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16 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XXII - AMOR E RESPEITO AOS MINISTROS DE DEUS

1. - Na dignidade do sacerdote se honra o dom de Deus
Por opinião constante dos homens não menos que por sentença infalível do Evangelho, quem exalta a si mesmo é julgado digno de opróbrio e humilhações: "Quem se exalta será humilhado" (Lc 3, 5). Não porém quem é exaltado por Deus; pois este ao contrário possui um justo e fundado direito àquela honra e àquela glória, que - como sombra do verdadeiro merecimento - o vai sempre seguindo
passo a passo. Pois neste caso - se bem se considera - não se honra já o que é do homem, mas sim o que é de Deus no homem; e os dons de Deus merecem sempre toda estima, toda reverência dos homens, onde sejam colocados pela sua altíssima Providência. Ora como de um lado não encontro quem Deus tenha querido exaltar sobre esta terra mais que seus sacerdotes; assim por outro não sei ver como, sem tornar-se culpados de uma presunção insofrível e sem danificar, pois, muito suas
consciências, possam tantos e tantas entre os nossos cristãos mostrar conhecer tão pouco e venerar tão menos uma dignidade tão sublime e um caráter tão soberano.
2. - O sacerdote é ministro e embaixador de Cristo
Que vós deveis, meus irmãos, urna obsequiosa sujeição aos sacerdotes, aparece em primeiro lugar da dignidade sobre-humana de que foram investidos pelo Altíssimo Rei do Céu e da terra; "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus" (1Cor 4, 1). Esta é a justa idéia que deve formar o povo cristão dos sacerdotes. Quando vê um
deles deveria dizer: eis um ministro de Cristo, um dispensador dos mistérios celestes; eis um embaixador do Supremo Monarca, como em um outro lugar se expressa o Apóstolo, onde disse: "desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio" (1Cor 5, 20). Ora se aos ministros de um rei terreno e aos seus embaixadores se atribui tanta honra e respeito por todos os súditos, que obséquio pensais vós, que reverência pode convir a estes ministros tanto mais ilustres de uma corte não terrena, mas celeste? De fato se os príncipes deste mundo são tão solícitos para que aos seus legados seja concedido quase uma honra semelhante à que é devida às suas augustas pessoas, e se punem os ultrajes com a mesma severidade que costumam punir os próprios; não de outro modo fez Deus querido se trata das honras devidas aos seus Ministros.
3. - Deus impõe o respeito aos seus sacerdotes
Atendei à força das palavras com que Ele mesmo cria uma lei no Eclesiástico: "Teme a Deus com toda tua alma, tem um profundo respeito pelos seus sacerdotes. Ama com todas as tuas forças aquele que te criou; não abandones os seus ministros. Honra a Deus com toda a tua alma, respeita os sacerdotes" (7, 31-33). Três vezes repete o mesmo preceito; e tantas vezes manda que ele seja amado,
reverenciado, temido, outras tantas manda que sejam honrados os seus ministros; mostrando assim com evidência que depois de Deus em primeiro lugar se deve honra, reverência, amor àqueles que Ele mesmo o constituiu para fazer suas vezes aqui e representar a nós a sua imagem sobre a terra. Pois se Deus na antiga Lei mandou que os blasfemadores do seu divino nome fossem apedrejados (Lv 24, 16) julgou também que o faltar ao respeito com os sacerdotes fosse caso não menos digno de morte (Dt 17, 12).
4. - O sacerdote tem poder sobre o corpo místico e sobre o corpo real de Cristo
Basta de fato refletir sobre aquela autoridade soberana, ou melhor, divina, que Cristo lhes comunicou, para que fiquemos convencidos ser muito escassa toda reverência que podemos tributar ao tão eminente caráter deles. Quando o divino Redentor curou aquele paralítico de que faz menção o Evangelho, todo aquele povo espectador, quase perdendo de vista um fato por outro tão estrepitoso, ficou admirado ao considerar aquelas honrosas palavras: "Teus pecados te são perdoados", com que o Médico celeste entendeu curar naquele enfermo, antes a alma que o corpo; e começaram a dizer entre si: "E quem é este homem que perdoa também os pecados? Quem pode perdoar os pecados senão somente Deus?" (Lc 9, 20-21). E vede também uma autoridade tão própria só de Deus com igual extensão Ele quis comunicar aos sacerdotes: "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles à quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 23). Que príncipe, que rei sobre a terra tem tanto poder; antes a que santo ou a qual Anjo do céu, a quem tenha sido concedido uma autoridade tão sublime sobre o corpo místico da Igreja? Aliás que maravilha, que Deus tenha querido sujeitar à autoridade sacerdotal todos os súditos do amplo reino de sua Igreja, quando parece que sujeitou-se Ele mesmo que é seu Soberano?Oh! Excelsa, oh! Sublime, oh! Inefável dignidade dos Sacerdotes! Chamam-no eles do céu à terra o seu Deus, e ele obedece "obedeceu o Senhor à voz de um homem" (Js 10, 14) - e assim quase debaixo deles se inclina até ser manejado e bendito ainda pelas suas mãos.
