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30 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe Gaspar Bertoni.

XXIV - A DEVOÇÃO 

1. - Juízo errado da vida devota considerada só externamente
O amável Mestre Jesus Cristo aparece entre seus discípulos para consolá-los com um testemunho real da sua gloriosa ressurreição exibindo-lhes a paz: "A paz esteja convosco"; sou eu, não temais". Todavia a visão tão doce, as palavras de tanto afeto, fugiram todos aterrorizados como por um espírito de horror: "Perturbados e espantados, pensavam estar vendo um espírito" (Lc 14, 36-37).
O caso na verdade é bastante estranho, mas não tão raro também em nossos dias. Quantos não são de fato entre os cristãos modernos, que ao convite para achegar-se mais de perto ao seu Deus, - isto é, de servi-Lo no seu estado com maior perfeição - se afastam amedrontados! Sentem sim em certos tempos luzes vivas e penetrantes na mente, impulsos fortes e suaves no seu coração; mas qual!
Os penhores mais evidentes e as ofertas mais seguras de paz tornam-se para eles quase outros tantos argumentos de aviltação e de consternação, observam em suma a vida devota como um objeto de tristeza, de angustia e de horror. Assim mostram claro com suas ações a quantos erros e quantos enganos está sujeito quem quer julgar as coisas espirituais com olho terreno, antes, carnal. Eu me empenho em fazê-los ver a devoção debaixo de um aspecto tão doce, tão alegre, tão amável, que eles mesmos devem correr para abraçá-la avidamente. E, para que procedamos com melhor ordem, eu acredito ser bom não expor aos seus olhos a verdade nua, se antes não desembaraçarem aquelas trevas que lhes impedem de admirá-la. A devoção, portanto, segundo como a pintam vossos sentidos, é pálida e acidental no rosto, severa no olhar, horrorosa no semblante. Emagrece a carne por perpétuos jejuns, lacera o dorso com pesados flagelos, cobre debaixo de ásperos mantos hirsutos cilícios. Foge cortesmente das doces amizades; e inimiga de toda delícia, insensível a todo prazer, corre entocar-se entre negras solidões, onde ajoelhados imóveis no chão, parece que se alimente de lágrimas e não vive senão suspirando. Que se alguma vez aparece em público, não o faz quase senão para mendigar insultos, e voltar saciada de opróbrios.
2. - Não faltam almas generosas que abraçam a vida devota
Porém vejo com maravilha toda idade, todo sexo, toda condição, todo estado enviar seguidores atrás dela a porfia. Quantos não se viram e não se vêem ainda generosos na mais bela flor da idade e da esperança desprezar ricas e esplêndidas núpcias para oferecer a mão a ele sozinha! Quantas nobres e delicadas donzelas, desprezando as delícias e as comodidades, não voarem para fechar-se em claustro solitário para fazer-lhe tranqüila companhia! Quem se despoja inteiramente das riquezas abundantes pelo seu estado para correr mais ágil e mais livre nas pegadas desejadas para segui-la; quem se chama feliz por haver trocado as grandes honras e as dignidade mais excelsas pela mais obscura e abandonada abjeção e isto para agradar a ela somente; quem finalmente chega a depor os antepassados cetros e gloriosos diademas para inscrever-se entre seus fiéis súditos e servir obedientes  luminosos, mas também não abundam incomensuradamente as histórias de todos os séculos.
É necessário, portanto , concluir, que se encontra na devoção uma beleza, uma doçura, uma riqueza, uma alegria, uma glória, que não sabemos no primeiro momento descobrir; embora tantos a tenham amado a tal ponto de preferi-la às belezas, às delícias, aos tesouros, às honras todas do mundo. E tanto mais convém dizer que ela seja amável, enquanto que todo aquele seu exterior tão terrível não
vale nem mesmo ele para deter tantos fervorosos amantes de segui-la por um caminho assim tão áspero.
3. - A vida devota é abundante em íntimas consolações
Eis aqui, portanto, o engano. A maior parte não vê senão o exterior da devoção; mas não considera a interior consolação de que são ricos os servos de Deus, tanto mais doce, quanto mais secreta. Esta é "aquele maná escondido que ninguém conhece senão aquele que o receber" (Ap 2, 17). Esta é aquele "perpétuo banquete" (Pr 15, 15), de que goza uma alma na "segurança" e na "paz" do coração. Esta é aquela" convivência" tão doce com a não criada "Sabedoria da qual é excluído todo tédio, toda amargura" (Sb 8,16). Oh! como Deus é bom para os corações retos" (Sl 72, 1): exclama o Salmista. E em outro lugar: "Oh! quão grande é Senhor, vossa bondade, que reservastes para os que vos amam" (Sl 30, 20), para com os vossos servos!
4. - Outro juízo errado sobre a vida devota é de fazer comum que é próprio de poucos
Quanto seja grande este erro, se poderá facilmente perceber se se quiser prestar atenção a uma definição mais exata que nos propõe com S. Tomás todos os mais doutos e iluminados mestres: isto é, que a verdadeira devoção consiste essencialmente em uma vontade pronta de entregar-se a Deus e dedicar-se àquelas coisas que mais pertencem ao seu serviço (2). Ora, embora seja verdadeiro que
