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13 de dezembro de 2016

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

V

Assim, pois, para qualquer lado que dirijamos os olhares da nossa fé sobre esta permuta, quaisquer que sejam as circunstãncias que examinemos, sempre se nos depara admirável.
 Com efeito, não é admirável este nascimento duma Virgem: Natus ineffabiliter ex virgine? «Uma jovem Mãe deu à luz o Rei, cujo nome é eterno; à honra da virgindade alia as alegrias da maternidade; antes dela, nunca se viu tal prodígio; depois dela, não se dará outro semelhante». «Filhas de Jerusalém, porque me admirais? Este mistério que vedes em mim, é verdadeiramente divino» !
É deveras admirável esta indissolúvel, mas inconfundível união da Divindade com a Humanidade na única pessoa do Verbo: Mirabile mysterium; innovantur naturae. Admirável esta permuta, pelos contrastes da sua realização; Deus faz-nos partilhar da Sua Divindade,  mas a Humanidade que de nós assume para nos comunicar a vida divina é uma Humanidade sofredora, «que conhecerá a dor» - homo sciens infirmitatem -,  que passará pela morte e pela morte,  nos dará a vida.
Esta permuta é admirável na sua origem, que não é outra senão o amor infinito de Deus por nós. Sic Deus dilexit mundum,  ut Filium suum Unigenitum daret: «Deus amou a tal ponto o mundo, que lhe deu o Seu próprio Filho». Abandonemos, pois, as nossas almas à alegria e cantemos com a Igreja: Parvulus natus est nobis et filius DATUS est NOBIS. E como nos foi dado? «Na semelhança da carne do pecado». É por isso que o amor que no-Lo dá assim na nossa humanidade passível, para expiar o pecado, é um amor sem medida: Propter NIMIAM caritatem suam, qua dilexit nos Deus, misit Filium suum in similitudinem carnis peccati.
 Admirável, finalmente, nos seus frutos e efeitos. Por esta permuta restitui-nos Deus a Sua amizade; dá-nos de novo o direito de tomar posse da herança eterna; contempla outra vez a humanidade com amor e complacência.
 Por isso, a alegria é um dos sentimentos predominantes na celebração deste mistério. A Igreja a ela nos convida constantemente, por se lembrar das palavras do Anjo aos pastores: «Eis que vos anuncio uma nova que será para vós fonte de grande alegria; nasceu-vos um Salvador». É a alegria da libertação, da herança reconquistada, da paz readquirida e principalmente da visão do próprio Deus dada ao homem: Et vocabitur nomen ejus Emmanuel.
 Esta alegria só nos está assegurada, se permanecermos firmes na graça que nos vem do Salvador e nos torna Seus irmãos. S. Leão exclama, num sermão que é lido pela Igreja durante a noite santa: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade»: Agnosce, o christiane, dignitatem tuam; e, uma vez que participaste da Divindade, livra-te de decair de tão sublime estado!
«Se conhecêsseis o dom de Deus», dizia Nosso Senhor. «Se soubésseis quem é este Filho que vos é dado»! Se, principalmente, O recebêssemos como devemos recebê-Lo! Não se diga de nós: In proptia venit et sui eum non receperunt: «veio ao Seu domínio e os Seus não O receberam». Somos todos, pela criação o domínio de Deus; pertencemos.-Lhe; mas alguns não O receberam neste mundo. Quantos judeus, quantos pagãos rejeitaram Jesus Cristo, porque apareceu na humildade duma carne passível! Almas mergulhadas nas trevas do orgulho e dos sentidos: Lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non comprehenderunt.
 E como devemos recebê-Lo? Pela fé: His qui credunt in nomine ejus. Aos que crêem na pessoa, na palavra, nas obras de Jesus Cristo, aos que receberam este Menino como Deus, foi-lhes dado em recompensa serem filhos de Deus: Ex Deo nati sunt.
Com efeito, esta disposição é fundamental e indispensável para que esta admirável permuta produza em nós os seus efeitos. Só a fé nos faz conhecer os termos e a maneira por que ela se realiza; só ela nos faz penetrar nas profundezas deste mistério e adquirir um verdadeiro conhecimento de Deus.
 É que há muitos modos e graus de conhecimento. «O boi e o jumento conheceram o seu Deus», escrevia Isaías, falando deste mistério. Viam o Menino deitado no presépio. Mas que contemplavam? O que pode descobrir o animal: a forma, o tamanho, a cor, o movimento - conhecimento inteiramente elementar que não ultrapassa o domínio dos sentidos. Nada mais. Os transeuntes, os curiosos que se aproximaram da gruta viram a criança; mas para esses era semelhante a todas as outras crianças. Não foram além do conhecimento puramente natural. Talvez admirassem a beleza do Menino, talvez lastimassem a Sua pobreza. Mas este sentimento foi de pouca duração; foi logo abafado pela indiferença.
