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28 de setembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV

Nas conferências seguintes, vamos ter o prazer de nos deter em cada um dos principais mistérios de Jesus, contemplar os Seus atos, receber as Suas palavras. Veremos quanto de inefavelmente divino e profundamente humano há em todos os gestos do Verbo lncarnado : veremos como cada  um  dos Seus mistérios en­cerra um ensinamento próprio, possui uma  luz  especial
e é para a nossa alma fonte de uma graça particular, cujo fim é  «  formar Jesus em nós».
Nesta primeira conferência, desejaria mostrar-vos
como  os mistérios de Jesus  têm isto de característico: são tanto Seus como nossos.
É  esta uma verdade basilar, que nunca será demais meditar no começo das nossas palestras, que nunca devemos perder de vista, no decurso delas, singularmente fecunda como é para a nossa vida sobrenatural.
Com efeito, sentir-se intimamente unida por Jesus a cada um dos Seus mistérios, é para a alma piedosa inesgotável fonte de confiança. Esta verdade desperta
na alma doces atos de reconhecimento e de amor que a entregam inteiramente Àquele que, com tanta generosidade. se quis dar e unir a ela.
Mas não será esta verdade um sonho, uma quimera? Será de fato uma realidade? Sim, é uma reali­
dade. uma realidade divina: mas só a fé a recebe, como só  o amor no-la deu:  Et nos  . .. credidimus caritati.
Por que é que os mistérios de Jesus Cristo são nossos mistérios?
Por tríplice razão.
Em  primeiro lugar. porque  Jesus Cristo os  viveu  por amor  de  nós.
O  amor do  Pai foi,  sem  dúvida o móbil de todos os atos da vida do verbo  Incarnado. No momento em que vai consumar  a Sua obra,  Cristo declara aos Apóstolos que «é por  amor do  Pai que se vai entregar:  Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem».  Na admirável oração que naquele momento dirige ao Pai Jesus diz ter cumprido a Sua missão. que era glorificá-Lo na terra:  Ego te clarificavi super terram; opus consumavi quod dedisti mihi  ut  faciam .  Em cada mo­mento da Sua vida,  Jesus  podia realmente dizer que só procurou a vontade do Pai:  Quae placita sunt ei facio semper.
Mas o amor  do  Pai não é o único amor que faz pulsar o coração de Cristo; ama-nos também dum modo infinito. Foi por nós que desceu do céu, para nos resgatar, para nos salvar da morte :  Propter nos  et propter nostram salutem;  para nos dar a vida:  Ego veni ut uitam habeant, et abundantius habeant.  Para si mesmo, Cristo não tinha necessidade de satisfazer e merecer uma vez que Ele é  o  próprio Filho  de Deus,  igual ao Pai, a cuja direita está sentado no mais alto dos céus: mas foi por nós que tudo  suportou.  Se incarnou se nasceu em Belém, se viveu na obscuridade de uma vida de
trabalho, se pregou e fez  milagres, se morreu, se ressuscitou, se subiu ao céu, se enviou o Espírito Santo, se está presente na Eucaristia, é por nós, por amor de nós. «Cristo, diz S. Paulo,  amou  a Igreja, quer dizer, o Reino que há-de ser formado pelos eleitos. e por amor dela se entregou, a fim de a purificar, santificar e fazer dela uma conquista imacuíada».
Todos os mistérios são, pois, vividos por Jesus por amor de nós, para que um dia estejamos com Ele na glória do Pai, onde Ele está por direito. Sim, cada um de nós pode dizer com S. Paulo:  Dilexit me, et tradidit semetipsum  PRO ME  «Jesus Cristo amou-me e entregou-se por amor de mim». E a Sua imolação não é mais que o coroamento dos mistérios da Sua vida terrestre: foi por mim, porque me amou, que Ele tudo realizou.
Graças Vos sejam dadas, meu Deus, por este inenarrável dom que nos fizestes da pessoa do Vosso Filho, nossa salvação e nossa redenção:  Gratias Deo super inenarrabili dono ejus.
