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14 de outubro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I

A fé, revela-nos este mistério verdadeiramente admirável: o poder e o ato de fecundidade são uma perfeição divina.
Deus é a plenitude do ser, o oceano infindo de toda a perfeição e de toda a vida. As imagens grosseiras de que muitas vezes nos servimos para O descrever, as ideias que, por analogia, Lhe aplicamos, ao falar do que de melhor existe nas criaturas, são impotentes para  O representar. Para nos elevarmos a uma concepção que não desdiga do infinito de Deus, não basta recuar, ainda que seja indefinidamente, os limites do ser criado ; é preciso negar esses limites do modo mais positivo. Deus é o próprio Ser, o Ser necessário, subsistente por si mesmo, que possui a plenitude de toda a perfeição.
E vede a maravilha que a Revelação nos descobre: este Deus é fecundo ; há n"Ele uma paternidade toda espiritual e inefável : Deus é Pai, princípio de toda a vida divina na SSma.  Trindade.
Inteligência infinita, Deus compreende-se perfeitamente ; num só ato, vê tudo o que Ele é, tudo o que n'Ele há ; para assim dizer, com um só olhar, abarca a plenitude das Suas perfeições, e, num pensamento, numa palavra que esgota todo o Seu conhecimento, exprime  a Si mesmo este conhecimento infinito. Este pensamento concebido pela inteligência eterna, esta palavra pela qual
Deus . se exprime, é o Verbo. A fé diz-nos que este Verbo é Deus : Et Deus erat Verbum, pois tem (melhor, Ele é) com o Pai uma e a mesma natureza divina.
E porque o Pai comunica a este Verbo uma natureza, não só semelhante, mas igual  à  Sua, a Sagrada Escritura diz.-nos que Ele O gera, e chama ao Verbo o Filho. Os livros inspirados referem-nos esta exclamação inefável de Deus, ao contemplar o Filho e ao proclamar a beatitude da Sua eterna fecundidade : «Do seio da Divindade, antes de criar a luz, eu te comuniquei a vida» :
Ex utero, ante lucíferum. genuí te ;  «Tu és o meu Filho, o meu Filho muito amado, objeto de todas as minhas complacências» : Tu es Filius meus dilectus, in
te complacuí míhí .  É  que, realmente, este Filho é perfeito ; possui com o Pai todas as perfeições divinas, exceto a propriedade de «ser Pai» ; tão perfeito, que  é igual ao Pai em virtude da unidade da natureza. A criatura não pode dar  a  outra senão uma natureza  semelhante à  sua - simile sibi;  Deus gera Deus  e  dá-Lhe a Sua própria natureza ;  é  glória de Deus gerar o infinito e contemplar.- se noutro «Ele mesmo» que  é  Seu igual, tão igual, que  é  o Único, porque não há mais que uma natureza divina, e este Filho esgota a fecundidade eterna :  Unigenitus  Dei  Filius.  Por  isso, Ele  é  um com o Pai:  Ego et Pater  unum  sumus .
Finalmente, este Filho amado, igual ao Pai, mas distinto d'Ele, e como Ele pessoa divina, nunca deixa o Pai. O Verbo vive sempre na inteligência infinita que O concebe : o Filho está sempre  no  seio do Pai que O gera:  Unigenitus Filius qui est in sínu Patris.  Ali habita
pela unidade da natureza. Ali habita igualmente pelo amor recíproco, amor do qual procede, como de um único princípio, o Espírito Santo, amor substancial do Pai e do Filho.
Aqui está a ordem misteriosa das comunicações inefáveis da vida íntima de Deus na Santíssima Trindade.  - .O Pai, plenitude de toda a vida, gera  um  Filho ; do Pai e do Filho, como dum único princípio, procede o Espírito de amor. Todos três têm a mesma eternidade, a mesma infinidade de perfeição, a mesma sabedoria, o mesmo poder, a mesma santidade, por isso que a natureza divina  é  única nas três pessoas.
Mas cada pessoa possui propriedades exclusivas - ser Pai, ser Filho, proceder do Pai e do Filho 
propriedades estas que estabelecem entre elas relações inefáveis que as distinguem umas das outras. Há  uma ordem de origem, sem que por isso haja nem prioridade de tempo, nem superioridade hierárquica, nem relação de dependência.
Tal  é  a linguagem da Revelação ; não poderíamos ter chegado ao conhecimento destas  coisas, se  não nos tivessem sido reveladas. Mas Jesus Cristo quis, para exercício da nossa  fé  e gozo das nossas  almas,  torna-las conhecidas. Quando, na eternidade, contemplarmos a Deus,  veremos  que  é  essencial  à  vida infinita, que  é  natural ao  Ser  divino ser um em  três  pessoas. O
verdadeiro Deus que devemos conhecer  para  ter  a  vida eterna  é  Aquele cuja trindade de  pessoas  adoramos na unidade de natureza.
Vinde, adoremos esta maravilhosa sociedade na unidade,  esta admirável  igualdade de  perfeição  na distinção das  pessoas !  - ó  Deus,  Pai de incomensurável majestade,  Pattem immensae majestatis.  eu  Vos adoro adoro o Vosso Filho, pois Ele  é, como  Vós, digno de toda a reverência, sendo como  é  Vosso verdadeiro e único Filho e Deus como Vós:  Venerandum tuum  verum et unicum Filium.  Pai, Filho,  adoro  o Vosso comum Espírito, o Vosso eterno laço de  amor :  Sanctum quo que Paraclítum  Spiritum.  Santíssima Trindade, eu Vos adoro!

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