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3 de fevereiro de 2014

Sermão para o 3º Domingo depois da Epifania – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] O amor mútuo entre os cônjuges, fim secundário do matrimônio.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
“A Terra inteira adorar-vos-á, Senhor.” (Introito da Missa)
Caros Católicos, falamos já do matrimônio e de seus bens – filhos, fidelidade e indissolubilidade – no domingo dentro da oitava do Natal. Tivemos no domingo passado o Evangelho das Bodas de Caná, que faz referência ao matrimônio e tivemos no domingo precedente, a Festa da Sagrada Família, que esse ano não foi festejada em virtude da transferência da Festa da Epifania. É oportuno, porém, tratar de outro aspecto muito importante da união matrimonial: o amor mútuo que deve haver entre os cônjuges e que é fim secundário do matrimônio.
A Igreja sempre afirmou que no matrimônio existe uma hierarquia das finalidades. O fim primário do matrimônio é a procriação com a consequente educação dos filhos. Os fins secundários são o amor mútuo, ou aperfeiçoamento dos esposos, e o remédio para a concupiscência. É bom deixar isso claro: não se pode ir contra o fim primário do matrimônio para favorecer o amor mútuo. O amor mútuo está subordinado ao fim primário, que é a procriação. O amor mútuo, na realidade não é favorecido, mas muito prejudicado pela contracepção, pois deixa de ser um amor mútuo para tornar-se um amor egoísta e fechado a todo fruto, que são os filhos. A inversão na hierarquia dos fins, muito presente em nossa sociedade e muito presente mesmo no meio católico, conduz facilmente ao divórcio e abre o caminho para todas as aberrações na ordem sexual. É muito comum ouvirmos, por exemplo, sobre o casamento homossexual: “eles podem casar, pois se amam”. É evidente que aqui se trata de um amor falso, pois não visa o verdadeiro bem do outro que é a salvação, mas, sobretudo, não pode haver essa união porque a finalidade primária do casamento de duas pessoas é a procriação por meio da união dos corpos, o que não pode nem nunca poderá ocorrer nessas uniões contra a natureza, que clamam ao céu por vingança.
Compreendida essa subordinação do fim secundário – amor mútuo – ao fim primário – procriação – devemos compreender qual é esse amor que deve reinar entre os cônjuges.  Quando falamos, porém, de fim secundário, não estamos falando de algo supérfluo ou sem muita importância. Não, o fim secundário do matrimônio, que é o amor mútuo entre os cônjuges é também importantíssimo. Mas o que é exatamente esse amor mútuo que deve existir entre os cônjuges, entre marido e mulher?
Esse amor conjugal deve ser uma amizade, compreendida no seu sentido profundo e verdadeiro. A amizade é o tipo de amor mais perfeito que existe, de forma que a própria caridade é uma amizade. Para que haja amizade, são necessárias basicamente cinco condições:
1)      A primeira condição é que exista um bem em comum, algo que seja comum entre os amigos e que é a base da amizade. Esse bem pode ser algo prazeroso, como, por exemplo, o gosto por comer pizza, ou pode ser alguma utilidade, quando se busca o contato com alguém para conseguir dele algo que nos é útil. Esse bem pode ser, finalmente, a virtude. A verdadeira amizade se baseia, é claro, na virtude. O bem comum entre os verdadeiros amigos e que funda a amizade deve ser a virtude. E só essa amizade pode ser realmente chamada de amizade. A base da amizade deve ser sólida e duradoura. A virtude é sólida e duradoura, pois ela é, justamente, uma inclinação profunda da nossa alma para fazer o bem, adquirida pela repetição das boas obras e que não se perde facilmente. Já uma amizade baseada em algo prazeroso é passageira, pois nossos gostos podem mudar com certa facilidade. Também a amizade baseada na utilidade é passageira: quando o bem desejado é alcançado, a amizade termina. Sem falar que o bem prazeroso ou útil pode ser um bem somente aparente, ele pode ser pecaminoso. Quantas supostas amizades não existem para facilitar o pecado? Assim, a verdadeira amizade deve ser baseada na virtude. Os amigos querem a mesma coisa: a virtude, a salvação. Os amigos rejeitam a mesma coisa: o pecado, o vício. Dessa forma, é próprio dos amigos a concórdia, a união de corações (idem velle, idem nolle).
