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16 de fevereiro de 2014

DOMINGO DA SEPTUAGÉSIMA.

A religião

O Evangelho narra a parábola dos trabalhadores.

Um pai de família sai, em horas diferentes, a contratar trabalhadores para sua vinha.

Sai ao romper do dia, às 9, às 10, à 1 e 3 horas da tarde e cada vez manda uns operários para a sua vinha.

Este Pai de família é Deus; nós somos estes trabalhadores contratados por Ele.

Deus é o grande proprietário deste mundo; e todos nós devemos trabalhar para Ele, uns mais, outros menos tempo, conforme o número de anos que a sua bondade nos concede.

Ele quer pagar generosamente a todos, porém, não paga o número de anos de trabalho, mas a intensidade e a boa intenção dos trabalhadores.

Entre este pai de família e seus operários existem relações de justiça e de caridade que se chamam: retribuição.

Assim, entre Deus e os homens existem também relações que se chamam: religião.

São estas relações que vamos meditar hoje, para tirar delas a noção exata da religião.

A religião, de fato, está essencialmente baseada sobre uma dupla espécie de aspirações:

1º. As aspirações do homem.
2º. As aspirações de Deus.

É o encontro destas aspirações, a sua realização mútua que constitui a religião, ou laço (religare) entre Deus e o homem.

I. As aspirações do homem

A religião é o encontro de Deus e do homem. Provando, como temos feito, que Deus existe e que o homem existe, é preciso admitir que entre Deus e o homem, entre o Criador e a criatura, entre o Pai e o filho, existem relações íntimas, sagradas... e são estas relações que se chamam religião, termo que quer dizer: ligação.

A religião não é, como certas pessoas pensam, um código de leis, de imposições, de exigências, não: é simplesmente a relação existente entre Deus-Pai e o homem filho, entre o Criador e a criatura racional.

Para compreender bem esta verdade, é preciso ter uma idéia das aspirações do homem e das aspirações de Deus, pois é da união destas aspirações que brota a religião.

Vejamos qual é a grande aspiração do homem.

Ela se apresenta a todo homem sensato, desde que sinceramente ele se apresente a si mesmo: Que é que desejo neste mundo?

É conhecer, amar e possuir a Deus.

Estas três aspirações dominam a humanidade.

A inteligência é a faculdade de conhecer: é uma sede sublime de luz.

O homem tem apenas um vislumbre de inteligência, mas ele quer saber de tudo e nada é capaz de satisfazê-lo. Ele quer sempre saber mais... não quer, não pode parar: ele aspira o infinito.

O infinito é o termo necessário das aspirações do espírito humano.

Digo infinito, porque o homem traz em si ideais universais, eternos, imutáveis e estes ideais só podem ter por termo o próprio infinito. O espírito do homem se move no infinito.

Após a inteligência vem o coração. Quem o conhece? É a faculdade de amar... quer amar... procura amar... mendiga o amor, como o mendigo faminto mendiga o pão para seu sustento, mas o coração é um abismo estranho.

Lançai nele todas as alegrias do mundo, todas as belezas, todas as riquezas, todas as glórias, todos os amores: este abismo exulta e em vez de encher-se, ele se alarga.

Este coração quer um amor infinito... Ele sobe ao infinito pela dor, pela alegria, pelo amor que jamais acaba: e isto não é da terra.

E porque o homem quer subir para conhecer e amar o infinito?

Para possuí-lo.

É a terceira aspiração da nossa alma: possuir o infinito... A vontade se lança, segue a inteligência e o coração e brada: — Passe o mundo, dê-me o infinito... quero Deus.

Tal é a natureza, ou a grande aspiração do homem; vejamos agora, se tais aspirações encontram um eco em Deus.

II. As aspirações de Deus

O homem suspira por subir até Deus. E Deus não aspiraria descer até ao homem?

Deus seria surdo aos nossos clamores? Surdo a nossas preces? Sem coração e sem entranhas diante dos nossos sofrimentos?

Enquanto o homem sobe a Deus, por meio e através de suas fraquezas, Deus não baixaria a nós por meio e através da sua grandeza?

Deve haver necessariamente um encontro.

Notemos bem a concordância existente entre as aspirações do homem e a própria divindade.

Há em Deus tudo o que desejamos.

