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9 de julho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

XVIII
IN MEI MEMORIAM

Todos os mistérios de Cristo são essencialmente mistérios de fé; sem a fé não podemos aceitar
nem contemplar nenhum.
Todavia, o grau de luz que alumia a nossa fé é diferente em cada um deles. Olhai para Belém. No presépio, vemos apenas um menino; sem a fé, não reconheceríamos n' Ele o Filho de Deus, Senhor soberano de todas as criaturas; mas ouvimos a voz dos Anjos do céu celebrar a vinda do Salvador da  terra; vemos uma estrela maravilhosa conduzir a Seus pés os reis do Oriente. No Batismo de Jesus, os nossos olhos vêem apenas um homem que se submete, como os outros judeus, a um rito de penitência; mas o céu entreabre-se, faz ouvir a voz do  Eterno Pai, que proclama ser aquele homem o Seu Filho amado, em quem pôs as Suas infinitas complacências. Do mesmo modo no Tabor. No mistério da Transfiguração, a fé tem um poderoso auxiliar: a glória da Divindade que penetra a Humanidade de Jesus reflete-se nela: deslumbrados, os discípulos lançam-se por terra. Em contrapartida, a Divindade está velada, quando Jesus Cristo morre na cruz, como o último dos homens, no meio dos suplícios; e, no entanto, o Centurião proclama que Ele é o Filho de Deus; a
própria natureza., pelas perturbações que sofre naquele instante único, presta solene homenagem ao seu Criador. Na Ressurreição, que vemos? Jesus resplandece de glória; mas, ao mesmo tempo, prova aos Apóstolos que é sempre o mesmo, homem perfeito e Deus perfeito; deixa que Lhe toquem, come com eles, mostra-lhes as cicatrizes das chagas para lhes provar que não é um espírito mas, que é o mesmo Jesus com quem viveram três anos.
Já vedes que, se em cada mistério de Cristo se encontra alguma sombra para a nossa fê ser meritória, esta, contudo, é sempre ajudada por uma luz que neles brilha; em todos eles vemos manifestar-se a inefável união da Divindade com a Humanidade.
Há, porém, um mistério em que Divindade e Humanidade, em vez de se revelarem, desaparecem ambas dos nossos sentidos: é o mistério da Eucaristia.
Que está no altar antes da consagração? Um pedaço de pão, um pouco de vinho. E depois da 
consagração? Para os sentidos - tato, vista, gosto - o mesmo pão, o mesmo vinho. Somente a fé é capaz de penetrar através desses véus até à realidade divina que neles se oculta totalmente. Sem a fé, nunca veremos mais que pão e vinho; não vemos a Deus, que se não revela ali como no Evangelho: «e nem sequer vemos o Homem»:
In cruce latebat sóla déitas
At hic latet simul et humanitas 

Quando Jesus Cristo, durante a Sua vida terrestre, proclamava que era o Filho de Deus, apresentava as provas. Via-se, sim, que era um homem, mas um homem «cuja doutrina não podia vir senão de Deus»: Quem enim misit Deus, verba Dei loquitur; um homem «que operava maravilhas que só Deus pode operar»: A saeculo non est auditum quia quis aperuit oculos caeci natí; nisi esset hic a Deo, non poterat facere quidquam. O fariseu Nicodemos, bem como o cego de nascença, reconheciam-no igualmente: Scimus quia a Deo venisti; nemo enim potest haec signa facere, quae tu facis, nisi fuerit Deus cum eo - «Mestre, sabemos que vieste de Deus, pois ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele". Era preciso ter fé, mas os milagres de Jesus e a sublimidade da Sua doutrina ajudavam a fé dos judeus, tanto dos simples como dos sábios.
Na Eucaristia só a fé pura tem lugar, baseada unicamente na palavra de Jesus - "Este é o meu corpo,
este é o meu sangue»: a Eucaristia é, acima de tudo, um «mistério de fé": mysterium fidei.
É por isso que neste mistério, mais do que em todos os outros que até agora contemplamos, devemos ouvir unicamente a Jesus. A razão é tão acanhada que aqueles que neste mistério não ouvem a Cristo têm de dizer como os judeus aos quais Nosso Senhor anunciava a Eucaristia: Durus est hic sermo, et quis potest eum audire" -  Palavra dura, quem a pode suportar "? E afastavam-se de Cristo. Nós, pelo contrário, vamos para Jesus, como fizeram nessa altura os Apóstolos fiéis, e digamos-Lhe com Pedro:  "Senhor, para quem iremos? Só Vós tendes as palavras de vida eterna; cremos e sabemos que sois o Cristo, Filho de Deus vivo": Domine, ad quem ibimus? Verba vitae aeternae habes. Et nos credidimus et cognovimus quia tu es Christus Filius Dei vivi.
Interroguemos, pois, Nosso Senhor, a respeito deste mistério. Jesus Cristo é a verdade infalível, a Sabedoria eterna, a Omnipotência. Porque não há de realizar o que prometeu?

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