2)      A segunda condição para que haja verdadeira amizade é que se queira o bem do amigo e que se faça o bem para ele. Não qualquer bem, mas o bem da virtude, em última instância o bem da salvação do amigo. O querer bem do outro não é fazer todas as suas vontades e caprichos, como é muito comum ouvirmos: “tal pessoa ama muito a outra, ela faz sempre tudo o que ela quer…” E esse querer bem é tão intenso que nos leva a nos esquecer de nós mesmos para buscar o bem do amigo.
3)      A terceira condição para que haja amizade é que esse querer bem, que esse fazer bem ao outro seja recíproco. A verdadeira amizade supõe reciprocidade. Não basta que uma pessoa queira o bem da outra, mas é preciso que a outra também queira o bem da pessoa. A reciprocidade é essencial para uma verdadeira amizade.
4)      A quarta condição para a amizade é que esse querer bem recíproco seja manifesto, conhecido de ambas as partes.
5)      Finalmente, a quinta condição para que haja amizade é que haja justamente convivência entre amigos, que haja comunicação frequente entre eles, que conversem e se conheçam bem.
Vemos que a amizade é algo rara, pois rara é a virtude e rara a presença das outras condições. A amizade é importantíssima para a vida espiritual, pois ela vem da virtude e conduz para a virtude. Quem acha um amigo, acha um tesouro, nos diz a Sagrada Escritura.
Aqui nós já temos elementos suficientes para compreender bem o amor que deve reinar entre os cônjuges. Esse amor deve ser baseado na virtude, tendo em vista a salvação do outro. É um amor que deseja o bem do outro e que age para o bem do outro, para que o outro adquira a virtude, para que possa progredir na vida espiritual. Esse amor deve fazer com que o cônjuge se esqueça de si mesmo, e faça sacrifícios pelo outro, até o sacrifício de dar a própria vida, se for o caso, para a salvação do outro. O amigo não busca diretamente seu próprio bem, mas o bem do amigo. Não busca simplesmente a deleitação ou algo útil para si. Não, ele busca primeiramente o bem do amigo, e isso lhe traz alegria e é útil para o seu próprio progresso na virtude. E é claro que esse amor deve ser recíproco entre os cônjuges, deve ser mútuo, cada um procurando ajudar o outro em todas as coisas, mas, sobretudo, na prática da virtude. É preciso também que esse amor seja manifesto entre os cônjuges e que ele se manifeste mesmo em pequenas ações, em ações simples, mas que demonstram o amor de um pelo outro. Finalmente, é preciso que os cônjuges se comuniquem, conversem, convivam realmente. E é claro que essa amizade entre os cônjuges deve ser muito mais profunda do que outra amizade qualquer. Essa amizade entre os cônjuges é bem particular, pela natureza da união entre eles, a união matrimonial: união exclusiva entre eles, união indissolúvel, união dos corpos. Os cônjuges devem formar uma só alma, pela concórdia, pela amizade, e uma só carne pela união dos corpos. Que tesouro insondável é o amor de amizade entre os cônjuges.
Muitas vezes esse amor vai pouco a pouco perdendo o seu verdadeiro sentido, pois a base do amor, com o tempo, tende a passar da virtude para algo egoísta, ou puramente deleitável ou útil e já não se deseja e não se trabalha pelo verdadeiro bem do outro cônjuge. Outras vezes o amor ainda existe, mas vai deixando de ser manifestado de forma mais clara, o que termina diminuindo o amor entre os cônjuges. Outras vezes é a falta de convivência, de comunicação, de conversa entre os cônjuges que vai pouco a pouco diminuindo o amor mútuo. Falta de comunicação que, por vezes, deixa acumular pequenas questões, que vão tomando proporções maiores. Os cônjuges devem sempre se lembrar porque casaram: casaram-se, em última instância, para chegarem ao céu, para cooperarem na salvação um do outro, por meio da geração e educação dos filhos e pelo amor mútuo. Talvez até não tivessem essa clareza no momento em que casaram. É preciso remediar a isso agora.
