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17 de março de 2016

Sermão para o 4º Domingo da Quaresma 06.03.2016 – Pe Daniel P Pinheiro IBP



[Sermão] Verdadeira liberdade x liberalismo



Esta liberdade foi Cristo que no-la deu.
Com frequência, encontramos no Novo Testamento a noção de liberdade. São Paulo hoje nos fala da liberdade que nos foi dada por Cristo. Nosso Senhor fala que a verdade nos tornará livres. A Igreja, colocando essa Epístola no Domingo Laetare nos diz que a liberdade traz a alegria.
É preciso, porém, caros católicos, compreender bem a liberdade de que estamos falando. A liberdade é uma das noções mais corrompidas em nossa sociedade moderna. A liberdade é, para os nossos contemporâneos, ausência de qualquer lei, de qualquer ordem, e mesmo de qualquer autoridade. A liberdade para nossos contemporâneos consiste em cada um fazer o que bem entende, isento de qualquer lei, de qualquer mandamento. E, nessa concepção errônea de liberdade, temos a independência da inteligência com relação à realidade das coisas, como se cada um pudesse criar a realidade que mais lhe agrada, podendo pensar o que quiser e seu contrário. É o relativismo. Temos, nessa concepção errada de liberdade, a independência da vontade com relação ao bem, como se cada um pudesse escolher, sem distinção, entre o bem e o mal. Temos a independência do sentimento com relação à inteligência e a vontade, como se todo sentimento devesse ser seguido cegamente, independentemente de qualquer outra coisa. Teremos a independência do corpo com relação à alma, como se fôssemos puramente animais. Temos a independência do indivíduo com relação à sociedade, como se não houvesse hierarquia alguma na família, entre marido e esposa, entre pais e filhos; como se não houvesse hierarquia na Igreja, entre o clero e os fiéis. Nessa falsa concepção de liberdade, temos a independência dos homens com relação a Deus, como se Ele não existisse ou como se Deus existisse simplesmente para satisfazer os anseios dos homens para que eles se sintam bem. Temos a independência do Estado com relação a Deus e à Igreja, como se não houvesse uma religião verdadeira, como se fossem todas iguais. Nessa falsa concepção, a economia se torna independente de toda lei moral. Essa é a concepção atual de liberdade, radicalmente oposta à liberdade verdadeira, que nos foi dada por Deus. Essa é a concepção liberal de liberdade, conhecida como liberalismo. Essa concepção tão gravemente errada de liberdade e que vai tão profundamente contra a natureza das coisas é uma liberdade que escraviza, que escraviza o homem à sua vontade própria, ao pecado. É uma liberdade que conduz à perdição.
A liberdade verdadeira é a liberdade para o bem. A perfeição da liberdade não consiste em poder escolher o mal, o pecado. Deus é perfeitamente livre, mas pode fazer unicamente o bem. A nossa autêntica liberdade deve ser também uma liberdade para fazer o bem, evitando o mal. E nos ajuda a sermos realmente livres tudo aquilo que nos dirige para o bem: as boas leis, as autoridades, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua santa religião. As leis e as autoridades não se opõem à liberdade quando nos dirigem para bem. Ao contrário, as leis e as autoridades ajudam e favorecem a verdadeira liberdade ao nos dirigir para o bem. A graça de Nosso Senhor e a sua Igreja favorecem a verdadeira liberdade sempre, que é a liberdade no bem. Favorecem a liberdade de conhecer a verdade, de aderir ao bem, de orientar os sentimentos para o bem, de nos submeter à autoridade e de seguir as leis, enquanto essas nos guiarem para o bem.
Nós temos, claro, o livre arbítrio e podemos escolher entre o bem e o mal, mas não temos a liberdade moral para escolher o mal. Se escolhemos o mal, sofreremos as consequências de nossas escolhas mais cedo ou mais tarde. A verdadeira liberdade consiste em escolher os caminhos lícitos, bons, para chegar a um fim bom. Escolher meios ruins ou escolher um fim ruim é um abuso de nossa liberdade, e é uma concepção errada de liberdade. A verdadeira liberdade consiste em escolher os caminhos, os meios bons para chegar a um fim bom. E Nosso Senhor Jesus Cristo nos deu essa verdadeira liberdade em abundância. Ele mereceu para nós o perdão de nossos pecados, mereceu as graças abundantes para que façamos o bem e perseveremos nele até o fim. Instituiu a sua Igreja, que mostra os caminhos que nossa liberdade deve seguir para alcançar a Deus. Essa é a verdadeira liberdade, a liberdade dos filhos de Deus: a liberdade para fazer o bem, em união com Cristo.
