8 de dezembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 220

TANDEM FELIX!

Tandem felix — foi a palavra que o célebre cientista católico André Ampère (+ 1836) mandou gravar na lousa de sua sepultura. Esse eminente católico, na véspera da morte, quando alguém quis ler para ele alguns trechos da “Imitação de Cristo”, fez uma bela confissão: “Esse livrinho, eu o sei de cor”. Suas últimas palavras foram: “Felix tandem”, isto é, finalmente sou feliz.

7 de dezembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 219

TODOS CORRIAM PARA VÊ-LO

Já ouvistes falar de S. Bento Labre?
Era um pobre que pedia esmola de porta em porta. Dormia num palheiro, levantava-se muito cedo e corria à igreja, e ali passava toda a manhã ouvindo missas. Era tão grande a compostura, tão terna a devoção, tão profundo o recolhimento com que permanecia diante da divina Eucaristia, que — diz a sua história — o povo corria em massa à igreja para vê-lo. Ele, porém, estava no templo, como se estivesse sozinho. Gostava de ficar bem perto do altar, e ajoelhava-se, juntava as mãos, fitava os olhos na Hóstia divina e, assim, ficava horas inteiras.
A doçura do seu rosto e a luz celestial de seus olhos estavam a dizer a todos que era uma alma para a qual na igreja não havia mais que um tesouro, uma maravilha, um sol, um amor: Jesus sacramentado.
Assim viveu aquele mendigo, que não conhecia na terra nenhuma outra doçura, nenhuma outra riqueza senão Jesus sacramentado.
Crianças. Quando vierdes visitar Jesus em sua casa, em seu trono de amor, nada de pensamentos terrenos nada de olhares curiosos, de palavras inconvenientes, de leviandades infantis. Entrando na igreja, ajoelhai-vos, juntai as mãos, olhai para o Sacrário e falai com Jesus: isso, sim, é que é rezar.

6 de dezembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 218

FORMOU-SE UMA PROCISSÃO

Em todas as escolas daquele país católico encontrava-se colocada em lugar de honra a imagem de Jesus crucificado. Era ele que presidia as aulas. Aquele bom Jesus, o verdadeiro amigo das crianças, ouvira sempre com gosto a música deliciosa de suas orações infantis.
Um dia, porém, governos impios daquela nação mandaram que a imagem bendita de Jesus Cristo fosse retirada do lugar de honra. Tanto o professor como os alunos sentiram grande pesar, ficaram muito contrariados, mas — que fazer? — era preciso obedecer.
O professor, com todos os seus queridos discípulos, amava muito a Jesus. Por isso um dia, com lágrimas nos olhos, falou-lhes assim:
— Meus caros alunos. Já não nos é permitido ter por mais tempo a Jesus Cristo entre, nós. É preciso tirá-lo desse lugar de honra a que ele tinha direito por ser Deus e Mestre de professores e alunos. Vamos levá-lo solenemente à igreja; ali cada dia uma comissão de crianças irá visitá-lo para dizer.-lhe em nome de todos que, se o tivemos de tirar desta parede, onde os impios não o podem ver, todos nós o continuaremos a trazer em nossos corações”.
Formou-se uma procissão. A sagrada imagem era carregada entre duas filas de crianças. Quase não podiam rezar. Nem cantar. Iam todos chorando. Parecia-lhes que Jesus Crista estava sendo desterrado, e que sem ele não poderiam ser boas e felizes. E colocaram-no num altar da matriz. Desde aquele dia, quando saíam da escola, corriam a ajoelhar-se aos pés do Cristo e rezavam as mesmas orações e cantavam os mesmos cânticos piedosos, que costumavam cantar quando Jesus presidia às aulas na ampla sala da escola. E cantavam com mais força ainda: “Queremos Deus e a sã doutrina, que nos legou na sua cruz! Leve à escola e à oficina a lei de Cristo — amor e luz. Queremos Deus!... homens ingratos, ao Pai supremo, ao Redentor! Zombam da fé os insensatos, erguem-se em vão contra o Senhor”