Outra razão pela qual os mistérios de Jesus nos pertencem é que em todos eles, Cristo se mostra nosso modelo.  Veio ao mundo para ser nosso modelo. Não foi só para nos anunciar a salvação e realizar, em principio, a nossa redenção, que o Verbo incarnou; foi para ser o ideal das nossa almas. Jesus Cristo é Deus a viver no meio de nós ; Deus aparecido, ·tornado visível, tangível, posto ao nosso alcance, a indicar-nos, tanto pela Sua vida como pelas Suas palavras, o caminho da santidade. Não temos de procurar noutra parte o modelo da nossa perfeição. Cada um dos Seus mistérios é uma revelação das Suas virtudes.  A  humildade do presépio, o trabalho e o apagamento da vida oculta, o zelo da vida pública, o aniquilamento da Sua imolação e a glória do Seu triunfo,
são virtudes que devemos imitar, sentimentos que devemos compartilhar, estados de que devemos participar. Na última Ceia, Nosso Senhor, depois de haver lavado os pés aos Apóstolos, dando-lhes assim, Ele, o Mestre e Senhor, exemplo de humildade, dizia-lhes: «Dei-vos o exemplo, para que façais como me vistes fazer». Isto podia Ele dizer de tudo quanto fez.
Aliás, Ele o disse: «Eu sou o caminho»  -Ego sum via;  mas não é o caminho senão para ir adiante de nós:  «Aquele que me segue não anda em trevas, mas chega  à  vida eterna  » . Jesus, pelos Seus mistérios, marcou, para assim dizer, todos os  estádios que,  na nossa vida sobrenatural, temos de percorrer depois d 'Ele e com Ele;  ou antes, Ele próprio arrasta a alma  fiel  «na carrei­ra que percorre como um gigante:  Exsultavit ut gígas ad currendam  viam ». «Eu  criei-vos  à  minha imagem e semelhança,  dizia Nosso  Senhor  a Santa Catarina de Sena : mais ainda, assumindo a vossa natureza, tornei- me semelhante a vós. Consequentemente, não cesso de trabalhar para que vos torneis semelhantes a mim, tanto quanto sois capazes, e esforço- me por renovar em vossas almas, no seu caminhar para o céu, tudo o que se passou no meu corpo».
E aqui está por que  a  contemplação  dos mistérios de  Cristo é tão fecunda para a alma.  A  vida, a morte, a glória de Jesus são o modelo da nossa vida, da nossa morte, da nossa glória. Nunca esqueçais esta verdade: não agradamos ao Pai Eterno senão na medida em que imitarmos o Seu Filho, na medida em que reproduzirmos em nós a Sua imagem. Porquê? Porque «foi a esta  imagem que desde toda a eternidade Ele nos predestinou». Para  nós não  existe  outra forma  de santidade, a  não ser a que nos ensinou Jesus Cristo : o grau da  nossa  imitação de Jesus fixa a medida da nossa perfeição.
Finalmente, terceira razão, esta mais íntima e profunda, que faz nossos os mistérios de Jesus Cristo. Não só Jesus os viveu por nós, não só eles são para nós modelo, mas ainda em Seus Mistérios Jesus Cristo  é  um conosco. Não há verdade em que  S. Paulo mais tenha insistido ; e o meu maior desejo é que possais comprendê-la em toda a sua profundeza.
No pensamento divino, nós formamos um só todo com Cristo.
Foi n'Ele, e não fora d'Ele, que Deus Pai nos escolheu  :  Elegit nos in ipso;  Deus não nos separa
do Seu Filho Jesus ; se nos predestina para sermos conformes a Seu Filho, é para que o Seu  Filho  seja o primogénito duma multidão de irmãos. Praedestinavit  nos conformes  fieri imaginis Filii sui  UT  sit ipse promigenitus in  multis fratribus.
Tão íntima é esta união que Deus quer realizar entre Seu Filho Jesus e os eleitos, que  S.  Paulo a compara com a que existe entre os membros  e  a cabeça dum só e mesmo corpo. A Igreja, diz o grande Apóstolo, é o Corpo de Cristo, e Cristo a Cabeça. da Igreja ; unidos, formam o que  Santo  Agostinho chama o «Cristo Total»: Totus Christus. caput et corpus est: caput unigenitus Dei Filius  et  corpus ejus Ecclesia. Tal é o plano divino: Deus omnia subjecit sub pedibus ejus; et ipsum  dedit  caput supra omnem Ecclesiam. Cristo é a Cabeça deste Corpo Místico que Ele forma com a Igreja, por isso que é o seu Chefe  e  para todos os seus membros fonte da vida. Igreja e Cristo são, para assim dizer, um único e mesmo ser :  Membra sumus corporis ejus, de carne ejus et de
ossibus e jus. Deus Pai une de tal modo os eleitos a Seu Filho, que todos os mistérios vividos por Cristo, Ele os viveu na qualidade de Cabeça da Igreja.
