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18 de outubro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

Este Verbo divino é o nosso modelo, a forma mesma da nossa predestinação.  É  que, ainda depois da lncarnação, Ele permanece o que é: o Verbo co-eterno do Pai. Por isso, a nossa imitação de Cristo,  deve estender-se, não só  às  Suas virtudes humanas, mas também ao Seu ser divino.
Como Jesus,  e  com Ele, devemos, antes de mais, reconhecer e proclamar que tudo Lhe vem  do  Pai.
Quando, na última Ceia, Jesus ora ao Pai pelos Apóstolos, que razão invoca para os recomendar? «Pai, aqueles que  me  confiaste sabem agora que tudo o que me deste vem de ti... Reconheceram verdadeiramente que saí de ti e acreditam que foste tu quem me enviou. É  por eles que eu rogo  »  O Verbo Incarnado tem a peito que nós reconheçamos que Ele tudo recebe do Pai. Quantas vezes o repetiu aos discípulos?  Se-lhes-e-mo, pois, agradáveis, se o proclamarmos com Ele.
Agradaremos igualmente ao Pai.  Na mesma Ceia, dizia Jesus aos Apóstolos : «0 Pai ama-vos ... ». Que palavra mais doce e que desperte maior confiança? Não vem ela d'Aquele que conhece os segredos do Pai? «0 Pai ama-vos ». E qual o motivo?  «Porque vós me amastes e acreditastes que  eu  saí do Pai». Crer - com uma fé prática que faz nos entreguemos a Ele para O servir - «que Jesus, o Verbo lncarnado, saiu do Pai, é a melhor maneira de agradar a Deus.
Repitamos, pois, muitas vezes, com profunda reverência, sobretudo depois da Comunhão, as palavras do Credo:  «Ó Jesus, Vós sois o Verbo,  nascido  do Pai antes de todos os séculos : Vós sois Deus saído de Deus ; luz que jorra da luz : verdadeiro Deus nascido do verdadeiro Deus gerado, não criado, com a mesma substância que o Pai, por quem foram feitas todas as coisas. Canto-o com os meus lábios : dai-me  a  graça de o proclamar com as minhas obras» !
Depois, devemos reconhecer que também nós  recebemos tudo do Pai,  e  isto por duplo título : como criaturas e como filhos de Deus.
Como criaturas.  - É: verdade que a criação é obra de toda a SSma. Trindade. Mas, como sabeis, ela é especialmente atribuída ao Pai. E porquê? Porque, na vida íntima de Deus. o Pai  é  o  princípio do Filho  e, com o Filho, o princípio do Espírito Santo. Por isso, as obras externas em que se verifica sobretudo o carácter de origem são particularmente atribuídas ao Pai: «Creio
em Deus Pai, todo poderoso criador do céu e da terra». Toda a criação saiu das mãos do Pai, não por uma emanação da Sua natureza. como querem os panteístas, mas produzida do nada pela virtude da omnipotência divina.
É  de grande utilidade para nós reconhecer esta dependência e celebrá-la.  É certo que Deus não precisa dos nossos louvores: mas é de justiça que proclamemos a nossa qualidade de criaturas por ações de graças. Àquele que nos deu o ser e a vida: «Ó meu Deus, fostes Vós que me criastes :  Manus tuae fecerunt  me totum  in  circuitu: tudo o que tenho, corpo, alma, inteligência, vontade, saúde, de Vós me vem : Vós que sois o meu princípio, eu Vos adoro e agradeço : em compensação, entrego- me a Vós inteiramente para fazer a Vossa vontade».
Mas é sobretudo em razão da nossa qualidade de filhos de Deus que devemos alimentar estes sentimen­tos. - À filiação divina necessária e eterna do Seu Filho único, o Pai quis aliar, por um ato de amor infinita­mente livre, uma filiação de graça: adota-nos por filhos Seus, a tal ponto que um dia havemos de compartilhar da beatitude da Sua vida íntima. Mistério inexplicável este ; mas a fé ensina- nos que, quando uma alma, no Batismo, recebe a graça santificante, torna-se participante da natureza divina:  Divinae consortes naturae ; torna-se verdadeiramente filha de Deus :  Dii  estis  et  filíi excelsi omnes .  S. João fala dum nascimento divino - Ex  Deo  NATI  sunt -, não no sentido próprio da palav:ra, por natureza, como o Verbo  que  é gerado no seio do Pai, mas por uma certa analogia:  Voluntarie GENUIT  nos verbo verítatis.
