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14 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XX - O AMOR PARA COM DEUS.

1. - O amor se funda sobre a semelhança
Não existe talvez outro nome que com igual dileção chegue a ferir um coração gentil quanto o doce nome do Amor; nem mais agradável espetáculo como ver outros corações feridos igualmente e ligados, seguir o triunfo de um amor vitorioso. Vós já bem percebestes que vos falo de um amor celeste, sobre-humano e divino.
A todos é conhecida por cotidiana experiência aquela secreta admirável força que usa o ímã para atrair o ferro e uni-lo a si mesmo. Uma força semelhante exerce também o Bem sobre o apetite humano. Porque tão logo ele é proposto pelo intelecto à vontade, imediatamente esta o atrai para si e obriga docemente a unir-se. Este movimento da vontade para o bem é exatamente isto que se chama amor. Vede que coisa maravilhosa, mas verdadeira. Acontece às vezes que um Bem, embora grande em si mesmo - que tem maior força, pois, para atrair - menos mova a vontade, antes efeito totalmente contrário a afaste de si. De fato também o Sábio apresenta, como principal causa do amor, a proporção, ou seja a semelhança: "Todo ser vivo ama seu semelhante" (Eclo 13, 19). Ora este é justamente o nosso caso. De fato eu vos fiz um doce convite ao amor divino; mas vós, contemplando a Divindade como um bem na sua soberana excelência muito desproporcionado à vossa extrema baixeza e miséria, que maravilha pois se os pensamentos e os vossos afetos retornem para si mesmos tímidos e confundidos? Descoberta a causa do vosso temor, é-me coisa fácil destruí-la para colocar o
vosso coração em plena liberdade.
2. - Semelhança da alma com Deus
Nós somos formados de duas substâncias diferentes entre si; de alma e de corpo. Quanto ao corpo, eu bem concedo que não encontraremos entre Deus e nós senão desproporção e inconveniência. Deus não é de fato - diria aqui S. Agostinho - nem cor para ser natural aos nossos olhos, nem sabor para fazer-se gostar pelo nosso paladar, nem som para ser ouvido pelas nossas orelhas, nem outra qualidade material para ter a mínima conveniência com nossos sentidos. Mas se do exterior sensível nos voltarmos para nossos mais justos reflexos da alma, que é a melhor e a formal parte de nós mesmos, oh! aqui sim há possibilidade de encontrar muita proporção e conveniência.
A nossa alma é espiritual; Deus também é espírito. O ser Dele é simples, imutável, eterno; a essência da alma é simples, incorruptível, imortal. Deus é puro intelecto, e benigna a sua vontade; a alma também é inteligente e dotada de livre arbítrio. Que adianta ficarmos aqui combinando outras semelhantes particulares correlações? Deus mesmo se manifesta nas Escrituras ter Ele, ao criar a alma, entendido formar sua imagem: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gn 1, 26); daí como a alma na unidade da sua, substância representa a unidade da Divina Natureza, assim nas suas três distintas potências representa a Trindade augusta das Pessoas, ainda mais perfeitamente: porque Deus conhece a si mesmo e se ama como o mais perfeito Bem, assim alma é capaz de conhecer Deus e de amá-lo. Uma tão grande relação de semelhança não será bastante para despertar
nela o mais sensível afeto de complacência e de amor?
3. - A própria indigência da alma atrai a divina liberalidade
Mas já percebo o que alguém quer me opor. Deus é um Bem supremo, nós somos míseros pecadores. Observai, porém, como eu me sirvo desta mesma objeção para concluir a meu favor. Deus é um bem Sumo, dizeis; portanto, eu prossigo sumamente comunicável; pois entende também o filósofo como o Bem, quanto mais é perfeito, tento mais comunicável. Nós somos miseráveis, e também - se quiserdes - miseráveis ao extremo. Portanto necessitados ainda ao extremo de auxílio e de bens. Por outro lado a nossa potência espiritual tem uma maravilhosa capacidade sendo perfectível a um
indeterminado sinal, segundo a palavra: "o justo faça a justiça e o santo santifique-se ainda mais". (Ap 22, 11). Ora que coisa mais conveniente, mais consentânea a uma Bondade infinita, que deseja direi quase - comunicar sem fim suas perfeições, que encontrar uma alma quanto capaz tanto necessitada e indigente de todo tipo de bens? Também entre os homens, aqueles que são verdadeiramente liberais não gostam de encontrar quem igual a eles seja rico, mas também os mais pobres e necessitados, para distribuir com alegria no meio deles as suas riquezas. Quanto mais Deus! Tão contente ele de fato de atendê-los ou de encontrá-los, vai a procura dos mais necessitados e os chama gritando forte por meio de Isaías: "Todos vós que estais sedentos, vinde à nascente das águas, vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar. Por que despender vosso dinheiro naquilo que não alimenta, e o produto de vosso trabalho
naquilo que não sacia? Se me ouvis, comereis excelentes manjares, uma suculenta comida fará vossas delícias (Is 55, 1-2). "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15, 24), "e para salvar aquilo que já estava perdido (Mt 18, 21) para que tenham a vida, e para que a tenham em abundância, (Jo 10, 10).