5 de dezembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV 

A Humanidade de Jesus Cristo torna Deus visível; mas principalmente - e é aqui que a divina sabedoria se mostra «admirável » - torna Deus passível.
 O pecado que em nós destruiu a vida divina exige uma satisfação, uma expiação, sem a qual não nos podia ser restituída essa vida divina. O homem, sendo simples criatura, não podia sofrer nem reparar. Deus só nos pode comunicar a Sua vida, se o pecado for extinto; por um decreto imutável da sabedoria eterna, o pecado não se apaga, se não for expiado duma maneira conforme à equidade. Como resolver o problema? 
 A Incarnação dá-nos a reposta. Considerai o Menino de Belém: é o Verbo feito carne. A Humanidade que o Verbo toma é passível; é ela quem sofrerá, quem satisfará. Esses sofrimentos e satisfações, que são obra Sua, bem Sua,  pertencerão, no entanto, como a própria Humanidade, ao Verbo; a pessoa divina dar-lhes-á um valor infinito que bastará para resgatar o mundo, destruir o pecado e fazer superabundar a graça nas almas como um rio impetuoso e fertilizante: Fluminis impetus laetificat civitatem Dei.
 Ó comércio admirável. Não nos demoraremos em prescrutar de que modo teria Deus podido operá-lo; vejamos como o realizou. O Verbo pede-nos uma natureza humana para encontrar nela com que sofrer, reparar, merecer e cumular-nos de graças. Foi pela carne que­ o homem se desviou de Deus; é fazendo-se carne que Deus liberta o homem:
 Beatus auctor saeculi
 Servile corpus induit
 Ut carne carnem 1iberans 
Ne perderet quos condidít.
 A carne revestida pelo Verbo de Deus tornar-se-á,  para toda a carne o instrumento da salvação. O admirabile commercium ! 
Evidentemente não ignorais que será necessário esperar pela imolação do Calvário para que seja completa a expiação. Mas, como no-lo ensina S. Paulo, «logo no primeiro momento da Incarnação, Jesus Cristo aceitou cumprir a vontade de Pai e oferecer-se como Vítima pelo gênero humano »: ldeo ingrediens mundum dicit: Ho­stiam et oblationem noluisti: CORPUS autem aptasti mihi .. , Et tunc dixi: Ecce venio ... ut faciam Deus voluntatem tuam . « É por esta oblação que Jesus Cristo começa a santificar-nos»: In qua voluntatem sanctificati sumus; é no presépio que inaugura essa existência de sofrimento que quis viver para nossa salvação, cujo termo é no Gólgota e que, destruindo o pecado, deve restituir-nos a amizade de Pai. O presépio é apenas o primeiro passo, mas contém radicalmente todos os outros.
 Eis por que, na solenidade do Natal, a Igreja atribui a nossa salvação ao próprio nascimento temporal do Filho de Deus. «Ó Senhor, que o novo nascimento do Vosso Filho na carne nos liberte da antiga servidão que nos trazia cativos sob o jugo do pecado ». Por isso, desde esse momento, falar-se-á constantemente de « libertação, de redenção, de salvação, de vida eterna ». É pela Sua Humanidade que Jesus Cristo, Pontífice e Mediador, nos une a Deus; mas é ·em Belém que nos aparece nessa Humanidade. 