Nós queremos a verdade: Ele é a verdade integral;
Nós queremos a beleza: Ele é a beleza ideal;
Nós queremos o bem: Ele é o sumo bem;
Nós queremos a vida: Ele é a vida eterna;
Nós queremos a felicidade: Ele é a felicidade perfeita.

Tudo o que nós queremos e que nos falta, Ele o possui. E Deus aspira comunicar-nos todos estes bens.

E não pensem que tal idéia de Deus seja uma simples concepção do nosso espírito!

Não! É uma realidade; pois as aspirações do homem correspondem sempre a uma realidade.

Nós somos seres imperfeitos, limitados, passageiros. Logo, existe um ser perfeito, ilimitado, eterno.

III. Conclusão

Os homens têm as suas aspirações para o alto... Logo, Deus deve ter as suas inclinações para aproximar-se do homem.

O homem tem uma inteligência para conhecer.
É Deus que deve ser o objeto primário deste conhecimento.

O homem tem um coração para amar.
É Deus que deve ser o objeto primário deste amor.

O homem tem uma vontade de possuir o próprio Deus.
E Deus deve ser a felicidade desta possessão.

Pelo fato, Deus deve aspirar a ser conhecido, a ser amado, a ser possuído.

Temos aqui a religião inteira.

Conhecer, amar e servir a Deus: é a religião, toda a religião.

Perguntam agora o que é a religião?

Respondo: É uma dupla força; uma ascendente, do homem para Deus, que coloca o homem nos braços de Deus; uma outra descendente, que lança Deus nos braços do homem.

EXEMPLOS

1. Resposta do chinês

Um missionário perguntou a um chinês ainda pagão: Por que estás tu neste mundo?

- Para comer arroz, respondeu este.

Quantas pessoas civilizadas dariam mais ou menos a resposta do chinês! Digo mais ou menos, pois substituíram o arroz por um quitute mais suculento, ou a guloseima por qualquer outra satisfação, talvez mais mesquinha. Esqueceram-se apenas de uma coisa: é que estão nesta vida para prepara-se à outra vida... que só a religião nos faz conhecer.

2. Um banqueiro sem religião

Um rico banqueiro de Poitiers havia declarado falência. Três de seus credores encontrando-se, perguntaram uma o outro qual era o seu prejuízo.

O primeiro disse: Eu perco 30 contos.
O segundo: Eu perco uns 40 contos.
O terceiro: Eu perco 7 mil réis apenas.

Oh! E como foi isso? Pois o próprio banqueiro me disse, meses atrás, que lhe devia 50 contos!

- É verdade, porém retirei o meu dinheiro.
- Alguém avisou-o então da proximidade da falência?
- Sim, o jornal “A verdade” do Ouest.
- Mas como é possível que nenhum dos 10 mil assinantes do jornal encontraram ali o que você encontrou?
- Os outros leram, com certeza, o que eu li, mas não souberam compreendê-lo. Eis o fato muito simples: No ano passado, o banqueiro pronunciou um discurso, em Angers, sobre o túmulo de um livre pensador, cheio de impiedade, dizendo que não tinha religião.
- É certo, lembro-me de tal discurso, mas que prova isso?... Pode-se ser homem honesto, sem religião.
- Não o nego, mas eu não raciocinei deste modo; eu pensei simplesmente: Se este homem não tem religião, não acredita nem em Deus nem no diabo; é muito possível que um dia ele não acredite também na honra e na consciência... e retirei logo meu capital. Tenho notado, de fato, que entre cem que declaram falência, há noventa e cinco que não tem religião.
- É certo, mas por que não nos avisou do fato? Ter-nos-ia prestado um grande serviço?
- Não podia cometer uma tal indelicadeza. Aliás, vocês não me teriam acreditado, me teriam tratado de: clerical! Agora, aprendam a seu custo que um homem sem religião é também um homem sem consciência.

3. Um adágio

Em certos países cristãos o povo tem um adágio, um pouco familiar, mas muito expressivo. Ei-lo.

Quereis ser feliz:

Um dia? Tomai um terno novo;
Uma semana? Matai um porco;
Um mês? Ganhai um processo;
Um ano? Casai-vos.
Toda a vida? Sêde homens honestos;
Toda a eternidade? Sêde bons cristãos!

(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 95 - 101)

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