Vede como S. Paulo é explícito neste ponto: «.Deus, diz ele, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando, pelas nossas ofensas, estáavamos mortos para a vida eterna, vivificou-nos  com Cristo. n'Ele  nos ressuscitou,  juntos  com  Cristo  nos fez sentar no céu, para mostrar aos séculos vindouros, pela bondade que nos manifesta em Jesus Cristo, as
infinitas riquezas da Sua graça.
Este pensamento aparece repetidas vezes nos escritos do Apóstolo: «Deus sepultou-nos com Cristo:
Consepulti enim sumus  CUM  ILLO  ;  quer que sejamos um com Cristo na Ressurreição e na Ascensão: CoNresuscitavit  nos,  CONsedere fecit nos IN ILLO.
Nada mais certo do que esta união de Cristo com os Seus eleitos no pensamento divino ; e o que faz que os mistérios de Jesus Cristo sejam nossos, é principal­mente o fato de o Pai Eterno nos ver com Seu FiIho em cada um deles e Jesus os ter vivido como Chefe da Igreja. Por este motivo, eu diria até que estes mistérios são mais nossos do que d'Ele.  Jesus Cristo, enquanto Filho de Deus, não teria suportado  as  humilhações da lncarnação, nem os sofrimentos e dores da Paixão :
não teria necessidade do triunfo da Ressurreição, a seguir à ignomínia da morte. Passou por tudo isto como Chefe da Igreja ; tomou sobre Si as  nossas  misé­rias e as  nossas  enfermidades  :  Vere languores NOSTROS ipse tulit;  quis passar por onde nós também tería­mos de passar, e, como chefe, mereceu-nos a graça de  O seguirmos  em  cada um dos Seus mistérios.
Nem tão-pouco Jesus Cristo nos separa de Si em tudo o que faz. Declara que «Ele é a videira e nós
os ramos».  Que união mais perfeita do que esta, em que a mesma seiva, a mesma vida circula na raiz e nos sarmentos?  Cristo  une-nos  de tal modo a Si, que tudo o que  fazemos  a uma alma que nele crê, é a Ele próprio que o  fazemos: Quamdiu  fecistis uni ex his fratribus  meis  minimis mihi.  fecístís.  A união que O prende aos Seus discípulos. pela graça, quer que seja a mesma que, por natureza,  O  identifica com o Pai:  Ut unum  sint, sícut tu,  Pater, in  me, et ego  in
te.  E. este o fim sublime a que nos quer conduzir pelos Seus mistérios.
E assim é que todas as graças que  mereceu por cada  um  dos Seus mistérios, mereceu-as para no--las distribuir a nós. Recebeu do Pai a plenitude da graça: Vidímus  eum  plenum gratiae;  mas recebeu--a, não apenas para Si; S. João acrescenta que desta plenitude todos nós recebemos:  Et de  plenitudine  ejus  omnes  nos accepimus;  é d'Ele que a recebemos, pois Ele é o nosso Chefe e  o  Pai tudo a Ele submeteu:  Omnia subjecít  sub pedibus ejus; et ipsum dedít caput supra
omnem Ecclesiam.
De modo que a sabedoria, a justiça, a santidade, a força de Cristo tornaram-se  nossa  sabedoria,  nossa santidade,  nossa  justiça.  nossa  força:  [Christus]  factus est  NOB!S  sapientia a  Deo et  justitia ,  et  sanctificatio  et redemptío.  Tudo o que é d 'Ele é nosso ; somos ricos das Suas riquezas e santos da Sua santidade : « Ó homem, diz o Venerável Ludovico Blósio, se dese­jas verdadeiramente amar.  Deus. és rico em Cristo, por mais pobre que sejas. Porque podes humildemente apropriar-te do que Cristo fez e sofreu por  ti».
Cristo é verdadeíramente nosso, porque somos Seu Corpo Místico. As Suas satisfações,  os  Seus méritos, as Suas alegrias, as Suas glórias são nossas  . . .  Ó  ine­fável condição a do cristão, tão intimamente associado a Jesus e aos Seus estados! Ó grandeza admirável  a da alma a quem nada falta da graça merecida por Cristo em Seus mistérios!  Ita ut nihil vobis desit in ulla gratia!

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