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16 de outubro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II

Fixemos agora o olhar da nossa  fé  no Verbo, no Filho, para conhecer e admirar algumas  das  Suas  propriedades.  É  este Filho que, nascido eternamente do Pai, deve nascer no tempo, duma Virgem, para se tornar o Homem-Deus e realizar os mistérios da nossa salvação. Como poderemos imitá-Lo e permanecer unidos a Ele, sem primeiro  O conhecer?
Na SSma Trindade, o Filho distingue-se do Pai pela propriedade de «Ser Filho».
Quando dizemos de um homem que ele é filho, afirmamos  duas  coisas  diferentes :  a  sua  natureza humana individual e a sua qualidade de filho. Isto não se dá na SSma Trindade. O Filho está realmente identificado com a natureza divina (que Ele possui de modo indivisível com o Pai e o Espírito Santo) ; o que o distingue da pessoa do Pai, o que constitui propriamente a Sua personalidade, não é ser Deus, mas ser Filho ; e, enquanto pessoa divina, Ele não é senão Filho, totalmente Filho, e unicamente isso ; se assim me posso exprimir, Ele é uma filiação viva, inteiramente «orientado» para o Pai.
E, assim como o Pai proclama a sua inefável fecundidade - Filius  meus es tu. ego hodíe genui te 
- o Filho reconhece que é Filho, que o Pai é o Seu principio, a Sua origem, que tudo Lhe vem d'Ele: e é esta, digamos assim, a primeira «função» do Verbo.
Abri os Evangelhos, sobretudo o de S. João : vereis o Verbo lncarnado pôr sempre em relevo diante dos nossos olhos esta propriedade. Jesus Cristo compraz-se em
proclamar que, na sua qualidade de Filho único, tudo Lhe vem do Pai: «Vivo pelo Pai, diz Ele aos Apóstolos; a minha doutrina não é minha, mas d'Aquele que me enviou : o Filho não pode fazer coisa alguma por Si mesmo, mas apenas o que vê fazer ao Pai ; tudo o que faz o Pai, o faz igualmente o Filho ; o Filho, por Si mesmo, nada faz, e julga segundo o que ouve, e o Seu juízo é justo, pois não busca a Sua própria vontade, mas sim a vontade d'Aquele  que O enviou ... Nada
faço por mim mesmo. digo o que o Pai  me  ensinou».
Que outra coisa quer dar a  entender  Nosso Senhor por estas palavras misteriosas, senão que na sua qualidade de Filho, tudo recebe  do Pai,  embora seja igual ao Pai?  Em toda a parte, em todas  as  circunstâncias  notáveis da Sua vida, por exemplo, na ressurreição de Lázaro. Jesus Cristo põe em foco as relações sublimes  que fazem  d'Ele o Filho único  do  Pai Eterno.
Lede sobretudo o discurso e oração  de  Jesus na última Ceia, onde,  no momento de consumar pelo sacrifício da Cruz a série dos Seus mistérios, Cristo le­vanta uma ponta do véu que oculta aos  nossos  olhos a vida divina ; vereis como Ele insiste na Sua  filiação eterna e nas propriedades daí resultantes : «Pai, é chegada a hora: glorifica o teu Filho, para  que o  teu filho te glorifique ... Glorifica-me  com a glória que  tinha junto de ti, antes de o mundo existir . . . Aqueles que me
confiaste sabem agora que tudo o que me deste vem de ti. .. Tudo o que é meu é teu, tudo o que é teu é meu ... Que eles sejam um, como tu, ó Pai, és um comigo  e  eu contigo ... Pai, aqueles que me deste, quero que, onde eu estiver, ali estejam eles comigo. para que vejam a glória que me deste, pois me amaste  antes da criação  do mundo  . . .  ».
Que admirável revelação do Pai  e  do  Filho,  suas relações incompreensíveis nos  descobrem estas  palavras ! Não, como diz S. João  no princípio  do seu  Evangelho, realmente nós não vemos a Deus  ; mas o  Filho único , que está no seio do Pai, alguma  coisa  nos revelou dos seus segredos da vida divina. Creio, Senhor  Jesus, que sois o Filho único do Pai, Deus  como Ele ; creio, mas aumentai a minha fé !
A segunda «função» do Verbo  é  ser, como diz S. Paulo, «a imagem do Pai» : Imago Dei invisibilis
Não uma imagem qualquer, mas uma imagem perfeita e viva. O Verbo  é  o esplendor da glória do Pai, a figura da Sua substância, o reflexo da Sua luz eterna: Splendor gloriae et figura substantiae ejus. É,  como indica a palavra grega, o «carácter», a expressão ade­quada de Deus,  é  como a marca que o sinete imprime na cera. A glória dum filho é  ser imagem viva do pai. O mesmo se dá com o Verbo. O Pai Eterno, ao contemplar o Filho, vê n'Ele a perfeita reprodução dos Seus
atributos divinos ; o Filho reflete perfeitamente, como espelho sem mancha - speculum sine macula,
tudo o que Lhe comunica o Pai.
