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12 de outubro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III
IN SINU PATRIS

Os  mistérios de Cristo são nossos : a união que Jesus Cristo quer contrair com as nossas almas
é  tal, que tudo é comum entre Ele e nós ; com divina liberalidade, quer Nosso Senhor fazer - nos
participar das graças inexauríveis de salvação e santificação que nos mereceu por cada um dos Seus mistérios, para nos comunicar o espírito dos Seus estados e assim realizar em nós a semelhança com Ele, sinal da nossa predestinação eterna.
Cristo passou por diversos estados: foi menino, adolescente, doutor da verdade, vítima na Cruz, glorioso na Ressurreição e na Ascensão. Percorrendo assim as fases sucessivas da Sua existência terrestre, santificou toda a vida humana.
Mas há um estado essencial que Ele nunca deixa: é «sempre o Filho único de Deus, que vive no seio do Pai» : Unigenitus  Filius  qui  EST  in sinu Patris.
Jesus Cristo é o Filho de Deus Incarnado ; é o Verbo feito carne. Antes de se fazer homem, Cristo era Deus ; tornando-se homem, não deixou de ser Deus : Quod  fuit  permansit . Seja que o considereis um menino no presépio, a trabalhar na oficina de Nazaré, a pregar  na  Judeia.  a morrer no Calvário, a manifestar a Sua glória de triunfador aos Apóstolos, a subir ao céu, - é sempre e acima de tudo o Filho único do Pai.
É,  portanto, a Sua Divindade que devemos contemplar em primeiro lugar, antes de tratar dos mistérios re­sultantes da Incarnação : todos os mistérios de Jesus se fundam na Sua Divindade; dela tiram todo o esplendor, dela auferem toda a fecundidade.
Santo Agostinho observa que há grande diferença entre o princípio do Evangelho de S. João e o dos outros escritores sagrados. Estes iniciam a sua narração pela genealogia humana de Jesus, para mostrar a Sua descendência da estirpe real de David. S. João, a quem repugna rastejar pela terra, eleva-se, logo de início, como águia, em maravilhosa ascensão, até ao mais alto dos céus, para
nos dizer o que se passa no santuário da Divindade.
Antes de narrar a vida de Jesus, o Evangelista diz­-nos o que era Cristo antes da lncarnação. E como se exprime? «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus»: In  principio  erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum  . . .  E,  para nos garantir o valor do seu testemunho, acrescenta logo que «ninguém vê a Deus, mas foi o pró­
prio Filho único que está no seio do Pai quem nos revelou estes segredos» : Deum nemo vidit  unquam: Unigenitus Filius, qui est in sinu Patris  lPSE  enarravit.
De fato, durante três anos, Jesus explicou aos discípulos os segredos divinos  : na  véspera da morte.  recorda-lhos de novo, dizendo ser esta uma prova de amizade que só a eles dá e aos que, vindos depois, acredi­tassem na Sua palavra: Vos dixi amicos: quia  omnia quaecumque audivi a Patre meo. nota feci vobis .
Para conhecermos  o  que é Jesus, o que Ele era, basta ouvir o discípulo que nos transmitiu as Suas pala­vras : ou antes, basta-nos ouvi-Lo a Ele próprio.  Mas façamos-lo com fé, com amor, com espírito de adoração, porque Aquele que assim se nos dá a conhecer é  o  próprio Filho de Deus.
As palavras que nos diz não podem ser compreendidas apenas com os ouvidos da carne : são palavras todas celestiais, todas de vida eterna : Verba quae ego locutus  sum  vobis, spiritus et vita sunt. Só a alma humilde e fiel as pode entender.
Não nos admiremos de que estas palavras nos revelem profundos mistérios : o próprio Jesus assim o quis. Foi Ele quem, para realizar a nossa união com a Sua
pessoa, no-las fez ouvir : quis que fossem recolhidas pelos escritores sagrados : envia o Espírito Santo que «prescruta as profundezas de Deus» , para «no-las recordar», para saborearmos, «com sabedoria e inte­ligência espiritual», os mistérios da vida intima de Deus. A participação desta vida constitui a própria essência do cristianismo e a substância de toda a santidade?

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