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3 de abril de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II

No sacrifício de Jesus tudo é perfeito: o amor que o inspira e a liberdade com que o realiza. Perfeito também no dom oferecido: Cristo oferece-se a Si mesmo: Semetipsum tradídít.
 Jesus Cristo oferece-se todo; a Sua alma e o Seu corpo são dilacerados, esmagados pelos sofrimentos; não há nenhum que Jesus não experimente. Se lerdes atentamente o Evangelho, vereis que os sofrimentos de Jesus foram dispostos por forma tal, que todos os membros do Seu sagrado corpo fossem atingidos, todas as fibras do Seu coração dilaceradas pela ingratidão da turba, pelo abandono dos Seus, pelas dores de Sua Mãe, Sua alma santa padecesse todas as afrontas e todas as humilhações que um homem pode suportar. Realizou ao pé da letra a ·profecia de Isaías: "Muitos ficaram estupefatos ao vê-Lo, tão desfigurado estava ... Já não possui forma nem beleza para atrair os nossos olhares ... Apareceu-nos como um leproso, inteiramente irreconhecível"...
 Ainda agora vos falei da agonia no Horto das Oliveiras. Jesus Cristo, que nunca exagera, revela aos Apóstolos que «a Sua alma inocente está oprimida por uma tristeza tão pungente, tão amarga, que é capaz de Lhe dar a morte: Trístis est anima mea usque ad mortem. Que abismo! Um Deus, Poder e Beatitude infinita, "acabrunhado pela tristeza, pelo pavor e pelo tédio»: Coepit pavere, et taedere et maestus  esse! O Verbo Incarnado conhecia todos os sofrimentos que iam cair sobre Ele durante as longas horas da Sua Paixão. Esta visão fazia nascer na Sua natureza sensível toda a repulsa que teria sentido uma simples criatura; na Divindade a que estava unida, a Sua alma via claramente todos os pecados dos homens, todos os ultrajes feitos à santidade e ao amor infinito de Deus.
 Tomara sobre si todas essas iniquidades, revestira-as, para assim dizer; sentia pesar sobre a Sua cabeça toda a cólera da justiça divina: Ego sum vermis, et non homo: opprobrium horminum et abjectio plebis. Previa que, para muitos homens, o Seu sangue seria derramado inutilmente, e esta visão levava ao cúmulo a amargura da Sua santa alma. Mas, como vimos, Jesus Cristo tudo aceita. Levanta-se, sai do Jardim e vai ao encontro dos Seus inimigos.
 Começa neste ponto para Nosso Senhor a série de humilhações e sofrimentos que mal podemos tentar descrever.
 Traído pelo beijo de um dos Seus apóstolos, acorrentado pela soldadesca como um malfeitor, é levado ao sumo sacerdote. Ali «cala-se» no meio das falsas acusações contra Ele proferidas: llle autem tacebat.
 Fala apenas para proclamar que é o Filho de Deus: Dixisti, ego sum. Esta confissão é a mais solene de quantas jamais foram feitas da Divindade de Cristo. Jesus, rei dos mártires, morre por haver confessado a Sua Divindade, e todos os mártires darão a vida pela mesma causa.
 Pedro, o chefe dos Apóstolos, seguira de longe o divino Mestre; tinha prometido não O abandonar. Pobre Pedro! Sabeis como, por três vezes, renegou a Jesus. Foi esse, sem dúvida, para o nosso divino Salvador um dos mais profundos sofrimentos daquela terrível noite.
 Os soldados guardam Jesus e cobrem-No de injúrias e maus tratos. Não podendo suportar aquele olhar tão meigo, vendam-Lhe os olhos. Dão-Lhe bofetadas. Têm até a ousadia de manchar com vis escarros aquela face adorável que os Anjos contemplam extasiados. 
O Evangelho mostra-nos, em seguida, como Jesus foi conduzido, logo de manhã, ao sumo sacerdote, depois arrastado de tribunal em tribunal; tratado por Herodes como louco e insensato, Ele, a Sabedoria eterna; açoutado por ordem de Pilatos; os algozes ferem sem dó a Vitima inocente, cujo corpo se torna logo uma chaga viva. E tão cruel flagelação não basta a estes homens, que já nem homens são; enterram na cabeça de Jesus uma coroa de espinhos, e cobrem-No de escárnios.
