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24 de outubro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

VI

Dir-me- eis que isto são verdades demasiado elevadas e um estado por demais sublime. - É certo : todavia, que fiz eu senão repetir- vos o que nos revelou o próprio Verbo, o que. depois de Jesus, nos repetiram S. João e S.  Paulo?  Não, não são sonhos : são realidades, realidades divinas. E estas realidades constituem a essência do Cristianismo. Nada compreenderemos, já não digo da santidade e da perfeição, mas nem sequer do simples Cristianismo, se não nos compenetrarmos de que a essên­cia mais íntima do Cristianismo, é constituída pelo estado de filho de Deus, participação, pela graça santificante, da filiação eterna do Verbo lncarnado. Todos os ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos se resumem nesta verdade, todos os mistérios de Jesus tendem a estabelecer as nossas almas nesta admirável realidade.
Nunca esqueçamos que toda a vida cristã, toda a santidade se resume nisto: ser filho de Deus pela graça, como Jesus é, por natureza, o Filho de Deus. É isto que constitui a sublimidade da nossa religião. A fonte de todas as grandezas de Jesus, o valor de todos os Seus estados, a fecundidade de todos os Seus mistérios, residem na Sua geração divina e na Sua qualidade de Filho de Deus. Do mesmo modo, o santo mais elevado do céu, é aquele que, na terra, mais perfeitamente soube ser filho de Deus, mais fez frutificar em si a graça da adoção sobrenatural em Jesus Cristo.
É por isso que toda a nossa vida espiritual se deve basear nesta verdade fundamental, todo o trabalho da perfeição se deve resumir em salvaguardar e fazer desabrochar, o mais largamente possível, a nossa participação na filiação divina de Jesus.
E não digamos que esta vida é demasiado elevada, que este programa é irrealizável.  É o, sim, para a nossa natureza deixada entregue às suas próprias forças. Esta vida está acima das exigências, direitos e forças do nosso ser, e por isso lhe chamamos sobrenatural.
Mas o nosso Pai celeste sabe do que necessitamos» ; se nos chama, também nos dá os meios para
chegarmos até Ele. Dá-nos o Seu Filho, para que seja o nosso caminho, nos distribua a verdade, nos comunique a vida. Basta que permaneçamos unidos a este Filho, pela graça e pelas nossas virtudes, para que um dia compartilhemos da Sua glória,  in sínu Patrís.
Vede: que dizia Jesus à Madalena depois da Ressurreição?  Ascendo  ad  Patrem meum:  «Volto para meu Pai»  e acrescentava: «que é também vosso Pai» ­
Et Patrem vestrum . E que vai Ele fazer? «Prepa­rar-nos um lugar»  - Vado parare vobis locum  -   porque «na casa do meu Pai há muitas moradas».
Jesus Cristo voltou para junto do Pai, mas como precursor:  Praecursor pro nobis introívít Jesus. Precedeu-nos, mas para que  O  seguíssemos, porque a vida neste mundo é apenas uma passagem, uma provação: «Tereis tribulações neste mundo»,  dizia Jesus no mesmo discurso ; tereis contradições a suportar em vós mesmos, tentações do príncipe deste mundo, contrariedades provenientes dos acontecimentos ; pois «o servo não é maior do que o mestre».
Mas acrescentava: «Que o vosso coração se não perturbe», não desanime;  «tende fé e confiança em Deus e em mim»,  que sou igualmente Deus e «permaneço convosco até ao fim dos séculos»; «a vossa aflição transformar-se-á um dia em gozo» . Hora virá em que eu mesmo vos virei buscar para vos dar um lugar junto de mim, no reino do meu Pai, onde estou:
Accipíam vos ad meipsum, ut ubi sum ego et vos sitís.
 Ó promessa divina, feita pela Palavra incriada, pelo Verbo em pessoa, pela Verdade infalível ;  promessa cheia de doçura : «Virei eu mes:mo !  . . .  »  Seremos todos para Cristo e, por Ele, para o Pai, no seio da bem aveturança. «Nesse dia, diz Jesus, conhecereis - não já  in umbra fidei,  nas sombras da fé, mas na plena claridade da luz eterna,  in  lumine gloriae  - que eu estou no Pai
e  vós em mim e eu em  vós» ! vereis  a  «minha glória de Filho único», e esta visão beatífica será para vós a  fonte sempre viva de inamissível alegria.

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