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23 de fevereiro de 2014

DOMINGO DA SEXAGÉSIMA.

Constituição da religião

É outra parábola que o Evangelho de hoje nos apresenta: a do semeador.

O semeador é Deus que lançou a semente divina da religião, — a sua palavra, — no terreno das almas que compõem este campo imenso da humanidade.

Esta semente, infelizmente, não caiu toda no bom terreno; uma parte caiu em terreno duro, outra em terreno pedregoso, outra em terreno coberto de espinhos e outra em terreno fértil.

É o que explica que ao lado da única religião verdadeira, há várias religiões falsas. Todas, no fundo, como veremos, provêm da semente divina; o terreno, porém, não era próprio para o seu desenvolvimento: daí nasceram plantas raquíticas, outras disformes, outras quase desconhecíveis.

No fundo de todas as religiões, encontra-se entretanto, um ponto comum: suas partes constitutivas, que correspondem às três grandes aspirações do homem: conhecer, amar e servir.

A estas três aspirações correspondem as 3 partes essenciais da religião que são:

1º. O dogmas, que devemos conhecer;
2º. A moral, que devemos amar;
3º. O culto, que devemos manifestar.

Já vimos que a religião é a procura e o encontro de Deus e do homem, o seu comércio recíproco; vamos ver agora o modo porque se faz este encontro.

I. O dogma

O encontro da inteligência divina e da inteligência humana constitui o dogma da religião.

Que é o dogma?

É a palavra de Deus, pública, dada paternalmente ao homem pela revelação e aceita filialmente pela submissão à autoridade.

É o homem que quer saber, aproximando-se de Deus que sabe; como é Deus aproximando-se do homem que quer saber.

É Deus e o homem conversando juntos.

É o decálogo sublime entre o pai e o filho: entre o pai que revela e o filho que escuta.

Uma inteligência pequena diz coisas pequenas.
Uma inteligência grande diz coisas grandes.
Uma inteligência divina diz coisas divinas.

Estas coisas divinas são as verdades sublimes, que constituem a primeira parte da religião: o dogma.

A religião não é uma imposição rigorosa, seca, pesada, da parte de Deus, mas sim a união de inteligência, de coração e de vida.

A inteligência divina e a humana correspondem-se admiravelmente: Deus revela ao homem o que este não sabe; e o homem, pelo raciocínio, descobre, nestas revelações, a satisfação da sua aspiração de saber.

Estes dois elementos: o divino e o humano, dão-se as mãos, completam-se admiravelmente, e fazem a nossa fé, ao mesmo tempo divina e humana, apoiada sobre a palavra divina que revela e o espírito humano que raciocina.

II. A moral

A segunda aspiração do homem é amar. É o amor que faz uma lei. E a este amor corresponde o amor do homem que aceita esta lei por amor.

De fato, que é a moral?

É o encontro do Coração de Deus e o do homem. É a regra traçada paternalmente por Deus e aceita filialmente pelo homem.

É Deus dirigindo o homem porque o ama e o homem deixando-se dirigir porque se sente amado.

Tal é a idéia mãe da moral e o que se encontra em toda religião.

Erros e abusos podem ter-se introduzido nas minúcias, porém, no fundo de todas as religiões há esta verdade básica de: Deus dirigindo o homem e o homem submetendo-se à direção de Deus.

É o amor que faz as leis morais e é o amor que se executa.

A moral é o encontro do Coração de Deus e do coração do homem, para tornar o coração do homem digno do Coração de Deus.

III. O culto

É a terceira parte constitutiva da religião: o culto, o rito, as preces e cerimônias.

Que é culto?

É o auxílio filialmente pedido a Deus e paternalmente dado por Deus ao homem.

É a fraqueza humana que chama em seu auxílio a força divina!

É a força que vem em auxílio da fraqueza.

É a vida poderosa e infinita de Deus que se une à vida vacilante e limitada do homem para sustentá-la.