Vede, pois, como, desde o Seu nascimento, Ele realiza a Sua missão.
 O que é que nos faz perder a vida divina?
 O orgulho. Porque acreditaram que se tornariam semelhantes a Deus, conhecedores da ciência do bem e do mal, Adão e Eva perderam, para si e para os seus descendentes, a amizade de Deus. Jesus Cristo, novo Adão, resgata-nos e reconduz-nos a Deus pela Humildade da Incarnação. «Apesar de ser Deus, aniquilou-se a Si próprio, tomando a condição de criatura, tornando-se semelhante aos homens: manifestou-se como homem em tudo o que fez ». Que humilhação! Mais tarde, a Igreja exaltará até ao mais alto dos céus a Sua glória resplandecente de triunfador do pecado e da morte; mas, por enquanto, Jesus Cristo conhece apenas o aniquilamento e a fraqueza. Quando os nossos olhares descem sobre essa criancinha que em nada se distingue das outras e pensamos estar diante de Deus, do Deus infinito, no qual se escondem todos os tesouros da sabedoria e da ciência, a alma sente-se compenetrada e o nosso vão orgulho confunde-se diante de tamanha humilhação.
Que mais nos perdeu ainda? A nossa recusa em obedecer. Vede o Filho de Deus. Ele dá o exemplo duma obediência admirável; com a simplicidade das criancinhas, entrega-se nas mãos dos Seus pais; deixa-se tocar, pegar e levar para onde desejam; e toda a infância, toda a adolescência, toda a mocidade de Jesus estão resumidas pelo Evangelho nestas únicas palavras: «Era submisso a Maria e a José». Que mais? As nossas cobiças: «a concupiscência dos olhos», tudo o que aparece, brilha, fascina e seduz; a inanidade da bagatela fugaz que preferimos a Deus. O Verbo se fez carne; mas nasceu na pobreza e na abjecção: Propter vos egenus factus est cum esset dives: «Jesus Cristo fez-se pobre, de rico que era». Posto que seja «O rei dos séculos», Aquele que com uma palavra tirou do nada toda a criação, que só «com abrir a mão enche de bênçãos todo o ser vivo», não nasceu num palácio; Sua Mãe, não encontrando lugar na hospedaria, viu-se obrigada a refugiar-se numa gruta: o Filho de Deus, Sabedoria eterna, quis nascer nu e ser deitado na palha. Se contemplarmos com fé e amor o Menino Jesus no presépio, veremos n'Ele o exemplo divino de muitas virtudes; se soubermos ouvir com o coração o que Ele nos diz, muito aprenderemos; se percorrermos as circunstâncias do Seu nascimento, veremos como a Humanidade serve ao Verbo de instrumento, não só para nos instruir, mas ainda para nos levantar, para nos vivificar, para nos tornar agradáveis ao Pai e desprender-nos das coisas que passam, de nós mesmos, para nos elevar até Deus. «A Divindade reveste a nossa carne mortal; e por isso mesmo que o  Senhor se abaixa a viver uma vida humana, o homem eleva-se para as coisas divinas»: 
Dum divinitas defectum nostrae carnis suscepit, humanum genus lumen, quod amiserat, recepit. Unde enim Deus humana patitur, inde homo ad divina sublevatur. 