O covarde governador romano imagina que o ódio dos judeus ficará satisfeito vendo Jesus Cristo naquele triste estado; apresenta-O à multidão! Ecce homo, «Eis aqui o homem»! ... Contemplemos neste momento o divino Mestre mergulhado nesse abismo de sofrimentos e humilhações, e pensemos que o Eterno Pai também no-Lo apresenta, dizendo: "Eis aqui o meu Filho, o esplendor da minha glória, ferido por causa dos crimes do meu povo»: Propter scelus populí mei percussi eum ...
 Jesus ouve os gritos daquela populaça enfurecida que Lhe prefere um bandido e, em paga de todos os benefícios que d.Ele recebeu, reclama a Sua morte: Crucifige, crucifige eum. 
É, pois, pronunciada a sentença de morte; e Jesus Cristo, tomando em seus ombros feridos a pesada cruz, dirige-se para o Calvário. Quantas dores ainda Lhe não estavam reservadas! A vista de Sua Mãe tão ternamente amada e cuja dolorosa aflição compreende melhor do que ninguém, o despojarem-No das Suas vestes, o cravarem-Lhe as mãos e pés, a sede ardente. Depois os odiosos sarcasmos dos seus piores inimigos: «Tu que destróis o templo de Deus salva-te a ti mesmo e acreditaremos em ti... Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo». Enfim, o abandono por parte do Pai, cuja santa vontade cumpriu sempre: "Pai, porque me abandonaste?». 
Bebeu realmente o cálice até às fezes; realizou até os mais pequenos pormenores tudo o que fora predito. Por isso, depois de cumprir tudo, pôde proferir o Seu Consummatum est. Sim, "tudo está consumado»; só Lhe resta entregar a alma ao Pai: Et inclinato capite, tradídit spiritum. 
Quando a Igreja, na Semana Santa, nos lê a narrativa da Paixão, interrompe-a neste ponto para adorar em silêncio. 
Prostremo-nos com ela; adoremos esse Crucificado que acaba de exalar o último suspiro: Ele é realmente o Filho de Deus: Deus verus de Deo vero. Sobretudo tomemos parte, em Sexta-feira Santa, na adoração solene da Cruz, que deve, no espírito da Igreja, reparar os inumeráveis ultrajes feitos à divina Vitima pelos Seus inimigos no Gólgota. Durante essa impressionante cerimônia, a Igreja põe nos lábios do Salvador inocente exclamações comovedoras. Aplicam-se ao pé da letra ao povo deicida. Podemos ouvi-las dando-lhes um sentido espiritual; farão nascer em nossas almas vivos sentimentos de compunção. «Ó meu povo, que te fiz Eu, e em que te contristei? Responde. Que devia fazer por ti, que não tenha feito? Plantei-te como a mais bela das minhas vinhas, e não tens para mim senão amargura. Pois, tendo Eu sede, deste-me a beber vinagre, e com uma lança atravessaste o lado do teu Salvador.... Por amor de ti, castiguei o Egito em seus primogênitos, e tu açoutaste-me ... Para te tirar do Egito, afoguei Faraó no Mar Vermelho, e tu entregaste-me ao príncipe dos sacerdotes ... Abri-te passagem pelo meio das ondas, e tu abriste-me o lado com uma lança ... Fui à tua frente numa coluna luminosa, e tu levaste-me ao pretórío de Pilatos ... Alimentei-te com o maná no deserto, e tu feriste-me com bofetadas e açoutes ... Dei-te um cetro real, e tu colocaste-me na cabeça uma coroa de espinhos ... Elevei-te entre as nações, mostrando grande poder, e tu levantaste-me no patíbulo da cruz"!  Deixemos estes queixumes dum Deus que sofre pelos homens tocar os nossos corações. Unamo-nos a essa obediência cheia de amor que O conduziu à imolação da cruz: Factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. Digamos-Lhe: « Ó divino Salvador, que tanto sofrestes por amor de nós, prometo-Vos fazer o possível por não mais pecar. Fazei, pela Vossa graça, ó Mestre adorável, fazei com que morramos para tudo quanto é pecado, apego ao pecado ou à criatura, e que só vivamos para Vós».
 E que, diz S. Paulo, «o amor de que Jesus Cristo nos deu prova morrendo por nós deve fazer com que aqueles que vivem já não vivam para si, mas para Aquele que morreu por eles»: Ut et qui vivunt, jam non sibi vivant, sed ei qui pro ípsís mortuus est. 

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