Por isso, o Pai, ao contemplar o Filho, vê n'Ele todas as Suas perfeições ; e, arroubado perante este es­petáculo, declara ao mundo que este Filho é o objeto de toda a Sua dileção:  Fílius dilectus in quo mihi  BENE complacui .
lncarnando, o Verbo revela-nos o Pai e manifesta-nos Deus. Quando, na última Ceia, Nosso Senhor falou do Pai em termos tão enternecedores, o Apóstolo Filipe disse-lhe : «Senhor, mostrai-nos o Pai, e basta para ficarmos satisfeitos ! » E que responde Jesus? «Como ! Há tanto tempo que estou convosco, e ainda me não conheceis? Filipe, quem me vê, vê o Pai» :  Qui videt me, videt Patrem .  Palavra profundamente reveladora! Basta ver a Jesus, Verbo lncarnado, para conhecermos o Pai, de quem  é  a imagem. Cristo traduz todas as perfeições do Pai em gestos humanos, em linguagem acessível aos nossos fracos espíritos. Lembre­-mo-nos sempre destas palavras : Qui videt me, videt et Patrem.
Vamos dentro de pouco tempo percorrer os principais mistérios de Jesus. Aquele a  quem  vamos contemplar é Deus ; é o Ser infinito, todo-poderoso e soberano. Esse menino reclinado num presépio, adorado pelos pas­tores e pelos Magos, é Deus ; esse adolescente que trabalha como obscuro operário numa pobre oficina, é Deus ; esse homem que cura os doentes, multiplica os
pães, perdoa os pecados e salva as almas, é Deus : Deus ainda, esse profeta perseguido pelos seus inimigos, esse agonizante que luta contra o tédio, o medo, a tristeza, esse condenado que morre  numa cruz ;  encerra Deus essa hóstia guardada no sacrário e  que  eu vou receber na sagrada mesa.  Qui videt me, videt et Patrem.
E  todas as perfeições que os  estados  ou mistérios de Jesus manifestam :  sabedoria tal  que  não pode  ser apanhada em  falso, poder que  espanta  e  arrebata as tur­bas,  misericórdia  inaudita para com os pecadores, zelo ardente pela justiça, paciência inalterável no meio das afrontas, amor que se dá e se entrega, tudo isto são as perfeições dum Deus, do nosso Deus ; pois aquele que vê a Jesus, vê o Pai, contempla a Deus.
No fim da Sua oração sacerdotal, Jesus Cristo dizia ao Pai : «Pai, eu tornei-te conhecido dos  meus  discí­pulos, e continuarei a dar-te a conhecer, a fim de que o amor com que me amas esteja  nele »   Ó Jesus. pelos Vossos mistérios, mostrai-nos o Pai, as Suas perfeições, as Suas grandezas, os Seus direitos, as Suas vontades ; revelai-nos o que Ele é para Vós, o que é para nós, para que O amemos e Ele nos ame. e nada mais pediremos :  Ostende nobis Patrem et sufficit nobis !
A terceira «função» do Verbo é  ser  todo para  o Pai por um impulso de amor.
Na Santíssima Trindade, o amor do  Filho  para com o Pai é infinito. Se o Verbo  proclama  que tudo recebe do Pai. também tudo  Lhe  retribui com  amor ; e,  deste movimento de dileção que se encontra com o do Pai, procede essa terce·ira pessoa que  a  revelação designa por um nome misterioso ; o Espirito Santo, amor substancial do Pai e do Filho.
Cá na terra, o amor de Jesus ao Pai manifesta-se de modo inefável. Toda a vida de Cristo, todos os
Seus mistérios se resumem nesta palavra que S. João nos transmite;  - «Amo ao Pai». O  próprio Nosso Senhor indicou aos discípulos o critério infalível do amor; «Se guardardes os meus man­damentos, permanecereis no meu amor». E logo se apresenta como exemplo: «Como eu mesmo guardei os mandamentos do Pai, e permaneço no Seu amor». Jesus permaneceu constantemente no amor do Pai, porque fez sempre a vontade d'Ele. S. Paulo declara que o primeiro movimento do coração do Ve:rbo feito carne foi um movimento de amor: «Eis-me aqui, ó Pai, para
cumprir a tua vontade». Neste primeiro olhar da Sua vida terrestre, a alma de Jesus viu toda a sequência dos Seus mistérios, aniquilamentos, fadigas, sofri­mentos ; e por um ato de amor, aceitou a realização deste programa. Esse movimento de amor para com o Pai nunca cessou. Nosso Senhor pôde dizer:  Quae placita sunt ei facio .semper - «Faço sempre o que é do agrado do meu Pai». Cumpriu tudo, até ao último jota : tudo o que o Pai Lhe pede, o aceita, até ao amargo cálix da agonia:  Non mea voluntas. sed tua fiat ; até  à  morte ignominiosa na Cruz :  Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem. sic facio.  E, quando tudo está consumado, a última pulsação do Seu coração, o
Seu derradeiro pensamento é para o Pai: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito».
O  amor de Jesus para com o Pai está no íntimo de todos os Seus estados, explica  todos  os Seus mistérios.

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