acharemos a paz. Nada dá maior paz à alma que sofre, do que este completo abandono à vontade divina.
 Meu Jesus, aceito todas as cruzes, todas as contradições, todas as adversidades que o Pai me destinou. Que a unção da Vossa graça me dê a força de levar estas cruzes com o mesmo abandono que nos mostrastes ao receber a Vossa por amor de nós. "Que eu não busque a minha glória senão na participação dos Vossos sofrimentos». 

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