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17 de maio de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

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Tal é a vida de Cristo ressuscitado. Ela é o modelo da nossa; e Jesus mereceu para nós a graça de vivermos, como Ele, para Deus, de sermos associados ao Seu estado de ressuscitado. Mereceu-no-la, não evidentemente pela Sua ressurreição; ao exalar o último suspiro, Jesus Cristo atinge o termo da Sua existência mortal, nada mais pode merecer; tudo quanto nos obteve foi pelo Seu sacrifício, inaugurado na Incarnação e consumado pela morte na cruz.
Mas os Seus méritos subsistem para nós depois da Sua saída gloriosa do sepulcro. Vede como Jesus Cristo quis conservar as cicatrizes das chagas: apresenta-as ao Pai em toda a sua beleza, como títulos à comunicação da Sua graça: Semper vivens ad interpellandum pro nobis.
Como bem sabeis, é logo no Batismo que participamos da graça da Ressurreição. Di-lo S. Paulo: "Pelo Batismo, fomos sepultados com Cristo na morte; e assim como Cristo ressuscitou pelo poder do
 do Pai, assim nós devemos caminhar numa verdadeira novidade de vida».
A água santa em que mergulhamos no Batismo é, segundo o Apóstolo, a imagem do sepulcro. Ao sair dela, fica a alma purificada de toda a falta, de toda a  mancha, livre da morte espiritual e revestida da graça, princípio da vida divina, tal qual Jesus Cristo, ao sair do túmulo, se despiu de toda a enfermidade, para viver dali por diante uma vida perfeita. Eis por que na Igreja primitiva o Batismo só era administrado na noite pascal e no dia do Pentecostes que termina o tempo da Páscoa. Mal poderemos compreender a liturgia da semana pascal, se não tivermos sempre diante dos olhos a administração solene que então se fazia do Batismo.
Portanto, nós ressuscitamos com Cristo e por Cristo, pois Ele tem infinito desejo de nos comunicar a Sua vida gloriosa. E que é preciso para corresponder a este desejo divino e nos tornarmos semelhantes a Jesus ressuscitado? Viver no espírito do nosso Batismo; renunciar a tudo o que na nossa vida é viciado pelo pecado; fazer «morrer» cada vez mais o «velho homem»; ser tudo em nós dominado e governado pela graça. Nisto consiste para nós toda a santidade: afastar-nos do pecado, das ocasiões do pecado, das criaturas e de tudo o que é terreno, para vivermos em Deus e para Deus, com a maior plenitude e estabilidade possíveis.
Esta obra, inaugurada no Batismo, continua durante toda a nossa existência. É certo que Jesus Cristo
só morreu uma vez; deu-nos assim o poder de morrer com Ele para tudo o que é pecado. Nós, porém, devemos «morrer» todos os dias, pois conservamos em nós as raízes do pecado e o antigo inimigo trabalha sem cessar para as fazer brotar de novo. Destruir em nós essas raízes, fugir de toda a infidelidade, da criatura amada por si mesma, afastar das nossas ações todo o motivo, não só culpável, mas puramente natural; libertar-nos de tudo o que é criado, terreno, conservar o coração livre, duma liberdade espiritual, - eis o primeiro elemento da nossa santidade, aquele que vemos realizado em Cristo pela soberana e admirável independência em que vive a Sua Humanidade de ressuscitado.
É este um dos aspectos mais salientes da graça pascal. S. Paulo põe-no em relevo nos mais expressivos termos. «Purificai-vos do velho fermento para serdes uma massa nova; pois, desde que
Jesus Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado por nós, tornastes-vos pães ázimos. Participemos portanto do banquete, não com fermento antigo, o fermento do mal e da perversidade, mas com os ázimos da verdade e da sinceridade».
Esta instante exortação do Apóstolo forma a Epístola da Missa do dia de Páscoa. Parecerá obscura a
mais dum cristão dos nossos dias, e, contudo, foi esta a passagem que a Igreja escolheu, entre todas, para resumir o nosso procedimento no momento em que celebramos o mistério da Ressurreição. Porquê esta escolha?
É que ela indica claramente, posto que duma forma profunda, o fruto que a alma deve tirar deste mistério. Que significam então aquelas palavras?
Sabeis que entre os israelitas, nas vésperas da festa da Páscoa - que recordava aos hebreus o famoso
aniversário da «passagem» do anjo exterminador -, deviam fazer desaparecer das casas toda a espécie de fermento. No dia da festa, depois de imolado o cordeiro pascal, comiam-no com pães ázimos, isto é, sem fermento, não levedados.
Tudo aquilo eram apenas «figuras e símbolos» da verdadeira Páscoa, a Páscoa cristã. «Purificai-vos do velho fermento»; «despi-vos do velho homem»  nascido do pecado, das suas concupiscências, às quais renunciastes pelo Batismo. Naquele momento da regeneração batismal, participastes da morte de Cristo, que fazia morrer em vós o pecado: tornastes-vos, e assim deveis permanecer pela graça, uma nova massa, isto é, "nova criatura", «novo homem», a exemplo de Jesus Cristo saído glorioso do sepulcro.
Eis por que do mesmo modo que os judeus, chegada a Páscoa, se abstinham de todo o fermento para comer o cordeiro pascal, «assim também vós, cristãos, que quereis participar do mistério da Ressurreição e unir-vos a Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado por vós, deveis, doravante, levar uma vida isenta de todo o pecado; deveis abster-vos desses maus desejos que são como que um fermento de malícia e perversidade": Non ergo regnet peccatum in vestro mortalí corpore; deveis
conservar em vós a graça que vos fará viver na verdade e na sinceridade da lei divina.
Tal é a doutrina que S. Paulo nos faz ouvir no próprio dia de Páscoa e que marca sobretudo o primeiro elemento da nossa santidade: renunciar ao pecado, a todo o motivo humano que pode, como fermento velho, corromper as nossas ações; viver, em relação ao pecado e a todo o ente criado, naquela liberdade espiritual que tão claramente se nos manifesta em Cristo ressuscitado.
Pedimos esta graça ao próprio Jesus naquela estrofe que se repete em cada um dos hinos pascais:
Quaesumus audot omnium
In hoc paschali gaudio,
Ab omni mortis impetu,
Tuum defende populum.

«Nestes dias cheios de alegria pascal, a Vós suplicamos, Autor de todas as coisas, que defendais o Vosso povo contra os ataques da morte». Pedimos a Cristo que preserve o Seu povo, o povo que "resgatou com Seu sangue», diz S. Paulo, «para Lhe ser agradável»: Populum acceptabilem. Que o preserve de quê? De todo o ataque de morte espiritual, isto é, de todo o pecado, de tudo o que conduz ao pecado, de tudo o que tende a destruir ou a enfraquecer em nós a vida da graça. É então que poderemos fazer parte «daquela sociedade que Jesus Cristo quer sem mácula, santa e irrepreenssível»  Sine ruga, sine macula.

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