A vida matrimonial, como qualquer estado de vida, tem suas cruzes próprias, em particular o desentendimento que surge entre os cônjuges. Para que essas cruzes não sejam causa de tropeço, mas ocasião de progresso na virtude, ocasião de progresso na união do casal e na união do casal com Deus, é preciso esse amor de amizade conjugal, que nada mais é do que uma espécie particular de caridade. Com esse amor e lembrando que a finalidade última do casamento é a salvação de cada um dos membros da família, as cruzes poderão ser superadas.
O exemplo do amor entre os cônjuges é o amor existente entre Cristo e a Igreja. É um amor baseado na santidade, Cristo santifica a Igreja, e a Igreja busca glorificar a Cristo, convertendo as almas. Cristo foi até a morte e morte de Cruz pela Igreja. A Igreja forma seus membros para morrerem por amor a Cristo e a Igreja é perseguida pelo mundo por amor a Cristo. Esse amor entre ambos é manifesto. Cristo o manifesta por todo o bem que faz em favor da Igreja, pela instituição dos sacramentos, sobretudo, o sacramento da Eucaristia, e não deixando a Igreja sucumbir diante das portas do inferno. A Igreja manifesta seu amor especialmente pela liturgia, em particular pela Missa. Como diz São Paulo: “Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a santificar”. (Efésios V, 25). E o apóstolo diz também: “E como a Igreja está sujeita a Cristo, assim o estejam também as mulheres em tudo [o que não é contra a lei de Deus]” (Efésios V, 24) Em outra oportunidade veremos melhor a função de cada um dentro da família.  Cristo e a Igreja estão em profunda união, têm o mesmo coração, formam um só corpo, do qual Cristo é a cabeça e a Igreja os membros. Deve ser esse o modelo do amor entre os cônjuges.
É preciso buscar e manter esse amor. Por mais que no início exista uma grande harmonia, não há instrumento que com o tempo não comece a desafinar. O mesmo ocorre no matrimônio. Para que essas dissonâncias não se tornem uma cacofonia, é preciso a boa vontade mútua, a compreensão, a paciência, e afastar desconfianças infundadas, afastar ressentimentos, saber perdoar. Não se deve dar ouvido a intrigas alheias. Essa harmonia que é o acordo sobre o ideal de virtude e de santidade não pode desmoronar. É preciso que haja mútua colaboração e mútua compreensão, com generosidade de ambas as partes, sem, porém, confundir os papéis de cada um. Para alcançar esse amor e mantê-lo é também necessária a confiança mútua, abertura de coração, simplicidade mútua para comunicar as aspirações de cada um, a preocupações, alegrias e tristezas. Essa comunicação é alimento essencial da felicidade conjugal. Como dissemos, é preciso que o amor se manifeste e que haja comunicação entre os amigos, entre os cônjuges. É preciso também rezar e rezar em família, como Tobias e Sara na Sagrada Escritura. Rezar o Santo Terço em família, com os filhos, e ter devoção familiar ao Sagrado Coração de Jesus, entronizando-o, e mantendo práticas de devoção a Ele, como, por exemplo, a recitação das ladainhas do Sagrado Coração de Jesus,  às sextas-feiras, e renovando mensalmente a entronização, para que o Sagrado Coração seja realmente o rei do lar. É preciso frequentar os sacramentos e, como esse amor se baseia na virtude, na santidade, é preciso praticar a virtude e querer ser realmente santo. A família deve rezar para a Sagrada Família, pedindo para que realize no próprio lar aquilo que Jesus, Maria e José realizaram.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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