E essa verdadeira liberdade nos trará uma grande alegria, porque a nossa alegria consiste em viver segundo aquilo para que fomos criados. A nossa inteligência foi feita para conhecer a verdade, e a nossa vontade, para amar o bem. Nisso seremos felizes. A falsa liberdade nos faz aderir ao erro e amar o pecado. Os nossos sentimentos existem para auxiliar a nossa inteligência e a vontade na busca da verdade e do bem. A falsa liberdade faz a inteligência e a vontade se submeterem às más paixões. O indivíduo faz parte de uma sociedade e deve agir como um membro dela, cumprindo seu papel, reconhecendo as autoridades legítimas e obedecendo-lhes em suas ordens legítimas. Seja na família, no Estado ou na Igreja. A falsa liberdade quer tornar cada indivíduo um corpo completamente separado, prejudicando toda a sociedade, e favorecendo sempre a revolta contra os superiores. Essa verdadeira liberdade, que é uma liberdade para o bem, nos trará alegria porque nos permite conhecer, amar e servir a Deus com toda a nossa alma. E nisso está a nossa alegria, para isso fomos criados: para conhecer, amar e servir a Deus. Uma liberdade que nos afaste disso é uma falsa liberdade, é uma liberdade de escravos.
São Paulo nos fala hoje da liberdade que nos foi dada por Cristo, referindo-se à escravidão da lei mosaica. Antes de tudo, devemos compreender bem que a lei mosaica não era ruim. A lei mosaica procedia de Deus e representava um benefício para o povo judeu. São Paulo diz em outras de suas epístolas que a lei é santa e espiritual (Rom. 7, 12-14), que os que a cumpriam sinceramente podiam encontrar a salvação (Rom. 2, 13). Ele diz que ela foi promulgada pelos anjos (Gal. 3, 19). Claro, a lei foi boa até a vinda de Cristo. Depois da vinda do Salvador, a lei mosaica foi substituída pela lei de Cristo. E não custa lembrar que praticar a lei mosaica depois da vinda de Nosso Senhor significa negar que Ele é o Messias, que Ele é o Salvador. Portanto, praticá-la, atualmente, é um pecado grave contra a fé.
A lei mosaica era, portanto, boa, mas imperfeita. Os judeus que a praticassem com sinceridade e caridade recebiam o perdão e a graça, ao ponto de haver entre os judeus grandes santos. Todavia, a lei não tinha eficácia por si mesma. Toda a eficácia vinha da redenção de Cristo, prevista por Deus. A lei mosaica era uma preparação para a redenção e uma prefiguração dessa redenção. A graça, na lei mosaica, não era tão abundante como depois da vinda de Cristo, de forma que a facilidade para fugir da escravidão do pecado, da concupiscência e do demônio era menor. As portas do céu continuavam fechadas até a vinda de Cristo, devendo os justos esperar a redenção de Cristo no limbo dos justos. Não existiam os sacramentos, canais abundantes da graça divina. Não havia a abundância de graça do sacramento da confissão, do sacramento da eucaristia, do sacramento da crisma. Não existia ainda a intercessão e mediação maternal de Maria Santíssima. A lei mosaica era boa, mas imperfeita. Ela conduzia à verdadeira liberdade, mas de modo muito menos abundante que a lei de Cristo, ao ponto de São Paulo poder compará-la a uma certa escravidão. A nova lei, a lei de Nosso Senhor Jesus Cristo nos leva de forma abundante para o bem, dando-nos a verdadeira liberdade, que não é uma liberdade para fazermos o mal ou cometer o pecado, mas liberdade para fazermos unicamente o bem, liberdade para podermos conhecer, amar e servir a Deus. Essa é a liberdade dos filhos de Deus. Filhos que, na sua liberdade, não querem ofender a Deus, Pai de bondade.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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