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25 de fevereiro de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO VIII

Morte do justo
Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus.
E’ preciosa na presença de Deus a morte de seus Santos (Sl 115,15).

PONTO I

Considerada a morte à luz deste mundo, nos espanta e inspira temor; mas, segundo a luz da fé, é
desejável e consoladora. Parece terrível aos pecadores; mas aos olhos dos justos se apresenta amável e preciosa. Preciosa, — disse São Bernardo — porque é o termo dos trabalhos, a coroa da vitória, a porta da vida”. E, na verdade, a morte é termo de penas e trabalhos. O homem nascido de mulher vive curto tempo e está sujeito a muitas misérias (Jó 14,1). Eis aí o que é a nossa vida, curta e cheia de misérias, enfermidades, inquietações e sofrimentos.
Os mundanos, desejosos de longa vida — diz Sêneca — que procuram senão mais prolongado tormento? (Ep 101). Que é continuar a viver — exclama Santo Agostinho — senão continuar a sofrer?. A vida presente — disse Santo Ambrósio — não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar, e, por meio destes trabalhos, merecer a vida eterna (Serm. 45). Com razão, afirma Tertuliano que Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio — mais parece alívio o morrer do que castigo.
Deus chama bem-aventurados aos que morrem na sua graça, porque acabam os trabalhos e começam a descansar. “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Desde hoje — disse o Espírito Santo — que descansem de seus trabalhos” (Ap 14,13).
Os tormentos que afligem os pecadores na hora da morte não afligem os Santos. “As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e não os atingirá o tormento da morte” (Sb 3,1). Não temem os Santos aquela ordem de sair desta vida, que tanto amedronta aos mundanos, nem se afligem por terem de deixar os bens da terra, porque nunca apegaram a 25 eles o seu coração. “Deus do meu coração — repetiram sempre; Deus meu por toda a eternidade” (Sl 72,26). Sois felizes, — escrevia o Apóstolo a seus discípulos, que tinham sido despojados de seus bens por terem confessado a Cristo. — Suportastes essa perda com alegria, sabendo que vos esperava patrimônio mais excelente e duradouro (Hb 10,34). Não se afligem os Santos por terem de deixar honras mundanas, pois sempre as desprezaram e as tiveram na conta do que são efetivamente: fumo e vaidade, e somente estimaram a honra de amar a Deus e de ser por Ele amados. Não se afligem por terem de deixar seus parentes, porque somente os amaram em Deus, e, ao morrer, os deixam recomendados àquele Pai celestial que os ama mais do que eles; e esperando salvar-se, crêem que melhor lhes poderão ajudar lá no céu do que ficando na terra. Em suma: todos aqueles que disseram sempre durante a vida Meu Deus e meu tudo, repetem-no ainda com maior consolo e ternura no momento da morte.
Quem morre no amor de Deus, não se inquieta com as dores que acompanham a morte, antes se
compraz nelas, considerando que a vida vai-se acabar e que já não terá mais a sofrer por Deus nem a testemunhar-lhe novas provas de amor. Assim, com afeto e paz, lhe oferece os últimos restos da sua vida e consola-se, unindo o sacrifício de sua morte ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós na cruz a seu eterno Pai. Desta maneira morre satisfeito, dizendo: “Em seu seio dormirei e descansarei em paz” (Sl 4,8). Que felicidade morrer entregando- se nos braços de Cristo, que nos amou até à morte, e que quis sofrer morte tão cruel para alcançar-nos morte doce e consoladora!

AFETOS E SÚPLICAS

O’ amado Jesus, que para dar-me morte feliz quisestes sofrer morte crudelíssima no Calvário! Quando vos tornarei a ver?... A primeira vez que vos verei será quando me julgardes, no momento de expiar.
Que vos direi então?... E vós, que me direis?... Não quero esperar até que chegue este instante para pensar nisso; quero meditá-lo desde já. Dir-vos-ei: “Senhor: vós, amado Redentor meu, morrestes por mim...
Houve tempo em que vos ofendi, e fui ingrato para convosco e não merecia perdão. Mas, ajudado por vossa graça, procurei emendar-me, e no resto de minha vida chorei meus pecados, e vós me perdoastes.
Perdoai-me de novo agora que estou a vossos pés e outorgai-me vós mesmo a absolvição geral de minhas culpas. Não merecia mais amar-vos, por ter desprezado vosso amor. Mas vós, Senhor, por vossa misericórdia atraístes meu coração, que, se não vos tem amado como mereceis, amou-vos sobre todas as coisas, deixando tudo para vos agradar... Que me direis agora?... Verdade é que a glória de vos contemplar no vosso reino é altíssima distinção de que não sou digno; mas não poderei viver afastado de vós, especialmente agora que me mostrastes a vossa excelsa formosura. Peço-vos, pois, o paraíso, não para poder gozar mais, mas para melhor vos amar.
Nem quero tampouco entrar nessa pátria de santidade e ver-me entre aquelas almas puras, manchado como estou agora por minhas culpas. Mandai que antes me purifique, mas não me expulseis para sempre de vossa presença... Basta que algum dia, quando vos aprouver, me chameis ao paraíso para que ali cante eternamente as vossas misericórdias. Por agora, meu amado Jesus, dai-me vossa bênção e garanti-me que sou vosso, que sereis sempre meu, que vos amarei e me amareis para sempre... Aparto-me agora de vós, Senhor, para ir às chamas purificadoras; mas vou contente, porque ali hei de amar-vos, Redentor meu, meu Deus e meu tudo...
Vou contente, sim, mas sabei que, enquanto estiver longe de vós, essa separação temporal será minha maior pena. Contarei, Senhor, os instantes até que me chameis... Tende compaixão de uma alma que vos ama com todas as suas forças, e que suspira por ver-vos para melhor vos amar”. Assim, meu Jesus, espero então falar-vos. Até lá, vos peço a graça de viver de modo que possa dizer-vos então o que agora acabo de pensar. Concedei-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor... e ajudai-me.
Ó Maria, mãe de Deus, rogai a Jesus por mim!

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