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6 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Os Benefícios Divinos.

XIV - A BELEZA DA GRAÇA (1)

"Vivamos uma vida nova" (Rm 6, 4). A novidade da vida não é outra coisa senão o estado, por si tão desejável, da graça. E embora a graça de Deus para se fazer amar apresente em si muitas qualidades e todas excelentes, eu escolho aqui uma só: a beleza.
1. - Qual seja a beleza da graça
Para manifestar esta beleza - que é toda espiritual e celeste - é necessário que eu tente, por quanto posso, trazê-la próximo dos vossos sentidos, e fazê-la quase descer um pouco para aproximá-la de vós: mas convém a vós também de vos elevar quanto puderdes, e de aguçar bem vossa vista, antes, direi, de abrir outros olhos para poder admirá-la.
Por mais fino que seja o vosso gosto e delicado juízo que tendes formado do belo observando e confrontando estes objetos sensíveis que vos circundam, este gosto e este juízo é muito baixo e grosseiro para aplicá-lo em discernir a beleza do espírito. Apenas vos pode servir de escada, subindo pela qual a mente sobre o barro das aparências corpóreas, encontre-se a ver um objeto excelentemente belo, mas que não cai debaixo dos sentidos, com um olhar mais depurado.
Finjamos, portanto, diante de vós duas pessoas. A primeira que eu vos apresento é um velho já carregado de anos e decaído. Calva a cabeça, rugosa a fronte, encovados os olhos, descarnadas as faces, quase afundada a boca entre o nariz e o queixo, curvo o dorso que já se inclina para o sepulcro, mal se mantendo sobre duas pernas descarnadas, emagrecidas, trêmulas. Observai bem que é privado da graça exterior.
Ao lado dele vede um jovem pela cor, pela proporção, pela graça, pela formosura do porte, o mais belo, o mais bem formado.
Vós contemplastes os dois. Agora saibais que este jovem é verdadeiramente um ladrão, um perjuro, um sacrílego, desonesto, avarento, adúltero, um sicário, um homicida. Este velho, ao contrário, é um homem justo, inocente desde os mais verdes anos, casto, esmoler, manso, benfeitor, repleto em suma de todas virtudes que o possa tornar-se amável diante de Deus e dos homens.
O que quer dizer que vós, depois de um testemunho tão conciso, já retirais com despeito o vosso olhar amargo e desgostado do segundo como se fosse a peste; e o vosso coração ao contrário se apega àquele velho virtuoso sim, mas definhado e espoliado da beleza aparente, e se sente levado a amá-lo para comprazer-se nele? (2).
Vede pois - diria S. Agostinho - vede que há uma beleza escondida e secreta de muito maior força que não a sensível; uma beleza espiritual que, porém, só com a mente pode ser vista (3). Vós a vistes porque o vosso coração foi a ela atraído e com igual violência tomado e vencido. Esta é a beleza da virtude.
2. - A beleza da graça é sobrenatural e totalmente celeste
Vós destes um bom passo para chegar onde eu queria; mas nem aqui devemos nos deter.
A graça é de uma ordem ainda superior que a virtude. Ora se tanta é a beleza da virtude que não obstante uma aparência ingrata, desagradável, atrai tão fortemente o coração que a mais sedutora beleza sensível, em confronto não somente cede, mas torna-se abominável e odiosa - não obstante a virtude que aqui observamos, não é mais que uma perfeição natural da alma -: quanto maior será a
beleza, o esplendor, o decoro da graça, que é uma qualidade sobrenatural e realmente celeste?
Se eu, portanto , vos dissesse que uma alma em graça possui uma tão rara beleza, que muito se aproxima, antes se iguala àquela claríssima e puríssima beleza que é própria das espirituais naturezas celestiais, quero dizer dos Anjos, antes daqueles mesmos espíritos entre eles mais elevados e sublimes, que são os Querubins e os Serafins, eu direi ainda pouco; enquanto a verdade é que a Graça é uma "participação da própria natureza de Deus", daí é assim que fala adequadamente S. Tomás: Aquilo que existe substancialmente em Deus, se transforma acidentalmente na alma que participa da Bondade divina" (4). Seria necessário, pois, conhecer a beleza de Deus para ter uma justa idéia da beleza de uma alma em graça. Por isso a própria dificuldade em poder chegar tão alto com
nosso pensamento é tê-la de qualquer modo conseguido. Boa idéia daquilo que excede toda idéia material é ter conhecido não poder formar dele uma idéia.
A alma na graça de Deus é como um espelho polido, que em si reflete o fúlgido sol da Divindade. Qual será pois a sua luz? Qual seu candor? Qual sua claridade?
Quereis vê-la? "Aquela glória, ó Pai - diz Cristo - que tu me deste, esta eu lhes dei" (Jo 17, 22). Como o ferro unido ao fogo participa da natureza do fogo, assim a alma unida por graça a Deus participa de um ser divino.