Deus chame todos para servi-Lo, entes possam todos, e a todos convém, desejar santificar-se em seu estado; é falso, porém que Deus queira ser servido por todos de um só modo, atendida a diferença dos estados em que são constituídos os homens pela mesma Providência. Por isso de outro modo deve ser praticada devoção por um religioso em um claustro e por um secular no coração do mundo; de outro modo porém por um Ministro sagrado nos ofícios de sua Igreja e por um pai de família no governo de sua casa; diversamente por uma Virgem que se dedica a Deus, e por uma casada que se vincula a um homem. A devoção não prejudica nenhuma sorte de vocação, antes não seria verdadeira devoção se impedisse em parle somente os deveres do próprio estado.
5. - Verdadeiro conceito de devoção
A devoção tem igualmente asas para voar ao céu, e pés para caminhar sobre a terra; e enquanto tem as mãos continuamente em movimento para trabalhar, sabe porém repousar tranqüilamente com seu coração em Deus. Tem olhos para velar,para presidir, para dirigir-se nos negócios temporais; e tem também um outro olhar mais agudo na sua mente com que jamais perde de vista o seu último fim, para conciliar-se com o divino beneplácito em toda sua ação, e para endereçar tudo à sua glória. Tem língua para falar com os homens; porém secretamente no ânimo abre suas potências interiores para jamais cessar de louvar e bendizer seu Deus. Assim trata com o mundo e conversa com seu espírito no céu; e atraindo para si por amor o seu Deus o encontra em si, o possui na abundância da paz, e goza ainda aqui na terra um outro Paraíso. Daí aquela suavidade com que esparge todas as suas
ações; daqui a invariável uniformidade do seu espírito. Nada vê nela o mundo fora de comum, nada que a distinga nos usos, nos atos nos ofícios convenientes à sua condição; e por isso se espante de ter abrigado a amar nela um não sei que de singular e de divino que não conhece. Na prosperidade não se exalta sobre os miseráveis; na adversidade não cede à tristeza. Goza da felicidade alheia como da
sua própria. Despoja-se de todo seu gosto particular, tem uma condescendência discreta ao gênio alheio, com quanto seja honesto, comunica de bom grado suas consolações a quem está em aflição de espírito. Liberal com seus amigos, benéfica geralmente com todos, sem pretensões, espera a recompensa somente do seu Deus, em quem unicamente se compraz em servir. Eu não terminaria mais de falar desta virtude. Onde estão aquelas dificuldades pavorosas que vós me apresentastes? Não vos parece que seja totalmente diferente daquela que juntastes até agora? Toda
feliz, toda doce, toda amável?
6. - Deixemo-nos dirigir pelo instinto do Espírito Santo
Agora, pois, ó amantíssimos irmãos em Cristo, que já forem tiradas, como espero, aquelas dificuldades que somente afastavam o vosso ânimo da vida devota, que mais vos resta fazer? Seguir com toda prontidão o impulso do Espírito Santo; oferecer desde este momento o vosso coração a Jesus que vô-lo pede; resolver eficazmente servir daqui para diante todos os dias de vossa vida aquele Deus que merece tão bem os vossos obséquios. Providos de ser e de vida pela sua mão criadora, fostes introduzidos no mundo unicamente para este fim; para conhecer, amar, louvar, servir o Autor de todo bem, e promover a sua glória nesta terra para merecer assim uma gloriosa recompensa e uma perfeita felicidade no Céu, gozando e possuindo o vosso Deus por todos os séculos. Vós resgatados com o sangue de um Deus; vós adotados como filhos do Rei do céu; vós feitos participantes da natureza. divina pelo hábito da graça; vós não sois mais de vós mesmos, mas de Deus, para servir só a Ele; não sois mais devedores da carne ou do sangue para ter de comprazer os maus desejos, mas ao espírito, para deixar vos dirigir docilmente ao seu instinto e aos seus ditames; já não sois mais terrenos, para que tenhais que servir ao mundo, mas celestes para agir e viver como santos. O tempo é breve; a figura deste mundo logo terminará. Nós no entanto a grandes passos cada dia nos aproximamos de uma estável eternidade. Tudo aquilo, pois que devemos fazer, convém fazê-lo logo e com grande pressa. Esperamos talvez que nos colha a noite, para, começar a agir? Esperamos que chegue o Esposo, para suprir de óleo nossas lâmpadas já quase apagadas? Esperamos que nos chamem para as núpcias, para tecer então o pano para a veste nupcial? "Eis que venho logo" nos faz saber o Patrão e o Esposo; "Eu estou aqui perto de vós, e comigo trago minha recompensa" (Ap 22, 12). Feliz será aquela alma que estiver bem enfeitada e disposta para acolhê-lo. "Vem, ela ouvirá, vem, minha esposa, recebe a coroa que o teu Senhor te preparou desde toda a eternidade" (3). "Muito bem, lhe dirá pois, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito; vem regozijar-te com teu Senhor" (Mt 25, 21, 23).

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