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6 de outubro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

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Embora seja  sempre  o mesmo Salvador, o mesmo Jesus,  a  trabalhar na mesma obra da nossa santificação, contudo cada mistério constitui para  as  nossas almas uma nova  manifestação  de Cristo : cada um tem a sua beleza especial, o seu esplendor particular, a sua graça própria. A  graça que  nos  vem  da festa do Natal não tem o mesmo carácter que a graça que nos traz a celebração da Paixão; devemos  alegrar- nos no Natal, entristecer-nos por  causa  dos nossos pecados quando
contemplamos as dores indizíveis pelas quais expia Cristo as nossas faltas ; do mesmo modo a alegria inte­rior que nos inunda a alma na Páscoa brota de fonte diferente e possui  esplendor  diverso daquele que nos faz exultar quando cantamos a vinda do Salvador ao mundo.
Os Padres da Igreja  falam  mais duma vez do que eles chamam vis mysterii, a virtude, a força, a significação própria do mistério  que  se  celebra. Podemos aplicar aos cristãos, a respeito de cada um  dos  mistérios de Cristo, o que S. Gregório de Nazianzo diz aos fiéis por ocasião da festa da  Páscoa :  Nihil autem daturus est tantum, quantum  si  se ipse obtulerit hujus mystetii rationem probe intelligentem.  «É  impossível apresentar a Deus dádiva mais agradável do que oferecer- nos a nós mesmos numa perfeita inteligência do mistério».
Espíritos há que não  vêem  na celebração dos mistérios de Cristo mais do que a perfeição das cerimônias, a beleza dos cantos, o esplendor dos ornamentos, a harmonia dos ritos. Tudo isto pode haver, e hão de fato; tudo isto é excelente.
Em primeiro lugar, porque a lgreja, Esposa de Cristo, tendo regulamentado com toda a minúcia o culto do seu Esposo, a sua perfeita observância dá honra á  Deus e a Seu Filho Jesus.  «É  lei estabelecida para todos os mistérios do Cristianismo deverem eles apre­sentar-se primeiro aos sentidos para depois passarem à  inteligência ; e assim foi preciso para honrar Aquele que, sendo invisível por natureza, quis por amor de nós aparecer sob forma sensível».
Depois, é uma lei psicológica da nossa natureza -­ matéria e  espírito - irmos do visível ao invisível. Os elementos externos da celebração dos mistérios devem servir como de degraus às nossas almas para ascenderem à  contemplação e ao amor das realidades celestes e so­brenaturais. Aliás, é a economia da própria Incarnação como cantamos no Natal: Ut dum visibiliter Deum cognoscimus,  PER HUNC  in invisibilium amorem rapiamur.
Estes  elementos exteriores têm a sua utilidade : mas não devemos prender-nos a eles de modo exclusivo. Eles não são outra coisa que· a fímbria das vestes de Cristo; a glória, o esplendor, a virtude dos mistérios de Jesus é principalmente interior, e é isto que devemos buscar antes de tudo. A santa Igreja pede mais duma vez a Deus, como fruto da Comunhão, que nos dê a in­teligência da virtude própria de cada mistério, para  os compreendermos e deles podermos viver :  U t mysteria
quae solemni celebramus officio, purificatae mentis intelligentia consequamur .  Isto é que é conhecer a Cristo, como quer  S.  Paulo, «com toda a sapiência e inteligência espiritual» :  In omni sapientia et intellectu spirituali .
É  que os mistérios de Cristo não são apenas modelos e assuntos de contemplação ; são também fontes de graça.
Diz-se de Jesus que, quando andava neste mundo, «saía do Seu corpo uma virtude que curava os doentes» : Virtus de illo exibat et sanabat omnes.  Jesus Cristo é sempre o mesmo. Se contemplarmos com fé os seus mistérios, quer no Evangelho, quer na Liturgia apresentada pela Igreja, Cristo produzirá em nós a graça que nos mereceu quando os vivia. Nesta contemplação, vemos como Jesus, nosso modelo, praticou as virtudes ; parti­cipamos dos sentimentos particulares que animaram o Seu Coração divino em cada um destes estados ; e sobretudo auferimos deles  as  graças especiais que então nos mereceu.
Os mistérios de Jesus são estados da Sua santa Humanidade ; todas as graças que teve, recebeu--as da Sua Divindade. para serem comunicadas  à  Sua Humanidade, e, pela Sua Humanidade, a cada um dos membros do Seu Corpo Místico:  Secundum mensuram donationis Christi. O Verbo, tomando da nossa graça uma natureza humana, desposou, para assim dizer, toda a humanidade, e cada alma - numa medida conhecida de Deus e da nossa parte proporcionada ao grau da
nossa fé - participa da graça que inunda a alma santa
de Cristo.