Falo de coisas altas convosco, porque a coisas altas fostes chamados; não só chamados como aqueles a quem foram feitas tão excelsas promessas, mas estais em posse de um dom tão precioso, segundo o que escreve S. Pedro: "maiores e mais preciosas promessas, afim de que por elas vos torneis participantes da natureza divina" (2Pr 1, 4).
Falo de vossas almas irmãos, que tementes a Deus na sua graça viveis. Da tua alma eu falo pobre operário, simples mulherzinha, que no meio das trevas de uma obscura e vil condição, debaixo da tristeza de ásperas e maltrapilhas vestes, guardai intacta aos olhos do mundo uma gema tão rara de celeste esplendor. Feliz pobreza que defende tão grande riqueza! Amável deformidade sob a qual se
esconde uma tão divina beleza!
3. - A beleza da graça nos seus eleitos
Consideremos a beleza da graça descendo aos seus efeitos. A "Justificação" de fato - ou seja a justiça da alma - é um efeito dela. Esta justiça importa numa retidão de ordem na mesma disposição do homem, de maneira que a parte superior que é o espírito, seja submissa a Deus, e as forças inferiores da alma se sujeitem à parte superior (5).
A Beleza conforme a definiu em muitos lugares S. Agostinho, não é outra coisa senão uma grata, harmoniosa, ordenada correspondência, ou seja uma ordem de partes bem proporcionadas (6). E para que melhor a possais ver mesmo com estes vossos olhos, eis que eu tomo da Escritura sagrada as cores para pintá -la sensivelmente em uma alma que a possui.
4. - Retrato da Graça
Começamos da cabeça. Seus cabelos são loiros semelhantes ao ouro e vagamente mesclados; porque estes pensamentos celestes que o Espírito Santo coloca nesta alma inflamam seu coração de amor, e do próprio Espírito em Deus são ordenados, restritos, compostos.
Seus olhos são como de pombas, sumamente claros e luzentes de um seu natural esplendor; brilha neles uma luz viva de ciência pelo que bem conhece a vileza das coisas temporais; e de uma amável sinceridade são ornados, pelos quais não apegando-se às coisas terrenas, quase abjetas, por eles sobe a Deus, em quem como em própria mansão repousa.
As faces coradas e de vermelho tingidas (Ct 5, 13) da modéstia, que provém do interno amor do pudor, e da castidade.
Os lábios quase de coral ou de rubi (Ct 4, 3; 5, 13) isto é pleno da mais fervorosa caridade; pois ou fale ela, esta alma, com Deus ou com o seu próximo, não tanto ela quanto o amor e a própria caridade parece que fale por sua boca. E porque a caridade é sempre alegre - não porém dissoluta - por isso é que seus lábios estão sempre em posição de um doce, modesto sorriso.
O que pode haver de fato de mais cândido do que esta alma que rejeitado de si toda a imundícia exterior, leva sua pureza até o pensamento? O que mais forte que ela, junto de quem a tribulação é tida como alívio; o insulto , honra; a pobreza, abundância? Ela, pois, vivendo na carne esquece a carne, daí dizer o Apóstolo: "Vós, pois, não estais na carne, mas no espírito" (Rm 8, 9), porque não tendo solicitude e muita preocupação dos cuidados mundanos, em paz, em Deus dorme e repousa. Ela reputa intolerável qualquer impedimento que a afaste ou a separe de  Deus; assim ela se cerca ao redor e se defende com o exercício incansável das virtudes mesmo diante da presença dos seus inimigos. Ela suplica e roga por todo o corpo da Igreja, isto é pelos vivos e não menos pelos mortos; e quanto mais avança em anos, mais lhe aumenta o fervor; e com quanto mais rapidez se esforça para
correr quanto mais percebe avizinhar-se da sua palma (7). Pois a oração eleva-lhe alta a mente da terra para Deus; e pela oração ela atrai o Espírito de Deus, que refrigera o calor da concupiscência, anima e corrobora a mente, conforme aquelas palavras do Salmo: "Abri a minha boca e atrai o Espírito" (Sl 118, 131).
5. - A graça de Deus deve ser a todo custo conservada e aumentada
Eu acredito, irmãos, que ninguém que se encontra entre vós, que depois de ter contemplado ainda que fugazmente a Beleza da divina Graça, não sinta aceso no peito um vivo fogo de puríssimo amor de fervorosos desejos. Permiti que eu vos fale com toda simplicidade e com o coração - como se costuma dizer - sobre os lábios.
Entrai um pouco dentro de vós. Possuís vós uma beleza tão amável? Estais vós no estado tão desejável da Graça de Deus? Se a graça de Deus está em vós, que resoluções não tomareis para não perdê-la jamais! Como não vos preparareis com sumo fervor a estudar os meios mais necessários e mais úteis para conservála?