4. - O nosso coração é feito somente para Deus
E se tudo isto vos parece ainda pouco, eu acrescentarei mais que nosso coração foi feito de tal modo para Deus, que fora de Deus não existe nada que possa ter proporção com ele. De fato aqueles desejos tão vastos, aquele não saciar-se jamais com algum bem ou prazer, mas sempre acender-se com maior apetite, outra coisa não quer significar, se não que os bens deste mundo são de fato
desproporcionais à grandeza do nosso coração, e que a um coração quase infinito nos seus desejos, outra coisa não convém sendo um bem igualmente infinito.
5. - Exemplo de S. Luiz Gonzaga
Mas concitemo-nos com um exemplo. Bem se pode dizer que S. Luiz Gonzaga apenas começou em seus primeiros momentos de razão a conhecer a Deus, já começou a amá-Lo. Vós o vereis ainda tenra criança, nos cantos mais escondidos de sua casa, procurar na solidão o seu Deus. E corno Deus está pronto para manifestar-se a quem o procura na simplicidade do coração, assim é Luiz laborioso em fazer que nenhum outro pensamento e afeto lhe distraísse a mente ou lhe ocupasse o coração; portanto cinge de rigorosa custódia todos os sentidos. O seu espírito se levanta pronto para uma altíssima contemplação da divina Beleza, e crescendo o conhecimento, cresce igualmente o amor. Gostaria de poder mostrar-vos aos pés dos altares depois que lhe foi concedido receber em si, debaixo das espécies sacramentais, o seu Deus; do aceso vivo da sua face, ao tépido rio de lágrimas que lhe sai dos olhos, bem podereis conhecer que chama, que fogo arde e inflama no seu peito juvenil. Que rápidos progressos não fez este fogo em Luiz! Fecha, todavia, o mundo com fortes obstáculos todos os caminhos para segurá-lo nas suas cortes; o amor forte e vigoroso lhe abre em breve o caminho pelo qual voará para unir-se mais estreitamente com seu Bem no seguro recinto de um claustro.
Aí seu amor cresceu tão alto que nos poucos anos que sobreviveu não se saberia dizer se fosse Luiz, ou melhor, Deus que vivesse em Luiz. Na sua mente não havia senão Deus; na sua vontade, em seus afetos não havia senão Deus; se ele olhava, em tudo não via senão Deus, nem outra coisa apreciava senão Deus. Enfim todas as suas obras exteriores não somente eram feitas por Deus, mas delas
transparecia ainda um não sei que de divino; de em qualquer exercício que fizesse a sua simples visão levava mais para as coisas divinas o coração de muitos que o contemplavam por devoção, que não qualquer outro meio, por quanto eficaz, ele pudesse usar para excitar-se ao fervor. Eis, portanto, a que ponto Luiz levou seu amor.
6. - Amemos Deus, Amemos Deus!
Ah! Irmãos, se conhecêssemos um pouco só quem é Deus! Que grande felicidade seria a nossa de poder amar uma Bondade tão grande! De que imenso bem seria para nós fecundo um amor tão santo! Eu bem sei que olvidaríamos de tudo e de nós mesmos, para que todos os nossos pensamentos e todos os nossos afetos fossem de Deus e em Deus. Oh! Sacudamos de uma vez estas trevas que se adensam tão espessas ao redor dos nossos olhares, aceitando oportunamente aquele raio tão vivo de luz, que
a fé já vibra neste ponto sobre nosso espírito. Deus nos ordena amá-Lo, e nos ameaça de morte eterna se negamos a Ele este amor; promete vida eterna e a Si mesmo em prêmio a quem o ama. Ele preveniu nos amando. Antes que nós existíssemos, Ele já nos amou; não podíamos ainda pensar Nele, e Ele já tinha todo o mais terno cuidado para conosco. Lançou grande cópia de bens de natureza e de graça sobre nós, embora não fosse ainda possível a nós reconhecer o benefício e muito menos a mão benéfica de quem nos abençoava. Finalmente o conhecemos, e foi então que a sua Bondade foi paga
pela mais negra ingratidão. Ingratos e inimigos, não deixou, porém, de nos amar, antes parece que seu amor mais se reforçou. Ah! Irmãos! Um olhar só a esta cruz; ela vos dirá como este Homem-Deus já
comprou o vosso coração pelo caro preço de todo seu Sangue. A nossa alma é filha adotiva de Deus de quem trás impresso o ilustre semblante e a clara imagem; tornou-se por graça superior à sua natureza, divinizada, deificada, à qual se prestam os Anjos para servir com cobiçado cortejo. Cristo é seu irmão, e a alma tem em comum com Ele a herança e o reino. Uma alma, portanto , de tão alta origem, ornada de inefáveis qualidades, a quem a daremos nós como esposa? A quem mais, senão ao Amor divino? Amemos a Deus, amemos a Deus!

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