 Vieram os pastores, corações simples, iluminados por um raio do alto: Claritas Dei círcumfulsit íllos. Compreenderam com certeza muito mais; reconheceram nesta criança o Messias prometido e esperado: Exspectatio gentium; prestaram-Lhe suas homenagens e por muito tempo tiveram as almas cheias de alegria e de paz.
 Os Anjos contemplavam igualmente no recém -nascido o Verbo feito carne. Viam n'Ele  o seu Deus; por isso, esse conhecimento enchia os puros espíritos de assombro e de admiração por tão incompreensível aniquilamento, porque não foi a natureza angélica que o Senhor quis unir a Si -
Nusquam angelos - , mas a natureza humana -sed semen Abrahae apprehendit.
 Que diremos da Virgem, quando olhava para Jesus? A que profundidade do mistério penetrava o seu olhar tão puro, tão humilde, tão terno e tão cheio de complacência! É impossível descrever de que luzes a alma de Jesus inundava então a Sua Mãe e que sublimes adorações, que perfeitas homenagens Maria tributava a seu Filho, ao seu Deus, a todos os estados e a todos os mistérios de que a Incarnação é a substância e a raiz.
 Há enfim - mas isto é inenarrável - o olhar do Pai Eterno contemplando o Seu Filho, feito carne por amor dos homens. O Pai Celeste via o que jamais o homem nem o Anjo nem mesmo Maria poderão compreender: as infinitas perfeições da Divindade oculta num Menino ... E esta contemplação era a fonte de indizível deslumbramento: «És o meu Filho, o meu Filho muito amado, o Filho da minha predileção, em quem pus todas as minhas complacências».
Quando contemplamos em Belém o Verbo lncarnado, elevamo-nos acima dos sentidos para só nos servirmos dos olhos da fé. A fé faz-nos participar, neste mundo, do conhecimento que as pessoas divinas têm umas das outras. Não há nisto exagero algum. A graça santificante torna-nos participantes da natureza divina; ora, a atividade da natureza divina consiste no conhecimento e no amor que as pessoas divinas têm umas das outras e umas para com as outras; participamos, portanto, desse conhecimento. E assim como a graça santificante, desabrochando na glória, nos dará o direito de contemplar a Deus como Ele se vê, na terra, nas sombras da fé, a graça permite-nos contemplar as profundezas dos mistérios pelos olhos de Deus: Lux tuae claritatis infulsit.
 Quando a nossa fé é viva e pefeita, não paramos na superfície, no exterior do mistério; mas vamos até ao âmago para o contemplar com os olhos de Deus; passamos pela Humanidade para penetrar até à Divindade que a Humanidade esconde e ao mesmo tempo revela; vemos os mistérios divinos à luz divina.
E a alma, deslumbrada e atônita diante de tão prodigioso aniquilamento, a alma, assim vivificada pela fé, prostra-se e entrega-se inteiramente para procurar a glória dum Deus que, pelo amor da criatura, esconde o esplendor próprio das Suas insondáveis perfeições. A alma adora-O, entrega-se; e não tem descanso, enquanto não der tudo para contemplar a permuta que o Senhor quer operar com ela, enquanto não submeter inteiramente tudo o que possui, toda a sua atividade, ao «Rei da paz que vem com tanta .magnificência»  para a salvar, santificar e, para assim dizer, deificar.
Aproximemo-nos, pois, do Menino Deus com grande fé. Desejaríamos estar em Belém para O receber. Mas a Comunhão dá-no-Lo com a mesma realidade, posto que os nossos sentidos O não descubram. Tanto no tabernáculo como no presépio, é o mesmo Deus Omnipotente, O mesmo Salvador cheio de bondade.
 Se assim o quisermos, durará sempre esta admirável troca. Porque é também pela Sua Humanidade que, na sagrada mesa, Jesus Cristo nos infunde a vida divina; é comendo o Seu Corpo, bebendo o Seu Sangue, unindo-se à Sua Humanidade, que bebemos na própria fonte da vida eterna: Qui manducat meam carnem, et bibit meum sanguinem. habet vitam aeternam.
E desta maneira, todos os dias, se continua e se estreita a união estabelecida entre Deus e o homem  pela lncarnação. Jesus Cristo, dando-se na Comunhão, aumenta na alma generosa e fiel a vida da graça; faz-na desenvolver mais livremente e desabrochar com mais força; «confere-lhe até o penhor dessa imortalidade feliz, cujo germe é a graça e em que o próprio Deus se nos comunica em toda a plenitude e sem véu» : Ut natus hodie Salvator mundi, sicut divinae nobis generationis est auctor, ita et immortalitatis  IPSE largitor.
Será esta a magnífica e gloriosa consumação da troca inaugurada em Belém, na pobreza e no aniquilamento do presépio.

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