5. - Os fiéis recebem todo bem em relação à salvação pelas mãos dos sacerdotes
Eu sei, irmãos, que se até agora apresentei-vos valiosos argumentos para submeter-vos de bom grado à autoridade de vossos Sacerdotes e reverenciar neles um tão augusto caráter; com esta última razão que apresentei dei quase a todas as outras coroa e complementação. Não obstante não cessarei de investigar outras ainda pois a vós mesmos muito importa uma sujeição tão devota. Dizei-me, que bem podereis esperar em relação à vossa salvação sem uma tão justa dependência, quando todo bem que até agora recebestes não vos veio por outras mãos senão pelas dos sacerdotes? Pois assim argumenta S. João Crisóstomo: "se ninguém pode entrar no Reino dos céus, sem antes ter renascido pela água e pelo Espírito Santo (Jo 3, 5) e se alguém não comer a Carne do Senhor está privado da vida eterna (Jo 6, 53), nem estas coisas se cumprem por outro meio senão por aquelas mãos santas dos sacerdotes; quem mais poderá evitar o fogo inextinguível do inferno sem o auxílio deles? Ou conseguir a inacessível coroa preparada lá em cima? Os sacerdotes portanto, vos regeneraram pelo S. Batismo; e por meio deles vos revestistes de Jesus Cristo, e vos tornastes membro daquela santa Cabeça. Os vossos pais vos geraram para a terra, eles para o céu. Aqueles vos deram uma vida que não podem
defender das doenças que assaltam e muito menos, depois, da morte; estes muitas vezes salvaram vossa alma enferma; já moribunda, antes morta de fato, à graça e já às portas do inferno para ser aí eternamente sepultada, a restituíram à vida, arrancando-a das mãos do demônio, fecharam as portas daquele horrendo cárcere, e reabriram as do céu; nuas, esquálidas, disformes, a revestiram dos primeiros dons e da beleza perdida". Se vós agora já estais crescidos e cheios de riquezas espirituais, são eles que vos alimentaram e ainda vos nutrem com o alimento salutar da divina Palavra,
eles vos preparam cada dia aquele banquete substancial, e pelas suas mãos vos é administrado o pão dos Anjos. Se vós repousais seguros no seio da paz do vosso coração, se não prevalecem vossos inimigos prejudicando vosso espírito, se entre as ameaças de uma justiça divina irritada se apresenta ao mundo com aparência propícia ainda a Misericórdia; são os sacerdotes que apresentam ao Altíssimo preces cotidianas por ofício, eficacíssimas por instituição, pela paz comum e tranqüilidade; eles que oferecem cada dia sobre os altares aquela Hóstia tão aceita ao divino Pai para aplacá-lo enfurecido com os pecadores, para incliná-Lo favorável aos desejos dos justos, para abrir em suma uma inexaurível mina de graças às necessidades espirituais e temporais de todos; eles enfim que velam - talvez os únicos e sós - sobre o bem mais interessante da salvação de vossa alma, da qual se empenharam para prestar detalhada conta ao severo Juiz, como da própria.
6. - Os sacerdotes têm necessidade de serem mantidos pela oração dos fiéis
Se a evidência das razões por mim aduzidas fez nascer em vós um sentimento de grande veneração pelo caráter e autoridade sacerdotal, isto enfim não se torna senão unicamente em vossa vantagem. Os sacerdotes não tiram lucro disso; porque sejam eles reverenciados ou não pelos homens, isto não lhes acrescenta nem diminui "o louvor de Deus, que somente este os recomenda" (2 Cor 10, 18).
Aliás, direi mais. Tornar-se-lhe-ia favorável - se isto pudesse ser desejado sem vosso prejuízo - ser por vós vilipendiado e menos estimados, enquanto a verdade nos faz saber que "Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! Porque então grande é vosso galardão no
céu" (Lc 6, 22-23). A nossa única maior utilidade, antes a única que podemos desejar sabeis qual seja? Eu vos direi: se, ajudando nós o nosso próximo a conseguir a salvação, nós também seremos com recíproco esforço ajudados a consegui-la pelas suas orações. Porque se nós somos superiores a vós por dignidade e quase anjos pelo ofício, somos homens por condição, iguais a vós por natureza. Nos oprimem por todos os lados as mesmas tribulações; nos assediam os mesmos inimigos; nos
ameaçam os mesmos perigos, senão maiores. Sim, irmãos, se a vós é impossível obter graça e salvação sem nós, quanto a mim pelo menos, eu não duvido afirmar temer eu muito que a minha negligência e tepidez, debaixo de um cargo tão excedente, não me perca diante daquele Juiz que se protesta querer ter "um juízo duríssimo com aqueles mesmos que Ele elegeu para ser superior" (Sb 6, 6) por dignidade aos outros; a menos que as orações de muitos não precedam para que ele se torne a mim mais propício e mais aplicado. Nós, certamente, diante daquele robusto cedro do Líbano - quero dizer o Apóstolo Paulo - não somos senão frágeis abetos (cf Zc 11, 2); contudo ele em tantas cartas não pede outras coisas aos fiéis, quase como recompensa de tantos trabalhos e solicitudes, senão que rezem incessantemente por ele, como se tivesse necessidade de ser sustentado pelas orações de todo o mundo ele que a todo mundo havia estendido a feliz sombra do seu mais paterno cuidado. Animados, portanto, por um tal exemplo, nós também exortamos vossa caridade para não defraudar as nossas - embora elas quase não existam - pequenas fadigas por vós nesta mercê a nós tão necessária. Rezai, sim, rezai ao Senhor por todos os vossos Sacerdotes de modo especial por aqueles que exteriormente ou interiormente presidem os bens do vosso espírito; nem queirais esquecer deste - embora inútil - ministro que vos fala, como o mais necessitado de todos "a fim de não vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros" (1Cor 9, 27).

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