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11 de abril de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III
 Jesus cai pela primeira vez

«Será um homem de dores e conhecerá a fraqueza»: Vir dolorum sciens infirmitatem. Esta profecia de Isaías cumpriu-se à risca. Jesus, exausto pelos sofrimentos da alma e do corpo, sucumbe sob o peso da cruz. A omnipotência cai de fraqueza. Esta fraqueza de Jesus honra o seu poder divino. Por ela, satisfaz pelos nossos pecados, repara as revoltas do nosso orgulho e "levanta o mundo, incapaz de se salvar»: Deus qui in Fillii tui humilitate jacentem mundum erexisti ... Além disso, naquele momento merecia-nos a graça de nos humilharmos pelos nossos pecados, de reconhecermos as nossas faltas, de as confessarmos sinceramente; merecia-nos a graça da força que sustenta a nossa fraqueza.
 Com Jesus Cristo, prostrado diante do Pai, detestemos as exaltações da nossa vaidade e ambição; reconheçamos a extensão da nossa fraqueza. Deus abate os soberbos; a humilde confissão da nossa fraqueza atrai a Sua misericórdia: Quomodo miseretur pater filiorum ... quoniam ipse cognovit figmentum nostrum. Nos momentos em que nos sentirmos fracos diante da cruz, da tentação, do cumprimento da vontade divina, imploremos a misericórdia de Deus: Miserere mei, Domine, quoniam infirmus sum. Proclamemos humildemente as nossas enfermidades, e então brilhará em nós o triunfo da graça, só a qual nos poderá salvar: Virtus in infirmitate perficitur.
 Ó Jesus, caído sob o peso da cruz, eu Vos adoro. «Força de Deus», mostrais-Vos acabrunhado de fraqueza para nos ensinardes a humildade e confundirdes o nosso orgulho. "Ó Pontífice, cheio de santidade, que quisestes passar pelos nossos sofrimentos para Vos tornardes semelhante a nós e compartilhardes das nossas enfermidades, não me abandoneis a mim mesmo, pois de mim não sou mais que fraqueza: «que habite em mim a Vossa força», para não sucumbir à tentação: Ut inhabitet in me virtus Christi. 


IV
 Encontro de Jesus com Sua Mãe

 Chegou para a Virgem Maria o dia em que se vai realizar completamente a profecia de Simeão: «Uma espada de dor atravessará a tua alma». Assim como se unira a Jesus, oferecendo-O outrora no templo, assim também quer agora mais do que nunca unir-se aos Seus sentimentos, partilhar dos Seus sofrimentos, nesta hora em que Jesus vai consumar o Seu sacrifício. Dirige-se para o Calvário, onde sabe que seu Filho vai ser crucificado. Pelo caminho, encontra-se com Ele. Que dor imensa ao vê- Lo em tão doloroso estado! Trocam-se os olhares, e o abismo de sofrimentos de Jesus atrai o abismo da compaixão da Sua Mãe. Que não faria ela por Ele?
 Este encontro foi ao mesmo tempo fonte de dor e princípio de alegria para Jesus. Dor, por ver a profunda desolação em que o Seu estado ia mergulhar a alma de Sua Mãe; alegria, pelo pensamento de que os Seus sofrimentos iam satisfazer o preço de todos os privilégios de que ela era e devia ser cumulada.
 Jesus quase nem se detém. Tinha um Coração o mais terno possível. Junto ao túmulo de Lázaro verteu lágrimas; chorou as desgraças de Jerusalém. Nunca filho algum amou tanto sua mãe; quando a encontrou tão desolada, a caminho do Calvário, sentiu, sem dúvida, comoverem-se todas as fibras do Seu Coração. E, no entanto, segue para a frente, continua o Seu caminho para o lugar do suplício, porque é essa a vontade do Pai. Maria associa-se àqueles sentimentos, sabe que tudo se deve cumprir para nossa salvação; compartilha dos sofrimentos de Jesus, acompanha-O até ao Gólgota, onde se tornará corredentora.
 Nada humano deve reter a nossa ascensão para Deus; nenhum amor natural deve embaraçar o nosso amor a Cristo; devemos continuar para a frente, para nos conservarmos unidos a Ele.
 Peçamos à Santíssima Virgem que nos associe à contemplação dos sofrimentos de Jesus e nos faça participar da compaixão que Lhe testemunhou, para assim concebermos ódio ao pecado que exigiu semelhante expiação. Quis Deus muitas vezes, para manifestar sensivelmente o fruto que produz a contemplação da Paixão, imprimir no corpo de alguns santos, como S. Francisco de Assis, os estigmas das chagas de Jesus ... Não devemos desejar estes sinais exteriores, mas devemos pedir que a imagem de Jesus crucificado se imprima em nossos corações. Peçamos à Santíssima Virgem esta preciosa graça: Sancta mater istud agas, crucifixi fige plagas cordi meo valide. 
Ó Mãe,"eis o vosso Filho»; pelo amor que Lhe dedicais, fazei com que a lembrança dos Seus sofrimentos nos acompanhe por toda a parte. É em nome d'Ele que vo-lo pedimos. Não no-lo podeis recusar; seria recusá-lo a Ele próprio, pois somos seus membros. Ó Jesus, eis a Vossa Mãe; por amor dela, concedei-nos a graça de nos unirmos aos vossos sofrimentos,  para nos tornarmos semelhantes a Vós. 