Com quanta franqueza e santo ardor não vos movereis para tirar as ocasiões que tendem, ainda de longe, a destruí-la! Que se a tudo isto e por vós mesmos, e com o conselho de quem vos dirige interiormente, já providenciastes cautelosamente e bem pensado com sabedoria; como não vos esforçareis com o auxilio de Deus para acrescê-la e avantajá-la cada dia mais?
Não ouvistes jamais que a estrada dos justos é como a luz esplêndida do sol, que nasce, cresce e avança sempre até que chegue até ao meio dia perfeito (Pr 4, 18). E que o Senhor dispõe no seu coração como que muitos degraus de uma escada, subindo pelos quais não mais pareis de subir, até que vos vejais diante do vosso Deus lá em cima no céu?
6. - Se perdida, a Graça deve ser recuperada o mais rápido possível
Se algum, pois, entre vós talvez entrando em si mesmo, soubesse ter já perdido a graça, tendo em si aceitado o pecado mortal; oh! Deus! Como não se apressará ele a depor uma tão estranha deformidade do seu espírito, propondo desde este momento lavar-se o mais rápido possível nas águas da sacramental Penitência suas imundícies, para revestir-se da perdida primeira beleza? Como
poderá diferir mesmo um só momento para limpar com lágrimas de amaríssima contrição aquelas culpas que lhe emporcalham a alma tão vergonhosamente, e lhe maculam vergonhosamente o coração?
"Filhos dos homens, até quando sereis de coração pesado? Porque amais a vaidade e buscais a mentira?" (Sl 4, 3).
Tendes diante de vossos olhos a verdadeira luz, e ainda permaneceis nas trevas? Mostra-vos tão doce e amável a verdade, e ainda vos mantêm entre suas falácias os vossos vãos erros? Descobre-vos uma Beleza que bem merece todos vossos afetos, e vós ainda mante ndes vosso coração ligado e aviltado no lodo e na sujeira?
Ai! Se assim estultos e insensatos nos viram os anos passados, nos vejam neste dia, recuperados e renovados. Voltemo-nos para Deus com todo o coração; converta-mo-nos verdadeiramente de uma vez, e chorando as faltas cometidas imploremos diante dele a misericórdia: "piedade, piedade".
7. - Cria em mim, ó Deus, um coração puro
Ah! Meu Criador! Meu verdadeiro princípio, - meu Deus! eis que só pela minha língua, todas estas criaturas vossas, diante da vossa presença prostradas, confiantemente, ao mesmo tempo unidas em um só desejo, com nova e forte instância vos pedem: "Dai-nos um coração puro" (Sl 50, 19). Quem mais poderá limpar quem traz a imundície desde a sua origem, se não só vós, meu Deus? Quem
mais poderá produzir do nada, e chamar a uma nova existência alguma coisa - não direi coisa tão boa como a vossa Graça, que limpa, purifica, embeleza novamente nossos corações - se não vós, ó meu Deus?
Nada de fato nós bem nos conhecemos ser: nada de merecimentos, abaixo de nada - podemos assim dizer - pelos nossos múltiplos pecados. Mas vós justamente - de um tão horrendo nada, podeis e quereis ainda - o esperamos - constituir o nosso coração em um novo ser segundo a graça: Vós que ao "perdoar e em usar misericórdia costumais manifestar singularmente a vossa onipotência" (8);
de modos que começando nós ser quase novas criaturas em vós, possamos "nós caminhar na novidade da vida".
E é por isso que nós, sabendo que vos são agradáveis os nossos bons desejos, ousamos pedir-vos ainda "renovar um espírito reto em nossos corações" (Sl 50, 19).
Renovai nosso espírito, ó meu Deus; muito o envelheceram os diuturnos hábitos e os antigos costumes da iniqüidade. Retificai-o, porque os nossos inimigos curvaram nossa alma; e nós mesmos consentindo, curvamos o nosso espírito abaixando-o às terrenas concupiscências.
Fazei, pois, de novo que seja reto com aquela retidão com que o haveis criado antes, elevando-o a esperanças mais elevadas em vós; onde cada um de nós possa provar "Quão bom sois, ó meu Deus, àqueles que têm o coração reto" (Sl 72, 1). E possamos um dia finalmente, não mais debaixo de véus e na sombra escura da fé - como agora Vos adoramos debaixo das Sagradas Espécies - mas a face
aberta, segundo prometestes aos limpos de coração, contemplar-vos, amar-vos, possuir-vos por todos os séculos, verdadeiro Centro, único Término, e Fim último dos nossos corações. "Ó meu Deus, criar em mim um coração puro, e renovar-me o espírito de firmeza".

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