Num sentido muito real, muito verdadeiro, somos gerados divinamente pela graça. Com o Verbo, podemos dizer: «Pai, sou Vosso Filho, de Vós saí». O Verbo di-lo necessàriamente, de direito, pois é essencialmente o próprio Filho de Deus ; nós dizemo- lo pela graça, na qualidade de filhos adotivos.  O  Verbo di-lo por toda a eternidade ; nós dizemo-lo no tempo, embora o decreto desta predestinação seja eterno. Para o Verbo, estas palavras não indicam, com referência ao Pai. mais que uma relação de origem ; para nós, significam também uma dependência. Mas, para nós como para Ele. existe uma verdadeira filiação : somos, pela graça, filhos de Deus. O Pai quer que, apesar da nossa indignidade, Lhe demos o nome de «Pai».  Quoniam estis  filii.  mísit Spiritum  Filií sui in corda vestra clamantem : Abba, Pater.  É  para isto que «envia o Espírito do Seu Filho». Este balbuciar agrada ao nosso Pai do céu. É  inefável, mas é verdade. Vede, dizia S. João,  o  amor
que Deus nos mostra, permitindo que nos digamos e sejamos Seus filhos : Videte  qualem caritatem dedit  nobis PATER  ut fílii Dei nominemur et  SIMUS .
E, para assegurar este decreto de adoção, para realizar esta filiação de amor, Deus multiplica no nosso caminho, com magnífica profusão, os favores celestiais :a lncarnação, a Igreja, os Sacramentos, sobretudo a Eucaristia,  as  inspirações do Seu Espírito. De modo que «todo o dom que nos eleva até Ele, toda a graça de perfeição, desce do alto. do Pai das luzes»:  Omne datum optimum et omne donum perfectum desursum  est descendens a Patre luminum .
Este pensamento enche a alma de grande confiança e ao mesmo tempo de profunda humildade. Se
assim me posso exprimir, devemos fazer partir de Deus toda a nossa atividade e depositar a Seus pés todos os nossos pensamentos, todos os nossos juízos, todas as nossas vontades, de modo a só pensarmos, julgarmos, querermos e operarmos como Deus quer. Não era assim que procedia Jesus?  Verbo lncarnado, «nada fazia,dizia Ele, que não visse fazer ao Pai» .  Assim devemos proceder nós, salvas as proporções. Devemos imolar a Deus o que há de desregrado na necessidade
que experimentamos de sermos alguma coisa por nó mesmos, de só nos apoiarmos em nós mesmos. Para isto, antes de tudo o que fizermos, imploremos o auxílio do nosso Pai dos céus, como fazia Jesus.
É  esta a homenagem prática pela qual reconhecemos a nossa dependência para com nosso Pai, que
é também nosso Deus, proclamando, como Jesus, que tudo quanto temos o recebemos do Pai :  Omnia quae dedisti mihi abs te sunt.
Devemos ainda imitar o Verbo enquanto imagem do Pai.
Diz-nos a Sagrada Escritura que Deus nos criou à  Sua imagem e semelhança. Como criaturas. trazemos em nós os vestígios do poder, da sabedoria e da bondade divinas.
Mas  é  sobretudo pela graça santificante que nos tornamos semelhantes a Deus. Como diz S. To más, esta graça  é  uma semelhança participada da natureza divina:
Participata similitudo divinae naturae. Para  empregar um termo teológico, a graça é  deiforme,  porque põe em nós uma  semelhança  divina. Ao  contemplar o  Verbo, o Pai, vendo a perfeição do Filho que,  nascendo  d 'Ele, tão adequadamente reflete a Sua  perfeição,  exclama: «Tu  és o  meu Filho muito amado : em Ti  pus todas as minhas complacências». O mesmo acontece  com  uma alma  ornada da graça. «Se  alguém  me ama, dizia Jesus o meu Pai o amará  e  viremos a ele  e nele faremos  a nossa morada» .
A graça santificante é o  elemento primário  e fundamental da nossa assimilação a Deus e da  semelhança divina em nós. Mas devemos ainda  ser a imagem  do nosso Pai pelas nossas virtudes.  - O próprio Jesus Cristo no-lo disse: «Sede perfeitos como o vosso  Pai celeste é perfeito». Imitai a Sua bondade, a Sua mansidão, a Sua misericórdia, e assim reproduzireis em vós os traços divinos. «Sede,  repetia S. Paulo depois de Jesus, sede os imitadores de  Deus,  como  convém a filhos muito amados».
É  verdade que esta semelhança não é  visível  aos olhos da carne, embora se manifeste exteriormente por obras de santidade : é na alma que ela se forma e aperfeiçoa. Aqui na terra  é  a sua luz oculta, velado o seu esplendor ; mas dia virá em que desabrochará e se manifestará aos olhos de todos : «Quando virmos Deus tal qual é, seremos semelhantes a Ele», porque seremos
espelhos puros em que se virá refletir a Divindade : Símiles ei erimus ; quoniam videbimus eum sicuti  est .
Finalmente. como o Verbo, devemos entregar-nos totalmente ao nosso Pai celeste pelo amor.
Tudo em nós deve vir de Deus pela graça, tudo em nós deve voltar para o nosso Pai por um movimento de amor.  É  preciso que Deus seja. não só o princípio, mas também o fim de todas as nossas obras.
Para que as nossas obras sejam agradáveis ao nosso Pai dos céus. é necessário que sejam animadas pelo amor. Em tudo quanto fizermos grande ou pequeno, brilhante ou obscuro que sej, não devemos procurar senão a glória de Deus, não trabalhar senão para a glória do Seu nome, para a extensão do Seu reino e para o cumprimento da Sua vontade: nisto reside todoo segredo da santidade.

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