Cada mistério de Cristo, representando um estado da Sua santa Humanidade, comunica-nos desta forma uma participação especial na Sua Divindade. - Por exemplo, no Natal celebramos o nascimento terrestre de Jesus ; cantamos esse «admirável comércio:.> que nele se opera entre a Divindade e a Humanidade: Ele assume a nossa humanidade para nos comunicar a Sua Di­vindade ; e cada Natal santamente celebrado torna-se para a alma,  por  uma comunicação mais abundante da
graça, um como renascimento para a vida divina. - No Calvário, morremos com Cristo para o pecado ; Jesus dá-nos a graça de detestar mais profundamente tudo quanto O pode ofender. - Durante o  tempo  pascal, par­ticípamos dessa liberdade de alma, dessa vida mais intensa para Deus, de que Ele é o modelo na Sua  Ressurreiç.ão. - No dia da Ascensão, elevamo-nos com Ele
ao céu, para estar com Ele, pela fé e pelos nossos santos desejos, junto do Pai celeste,  in sinu Patris , na intimidade do santuário divino.
Seguindo assim a Jesus Cristo em todos os Seus mistérios, unindo-nos a Ele, participamos pouco a pouco, mas de modo seguro e cada vez em maior medida e mais intensamente, da Sua Divindade, da Sua vida divina. Segundo a bela expressão  de  Santo Agostinho, o que outrora se verificou numa realidade divina, renova-se espiritualmente nas almas piedosas pela repetida celebração dos mistérios :  Quod semel factum  in rebus veritas indicat,  hoc  saepius celebrandum in  cordibus piis  solemnitas renouat.
Pode, pois, afirmar-se com verdade que, quando contemplamos, sucessivamente, os diferentes mistérios de Cristo, o fazemos não só para evocar a lembrança de acontecimentos realizados para nossa salvação e glorificar por eles a Deus com os nossos louvores e ações de graças ; não só para ver como Jesus viveu,  e  procurar imitá-Lo ; mas também para que as nossas almas partidpem dum estado especial da santa Humanidade e aufiram de cada um deles a graça própria que o divino
Mestre lhes quis ligar, merecendo-a, como Chefe da Igreja, para o Seu Corpo Místico.
E aqui está por que o Santo Pontífice Pio X, de gloriosa memória, pôde escrever que «a participação ativa dos fiéis nos mistérios sacrossantos e na prece pública e solene da Igreja é a  fonte primária  e  indispen­savel do espírito cristão».
A este respeito, há uma verdade de grande importância, muitas vezes esquecida e até ignorada.
De dois modos pode o homem imitar o modelo que é  Cristo. Pode esforçar-se  por o fazer mediante um trabalho absolutamente natural, como quando imaginamos reproduzir um ideal humano apresentado por um herói ou por uma personagem que amamos e admiramos. Há criaturas que opinam ser assim que se deve imitar a Nosso Senhor e reproduzir em nós os traços da Sua
Pessoa adorável. Por esta via, chega-se a uma imitação de Cristo concebida segundo as nossas ideias humanas.
É  perder de vista que Jesus Cristo é um modelo  divino. A Sua beleza e virtudes humanas têm sua raiz na Divindade e dela tiram lodo o seu esplendor. É certo que podemos e devemos, ajudados pela graça, esforçar-nos por compreender a Cristo e modelar as nossas virtudes e os nossos atos pelos Seus : mas só o Espírito Santo - Digitus paternae dexterae- é capaz de reproduzir em nós a verdadeira imagem do Filho, por isso que a nossa imitação deve ser de ordem sobrenatural.
Ora este trabalho do artífice divino realiza-se sobretudo na oração baseada na fé e abrasada pelo amor. Enquanto contemplamos os mistérios de Cristo com fé e com um amor que deseja dar-se, o  Espírito Santo, que é o Espírito de Cristo, opera no íntimo da nossa alma  e, com toques soberanamente eficazes, modela-a por forma a reproduzir nela, como por uma virtude sacramental, as feições do divino modelo.
E aqui está por que esta contemplação dos mistérios de Jesus é em si mesma tão fecunda : aqui está por que o contato essencialmente sobrenatural que a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, nos faz tomar na Liturgia com os estados do seu Esposo é para nós tão vital. Não há caminho mais seguro nem meio mais infalível para nos assemelharmos a Jesus Cristo.

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