4 de dezembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 217

ESSES COMUNISTAS!...

Conversava um sacerdote com um comunista e, a certa altura da conversa, perguntou-lhe:
— Serias capaz de praticar o que andas apregoando por aí?
— Sim — disse o outro — conseqüente com minhas idéias de repartição social.
— Se tivesses dois cavalos, me darias um?
— Sem dúvida.
— E se tivesses duas casas, me darias uma?
— Também.
— Então comecemos pelo que tens; dá-me a metade das tuas galinhas!
— Hum! isto já é outra cantiga — disse o comunista; — não posso desfazer-me delas.
— Como assim? e as idéias de repartição que professas?
— É que cavalos e casas nunca tive nem tenho; mas galinhas eu as trato e engordo e são minhas.
Como se vê, a bela frase “o que é meu é teu” deve ser redigida assim: “O que é teu é meu” — porque “a propriedade é um roubo”, mas não vice-versa.

3 de dezembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios

III 

O que acaba de tornar esta permuta «admirável» é o modo como se realiza, a forma por que se opera. E como é? Como é que esta criancinha, que é o Verbo Incarnado, nos faz participantes da Sua vida divina?
Pela Sua Humanidade. A Humanidade que o Verbo toma de nós servir·Lhe-á de instrumento para nos comunicar a Sua Divindade; e isto por duas razões infinitamente resplandecentes de sabedoria eterna: a humanidade torna Deus visível, torna Deus passível. 
Torna-O visível.
 A Igreja canta com alegria, servindo-se das expressões de S. Paulo, essa «aparição» de Deus entre nós: Apparuit gratia Dei Salvatoris nostri omnibus hominibus: «a graça de Deus nosso Salvador apareceu a todos os homens»; Apparuit benignitas et humanitas Salvatoris nostri Dei: apareceu a benignidade e a Humanidade de Deus nosso Salvador»; Lux fulgebit hodie super nos: quia natus est nobis Dominus: «a luz brilhará hoje sobre nós, porque nasceu o Senhor para nós»; Verbum caro factum est et habitavit in nobis: «o Verbo fez-se carne e habitou entre nós».
 A incarnação realiza esta inaudita maravilha: os homens viram o próprio Deus a viver entre eles.
 S. João compraz-se em fazer sobressair este aspecto do mistério. «O Verbo de vida era antes de todas as coisas; nós O ouvimos, O vimos com nossos olhos, O contemplamos ·e nossas mãos O tocaram. Aquele que no seio do Pai é a própria vida manifestou-Se-nos e d'Ele damos testemunho. Anunciamos-vos o que vimos e ouvimos, para que a vossa alegria seja completa».
 Que alegria, efetivamente, ver Deus manifestar-Se a nós, não no deslumbrante esplendor da Sua omnipotência ou na glória indizível da Sua soberania, mas sob o véu duma Humanidade humilde, pobre, fraca, que podemos ver e tocar. 
Poderíamos atemorizar-nos com a majestade terrível de Deus. Os Israelitas prostravam-se por terra, cheios de terror e temor, quando o Senhor falava com Moisés no Sinai, entre relâmpagos. Nós somos atraídos pelos encantos dum Deus Menino. O Menino do presépio parece dizer-nos: «Tendes medo de Deus? Fazeis mal»: Qui videt me, videt et Patrem. Não vos guieis pela imaginação, não inventeis um Deus pelas deduções da filosofia, não peçais à ciência o conhecimento das minhas perfeições. O verdadeiro Deus todo poderoso é o Deus que eu sou e eu revelo; o verdadeiro Deus sou eu, que venho a vós na pobreza, na humildade e na meninice, mas que um dia darei a minha vida por vós. Eu sou «o esplendor da glória do Eterno Pai, a forma da Sua substância», o seu Filho único, Deus como Ele; em mim aprendereis a conhecer as Suas perfeições, sabedoria e bondade, o Seu amor para com os homens e a Sua misericórdia para com os pecadores: Illuxit in cordibus nostris ... in facie Christi Jesu. Vinde a mim, porque, apesar de ser Deus, quis ser homem como vós e não rejeito aqueles que confiadamente se aproximam de mim: Sicut homo genitus IDEM refulsit et Deus. 
Perguntar-me-eis: «Mas porque se dignou Deus tornar-se visível»?
 Em primeiro lugar, para nos instruir: Apparuit erudiens nos. É Deus, com efeito, quem doravante nos vai falar por Seu próprio Filho: Locutus est nobís in Filio; teremos apenas de ouvir este Filho muito amado para conhecer-mos o que Deus quer de nós. O próprio Pai celeste no-lo diz: «Hic est Filius meus dilectus: ipsum audite»; e Jesus repetir-nos-á com prazer que a Sua doutrina é a de Seu Pai: Mea doctrina non est mea", sed  ejus qui misit me,
 Em segundo lugar o Verbo torna-se visível aos nossos olhos para ser o modelo que devemos seguir.
 Para conhecermos como devemos viver diante de Deus, como filhos de Deus, basta-nos ver crescer este Menino, contemplá-Lo a viver entre nós, a viver como nós; tudo o que fizer será agradável ao Pai: Quae placita sunt ei, facio semper.
 Sendo a verdade por Seus ensinamentos, mostrará o caminho pelos Seus exemplos; se vivermos na Sua luz, se seguirmos este caminho, teremos a vida: Ego sum via, et veritas et vita. Assim, conhecendo que Deus se manifestou no meio de nós, seremos arrastados para os bens invisíveis. Ut dum VISIBILlTER Deum cognoscimus, PER HUNC in invisibilium amorem rapiamur. 

2 de dezembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 216

CLAUDIO MONTISANBERT

Este jovem foi destinado por seus pais a carreira das armas. Aos catorze anos, no regimento e sob a influência de maus companheiros, contraiu o vicio do jogo, perdendo grandes somas, pelo que os pais, irritados, o afastaram das armas por algum tempo. Depois de melhorar, entrou noutro regimento, mas logo recaiu no triste vicio. Ferido na batalha de Malplaquet, durante a longa convalescença dedicou-se à leitura de vidas de santos. Estas leituras e a graça de Deus lograram a sua conversão definitiva. Permaneceu ainda dois anos no exército, dando belos exemplos de virtudes cristãs. Aos 22 anos dedicou-se como penitente a peregrinados, entrando logo depois na Congregado dos Irmãos das Escolas Cristãs, ai vivendo exemplarmente com o nome de Irmão Irineu.

