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3 de dezembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios

III 

O que acaba de tornar esta permuta «admirável» é o modo como se realiza, a forma por que se opera. E como é? Como é que esta criancinha, que é o Verbo Incarnado, nos faz participantes da Sua vida divina?
Pela Sua Humanidade. A Humanidade que o Verbo toma de nós servir·Lhe-á de instrumento para nos comunicar a Sua Divindade; e isto por duas razões infinitamente resplandecentes de sabedoria eterna: a humanidade torna Deus visível, torna Deus passível. 
Torna-O visível.
 A Igreja canta com alegria, servindo-se das expressões de S. Paulo, essa «aparição» de Deus entre nós: Apparuit gratia Dei Salvatoris nostri omnibus hominibus: «a graça de Deus nosso Salvador apareceu a todos os homens»; Apparuit benignitas et humanitas Salvatoris nostri Dei: apareceu a benignidade e a Humanidade de Deus nosso Salvador»; Lux fulgebit hodie super nos: quia natus est nobis Dominus: «a luz brilhará hoje sobre nós, porque nasceu o Senhor para nós»; Verbum caro factum est et habitavit in nobis: «o Verbo fez-se carne e habitou entre nós».
 A incarnação realiza esta inaudita maravilha: os homens viram o próprio Deus a viver entre eles.
 S. João compraz-se em fazer sobressair este aspecto do mistério. «O Verbo de vida era antes de todas as coisas; nós O ouvimos, O vimos com nossos olhos, O contemplamos ·e nossas mãos O tocaram. Aquele que no seio do Pai é a própria vida manifestou-Se-nos e d'Ele damos testemunho. Anunciamos-vos o que vimos e ouvimos, para que a vossa alegria seja completa».
 Que alegria, efetivamente, ver Deus manifestar-Se a nós, não no deslumbrante esplendor da Sua omnipotência ou na glória indizível da Sua soberania, mas sob o véu duma Humanidade humilde, pobre, fraca, que podemos ver e tocar. 
Poderíamos atemorizar-nos com a majestade terrível de Deus. Os Israelitas prostravam-se por terra, cheios de terror e temor, quando o Senhor falava com Moisés no Sinai, entre relâmpagos. Nós somos atraídos pelos encantos dum Deus Menino. O Menino do presépio parece dizer-nos: «Tendes medo de Deus? Fazeis mal»: Qui videt me, videt et Patrem. Não vos guieis pela imaginação, não inventeis um Deus pelas deduções da filosofia, não peçais à ciência o conhecimento das minhas perfeições. O verdadeiro Deus todo poderoso é o Deus que eu sou e eu revelo; o verdadeiro Deus sou eu, que venho a vós na pobreza, na humildade e na meninice, mas que um dia darei a minha vida por vós. Eu sou «o esplendor da glória do Eterno Pai, a forma da Sua substância», o seu Filho único, Deus como Ele; em mim aprendereis a conhecer as Suas perfeições, sabedoria e bondade, o Seu amor para com os homens e a Sua misericórdia para com os pecadores: Illuxit in cordibus nostris ... in facie Christi Jesu. Vinde a mim, porque, apesar de ser Deus, quis ser homem como vós e não rejeito aqueles que confiadamente se aproximam de mim: Sicut homo genitus IDEM refulsit et Deus. 
Perguntar-me-eis: «Mas porque se dignou Deus tornar-se visível»?
 Em primeiro lugar, para nos instruir: Apparuit erudiens nos. É Deus, com efeito, quem doravante nos vai falar por Seu próprio Filho: Locutus est nobís in Filio; teremos apenas de ouvir este Filho muito amado para conhecer-mos o que Deus quer de nós. O próprio Pai celeste no-lo diz: «Hic est Filius meus dilectus: ipsum audite»; e Jesus repetir-nos-á com prazer que a Sua doutrina é a de Seu Pai: Mea doctrina non est mea", sed  ejus qui misit me,
 Em segundo lugar o Verbo torna-se visível aos nossos olhos para ser o modelo que devemos seguir.
 Para conhecermos como devemos viver diante de Deus, como filhos de Deus, basta-nos ver crescer este Menino, contemplá-Lo a viver entre nós, a viver como nós; tudo o que fizer será agradável ao Pai: Quae placita sunt ei, facio semper.
 Sendo a verdade por Seus ensinamentos, mostrará o caminho pelos Seus exemplos; se vivermos na Sua luz, se seguirmos este caminho, teremos a vida: Ego sum via, et veritas et vita. Assim, conhecendo que Deus se manifestou no meio de nós, seremos arrastados para os bens invisíveis. Ut dum VISIBILlTER Deum cognoscimus, PER HUNC in invisibilium amorem rapiamur. 

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