É a oração particular, pública, social do homem e a fé inabalável nesta verdade que Deus atende as preces da humanidade, como um pai atende as súplicas de um filhinho.

IV. Conclusão

Esta concepção da religião em sua natureza íntima, em suas partes constitutivas, parece quase uma novidade, entretanto é a única concepção verdadeira. Toda religião é constituída de dogma, moral e culto, porque ela deve corresponder às três grandes aspirações do homem: conhecer, amar, servir.

Digo que tal é o fundo necessário de todas as religiões.

Afastai pelo pensamento, os erros, as superstições que são a obra do homem e vereis resplandecer, no meio de todas as religiões, a religião verdadeira, imutável e universal, pois só pode haver uma só religião, como há uma só aritmética, uma justiça, uma lógica e esta religião única tem por fim uma função única: unir o homem a Deus e Deus ao homem.

Nenhuma religião foi inventada pelos homens: todas elas são derivadas da única religião universal e eterna. Há só um tipo donde foram copiadas imitações mais ou menos perfeitas, completas ou grotescas.

Um estudo comparado das religiões demonstra que o tipo único de religião, dado por Deus, tem as suas raízes nas profundezas da alma humana.

Sob formas diversas, há um mesmo fundo divino, atos idênticos que levam o homem a Deus e inclinam Deus para o homem.

Não há religião, por falsa que seja, que no fundo não tenha um dogma, uma moral, um culto.

Nenhum erro, nenhuma superstição pode tirar esta constituição essencial da obra divina: a religião verdadeira e eterna.

EXEMPLOS

1. O culto exterior

Um dia, uma senhora de alta sociedade, que se ufanava de ser livre pensadora, quis discutir religião com o publicista católico Raymundo Brücker

Não podendo refutar o seu interlocutor, ela terminou, dizendo:

- “Pois bem, seja, Sr. Brücker, estou de acordo que no dogma e na moral católica há coisas boas, mas o culto!... Estas práticas exteriores, orações e cerimônias públicas, acho tudo isso muito mesquinho! Creio que a Igreja podia dispensar-se destas coisas: a religião ganharia muito com uma tal supressão!”

Brücker que se havia mostrado até aí da mais fina cortesia para com esta senhora, levanta-se, de repente, como movido por uma mola e pondo-lhe pesadamente a mão sobre o ombro, lhe diz de chofre:

- Ah! Minha gordona, como tu tens espírito!
- Senhor! Bradou a senhora indignada, recuando três passos, quem me julgas, então? Ignoras os primeiros elementos de civilidade?
- Desculpa-me, senhora, retornou Brücker, não ter compreendido que exiges para ti um culto exterior, que julgas de tão pouca importância nas relações com Deus.

O culto exterior, minha senhora, não é outra coisa, senão as formas da civilidade e do respeito que devemos a Deus.

2. Confissão de um protestante

O incrédulo Frederico II, rei da Prússia, acabava de assistir na catedral de Breslau à uma missa solene pontifical, cantada pelo Cardeal Zenzendorff.

Na saída disse ao Prelado: Eminência, a sua Missa me fez refletir e tirar a seguinte conclusão:

Os calvinistas tratam Deus como se fosse um criado,
Os luteranos O tratam como igual,
Os católicos tratam-nO como Deus.

3. Uma tradição judaica

Há entre os judeus a seguinte tradição:

Quando Deus havia criado o mundo, perguntou aos anjos o que pensavam da sua obra. Um deles respondeu:

- A obra é grande e perfeita, porém falta qualquer coisa: precisava criar uma voz clara, poderosa e harmoniosa, que de continuo enchesse todas as partes do mundo com seus sons, cantando dia e noite ao criador, um hino de gratidão por todos os seus benefícios.

Esta voz existe: é a do culto público, prestado a Deus pela humanidade, em nome da Criação inteira.

(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 103 - 109)

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