1 de dezembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

11 

Aqui temos, se assim me posso exprimir, um dos atos da permuta: Deus toma a nossa natureza para a unir a Si numa união pessoal.
 Qual é o outro ato? Que nos dará Deus em troca? Não que Ele nos deva coisa alguma - Bonorum meorum .non eges -, mas, como tudo faz com sabedoria, não se revestiu da nossa natureza sem um motivo plenamente digno d'Ele.
 O que o Verbo Incarnado dá em troca à humanidade é um dom incompreensível; é uma participação real e íntima da Sua natureza divina: Largitus est nobis suam deitatem. Em troca da humanidade que toma de nós, o Verbo Incarnado dá-nos a participação na Sua Divindade, torna-nos participantes da Sua natureza divina. E assim se efetua a mais admirável permuta que se pode dar.
 Esta participação, como sabeis, já fora, sem dúvida, oferecida e dada, desde a criação, a Adão, o primeiro homem; o dom da graça, com todo o esplêndido cortejo de privilégios, tornava Adão semelhante a Deus. Mas o pecado do primeiro homem, tronco do gênero humano destruiu e tornou impossível, do lado da criatura, esta participação inaudita. 
O Verbo incarnou para a restabelecer; para nos reabrir o caminho do céu e tornar-nos participantes da vida eterna, Deus fez-se homem. Este Menino, sendo o próprio Filho de Deus, possui a vida divina como o Pai, com o Pai; pois n'Ele «habita corporalmente a plenitude da Divindade»; n'Ele estão «acumulados os tesouros da Divindade». Mas não os tem só para Si: deseja infinitamente comunicar-nos a vida divina que é Ele próprio: Ego sum vita; foi para isso que veio: Ego veni ut vitam habeant. Foi por nós que nasceu; é a nós que é dado o Filho: Puer natus est nobis et Filius datus est nobis. Fazendo-nos participar da Sua qualidade de Filho, torna-nos filhos de Deus. <
 Tais são os dois atos da admirável permuta que Deus realiza entre nós e Ele; toma a nossa natureza para nos comunicar a Sua Divindade; toma uma vida humana para nos fazer participantes da Sua vida divina; faz-se homem para nos tornar deuses: Factus est Deus homo, ut homo fieret Deus. E o seu nascimento humano torna-se o meio do nosso nascimento para a vida divina. 
Em nós também haverá duas vidas. Uma natural, que recebemos pelo nosso nascimento segundo a carne, mas que, aos olhos de Deus, como consequência da culpa original, é não somente sem mérito, mas, antes do batismo, maculada em seu íntimo; que nos torna inimigos de Deus, dignos da Sua justiça; nascemos filii irae. Outra sobrenatural, infinitamente acima dos direitos e das exigências da nossa natureza. É esta que Deus nos comunica pela Sua graça, depois que o Verbo Incarnado no-la mereceu.
 Deus gera-nos para esta vida sobrenatural pelo Verbo e pela infusão do seu Espírito, na fonte batis-  mal: Genuit nos verbo veritatis. Per lavacrum regeneratoíns et renovatíonis Spirítus sancti; é uma vida nova que se acrescenta à nossa vida natural, ultrapassando-a e coroando-a: In Christo nova creatura. Torna-nos filhos de Deus, irmãos de Jesus Cristo, dignos de participar um dia da Sua bem aventurança e da Sua glória. 
Em nós, como em Jesus Cristo, é a vida divina que deve dominar, se bem que em Jesus Menino ainda não se manifeste e em nós permaneça sempre velada sob as grosseiras aparências da existência ordinária. É a vida divina da graça que deve, não só reger e governar, mas também tornar agradável ao Senhor toda a nossa atividade natural, assim divinizada pela sua raiz.
 Oh! se a contemplação do nascimento de Jesus e a participação deste mistério pela recepção do pão da vida nos levassem a acabar, de uma vez para sempre, com tudo o que destrói ou diminui a vida divina em nós; com o pecado de que Jesus Cristo nos vem libertar - Cujus nativitas humanam repulit vetustatem -, com toda a infidelidade,· com toda a imperfeição, com todo o apego à criatura, com a preocupação desregrada das coisas que passam - Abnegantes saecularia desideria -, com os mesquinhos cuidados do nosso vão amor próprio! .... 
Se nos levassem a dar-nos inteiramente a Deus, como prometemos no dia do batismo, quando nascemos para a vida divina; a entregar-nos ao cumprimento exato de todas as Suas vontades e do Seu beneplácito, como fazia o Verbo Incarnado quando entrou neste mundo - Ecce venio ... ut faciam Deus voluntatem tuam; a fazer-nos praticar as boas obras que nos tornam agradáveis a Deus - Pop-ulum acceptabilem, sectatorem bonorum operum.
 Então a vida divina, trazida por Jesus com o Seu nascimento, não encontraria obstáculos e desabrocharia livremente para a glória do nosso Pai dos céus; então «faríamos resplandecer na nossa vida os ensinamentos com que a nova luz do Verbo Incarnado inunda a nossa fé»; <