V
 Jesus ajudado pelo Cireneu a levar a cruz

 «Ao saírem encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, ao qual obrigaram a levar a cruz de Jesus». Jesus está exausto; conquanto seja o Todo Poderoso, quer que a Sua santa Humanidade, carregada com todos os pecados do mundo, sinta o peso da justiça e da expiação. Mas quer que O ajudemos a levar a cruz. Simão representa-nos a todos, e é a todos nós que Jesus Cristo pede que compartilhemos dos Seus sofrimentos. Só assim seremos Seus discípulos. "Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me». O Pai decretou que uma parte das dores fosse deixada ao corpo místico de Seu Filho, que uma parte da satisfação fosse suportada pelos seus membros: Adímpleo ea quae desunt passionum Christi in carne mea pro corpore ejus, quod est Eclesia. Jesus assim o quer, e foi par  manifestar este decreto divino que aceitou a ajuda de Simão.
 Mas ao mesmo tempo mereceu-nos a graça da fortaleza para suportarmos generosamente as provações; comunicou à Sua cruz o lenitivo que torna tolerável a nossa; porque, levando a nossa cruz, é bem a d"Ele que aceitamos. Une os nossos sofrimentos aos Seus e, por esta união, confere-lhes um valor inestimável, fonte de grandes merecimentos. «Assim como a minha Divindade, dizia Nosso Senhor a Santa Matilde, atraiu a Si os sofrimentos da minha Humanidade, fazendo-os Seus (é o dote da esposa), assim Eu transportarei as tuas dores para a minha Divindade, uni-las-ei à minha Paixão e far-te-ei participar daquela glória que o meu Pai conferiu à minha santa Humanidade por todos os Seus sofrimentos.
 É o que S. Paulo nos dá a entender na sua carta aos Hebreus, com o fim de nos animar a tudo suportarmos por amor de Cristo: "Sigamos com perseverança a carreira que nos está aberta, com os olhos fixos em Jesus, o mais perfeito guia da fé. Em lugar da alegria que Lhe era oferecida, desprezando a ignomínia, aceitou a cruz e, desde então, mereceu sentar-se à direita do trono de Deus. Considerai Aquele que sofreu em Sua pessoa tão grande contradição da parte dos pecadores a fim de vos não deixardes sucumbir de desânimo».
 Meu Jesus, aceito os bocadinhos que da Vossa cruz tirais para mim. Aceito todas as contrariedades, contradições, sofrimentos, dores que permitis ou me enviais; aceito-os como parte de expiação. Uni este pouco que faço aos Vossos indizíveis sofrimentos, pois é deles que os meus tirarão todo o seu merecimento. 

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